SOBRE O EDIFÍCIO
As actividades portuárias de Lisboa conhecem, a partir de meados do século XVI, uma grande renovação, provocada pelo constante desenvolvimento do comércio marítimo, decorrente da consolidação da Expansão e da própria reconfiguração estratégica do chamado Império Marítimo Português. É neste contexto que a saturação das estruturas manuelinas de armazenamento e de produção (construção naval; artilharia) e as próprias dinâmicas urbanas e sociais impuseram a progressiva expansão da cidade para Oeste e em particular para os “salgados” (praias) contíguos ao velho sítio medieval de Cata-Que-Farás.
As actividades portuárias expandem-se cada vez mais na direcção de Santos-o-Velho, nisto acompanhando a expansão urbana da cidade nesta direcção, com a criação de vários conventos e até a construção de uma igreja nova, a monumental Igreja de S. Paulo (c. 1570), sede da mais moderna e a seu tempo mais rica paróquia ribeirinha da cidade. A via principal desta nova Ribeira ocidental era a quinhentista Rua Direita da Boa Vista, assim descrita por Frei Nicolau de Oliveira nos inícios do século XVII: “daquy se vem entrãdo pera a Cidade por huma muy apraziuel entrada, e tanto que por excellencia se chama a Boa Vista, ficando da parte direita o Rio com muitas embarcações de muy grandes Naos, Galeões, Nauios mais piquenos de todo o comercio, e conquista com suas Galees” (Oliveira, 1991, fl. 117).
Esta expansão portuária (que se acentua no século XVII) proporcionará uma nova frente fluvial à cidade, onde se recuperarão as velhas vivências quase anfíbias entre a terra e o mar, mas onde se ensaiarão, com o maior sucesso, novas estruturas portuárias, novas estruturas de produção, novos equipamentos, e sobretudo novos espaços de armazenamento, estruturas estas construídas em quantidades e com escalas verdadeiramente inéditas. A construção destas estruturas foi a resposta às alterações profundas vividas na organização e nas dinâmicas do comércio marítimo, que impuseram novos enquadramentos institucionais e empresariais, bem como novas frentes estratégicas, cada vez mais atlânticas e cada vez mais lucrativas, que alimentariam a prosperidade dos seus agentes. Esta expansão portuária suscitou e financiou a construção e adaptação de novos cais e ancoradouros, estaleiros, “estacadas”, telheiros e abarracamentos de toda a ordem e sobretudo a construção de vastas, modernas e seguras estruturas de armazenamento.
Este é o mundo animado e muito próspero dos “almazens”, das “logeas” e “ataracenas”, construídas aquém e além de Santos, ocupando os espaços ribeirinhos disponíveis, ainda não urbanizados, fronteiros às “barrocas” ou escarpas que delimitavam as estreitas praias das redondezas. Muitas dessas estruturas de armazenamento sobreviveram parcialmente e ainda hoje se encontram naves de tercenas quinhentistas, reconvertidas em lojas de comércio, nomeadamente na face Norte da Rua da Boa Vista. As mais importantes, porém, são as que sobrevivem, em mau estado de conservação, no espaço localizado entre o que foi a praia de Santos-o-Velho e o que seria a futura Rocha do Conde de Óbidos. São as chamadas Tercenas de José António Pereira, localizadas na Travessa com o mesmo nome, o do seu proprietário na época pós-pombalina, José António Pereira (?-1817), armador, comerciante e negociante de escravos.
Este era proprietário de vários navios, com rotas que ligavam Lisboa ao Malabar e à costa ocidental da Índia, a Moçambique, Chacheu, Bissau, Angola, São Tomé, Brasil, Montevideu e Buenos Aires, dispondo ainda de uma rede de parceiros em várias cidades do norte da Europa, todos diretamente ligados ao tráfico de escravos, negócio que lhe permitiu acumular a sua fortuna (Machaqueiro, 2023). Cerca de 1796, Pereira comprou as casas do desembargador Francisco Ferreira Nobre, na rua das Janelas Verdes, e o conjunto constituído pelas tercenas e por um cais privativo onde podiam atracar as suas embarcações. José António Pereira promoveu obras na habitação e nas tercenas, como atestam várias inscrições gravadas em placas apostas nas paredes, na zona da doca e do armazém, assinalando as datas em que foram realizadas (1799, 1801, 1805). As tercenas, de configuração muito simples e de fenestrações sóbrias, mas de sólida estrutura, estão articuladas entre si por passadiços aéreos, apoiados em arcos, isolados ou emparelhados, de grande vão. Estes arcos, lançados a grande altura, ligam os eirados do topo dos edifícios do complexo, protegidos por uma platibanda cega que, apoiada num friso simples, pontuado por goteiras de típico desenho setecentista, percorre todo o conjunto e alcança os próprios arcos de ligação entre os diversos corpos
As tercenas, de configuração muito simples e de fenestrações sóbrias mas de sólida estrutura, estão articuladas entre si por passadiços aéreos, apoiados em arcos, isolados ou emparelhados, de grande vão. Estas arcos, lançados a grande altura, ligam os eirados do topo dos edifícios do complexo, protegidos por uma platibanda cega que, apoiada num friso simples, pontuado por goteiras de típico desenho setecentista, percorre todo o conjunto e alcança os próprios arcos de ligação entre os diversos corpos.
Este vasto complexo, verdadeiramente monumental, tinha, porém, raízes muito mais antigas: eram as “Terezenas da Pampulha”, um “Sitio de Lisboa” já assim identificado pelo P.e D. Raphael Bluteau. Escrevendo no início do século XVIII, o dicionarista diz-nos que “O que hoje chamão em Lisboa Tercenas, saõ huma fileyra de casas iguaes, abayxo da Freguesia de Santos, sobre o Rio, que servem de celleyros, &c. neste sentido lhe poderàs chamar Horrea publica” (Bluteau, 1712, Vol. VIII, p. 48). Escrevendo quase duzentos anos depois, numa época de profunda transformação urbana do sítio, Júlio de Castilho faz delas a seguinte descrição: “Há anos, antes do Aterro [que deu origem à Av. 24 de Julho], lavava o Tejo a base das musgosas paredes, todas de silharia grossíssima, dessa longa renque uniforme de taracenas. Eram edifícios singelos, negros, com três andares de mesquinhas janelas quadradas, quase frestas de prisão, gradeadas sobre o Tejo, e uma ou outra porta chapeada, sobre degraus, onde as fragatas e faluas vinham desembarcar os géneros que os mercadores acumulavam em tão vastos depósitos” (Castilho, 1968, Vol. V, p. 57).
Estas tercenas poderão resultar da adaptação e expansão de estruturas de armazenamento de tutela régia mais antigas, comprovadamente existentes junto à praia de Santos-o-Velho, afectas nomeadamente à Casa da Índia. Com efeito, é conhecida a fortíssima explosão ocorrida a 13 de Dezembro de 1576 em armazéns já aqui localizados, que então serviam, provavelmente a título provisório, de depósito de pólvora, no momento em que D. Sebastião preparava a II Jornada de África (Castilho, 1968, Vol. V, p. 57). Treze anos depois, em 1589, estas mesmas tercenas, certamente já reconstruídas, são incendiadas a mando da própria Câmara de Lisboa, como forma de resistência à invasão dos Ingleses naquele ano, que ocorrera em articulação com as estratégias de tomada do poder do pretendente D. António, Prior do Crato: “ordenou-o a Vereação da Cidade, para que os Ingleses se não aproveitassem dos víveres e mantimentos ali acumulados” (Castilho, 1968, Vol. V, p. 62).
As Tercenas da Pampulha, captadas pela iconografia, eram um conjunto de casarões de três pisos, agrupados entre si e orientados paralelamente ao rio, erguidas provavelmente a partir de 1589. Eram estruturas meramente utilitárias, construídas para armazenamento e eventual comercialização de mercadorias diversas, certamente de origem estrangeira e sobretudo ultramarina. Desempenhavam funções verdadeiramente estratégicas no quadro das intensivas rotas comerciais de âmbito ultramarino que tinham o seu epicentro no porto de Lisboa.
O segmento mais antigo destas tercenas, contíguas às Tercenas de José António Pereira, é o que está localizado na face Norte do chamado Corredor da Torrinha, um importante beco na parte ocidental do complexo, outrora certamente erguido sobre ou próximo da linha de água. Para ele dá uma vasta frente de armazéns de três andares, de fenestrações regulares e onde, no piso térreo, se destacam os jogos alternados de simples portas de serviço, face a outras portas de grande vão, indispensáveis à facilitação de cargas e descargas. Os espaços interiores, tendo em conta o que chegou até nós, são muito regulares e estão organizados em naves orientadas perpendicularmente ao rio, definidas por fiadas de pilares monolíticos de secção quadrada. Os pilares sustentam arcos abatidos, de alvenaria de tijolo, orientados longitudinalmente, isto é, no sentido das naves, e sobre eles se apoiam as estruturas de madeira dos sobrados. Com efeito, ressalvando alguns espaços térreos abobadados, a generalidade dos espaços é sobradada, o que pode estar relacionado com exigências relativas às melhores condições de conservação e até de secagem de produtos, comestíveis e não comestíveis, maioritariamente de origem ultramarina.
Tendo em conta as suas funções estritamente utilitárias, estas Tercenas, desprovidas de ornatos, estavam em grande medida afastadas da linguagem que normalmente associamos à arquitectura clássica. No entanto, no “Grande panorama de Lisboa” em azulejos e na “Vista” da Academia Nacional das Belas-Artes, as Tercenas de Santos merecem destaque pela sua vastidão e regularidade, pela sua implantação urbana verdadeiramente estratégica e pelas suas funções seculares de armazenamento e guarda de mercadorias e aprestos de toda a natureza. Enfim, na sua monumentalidade intrínseca, estas tercenas constituem ainda hoje o melhor testemunho do que foi a velha e pujante vida portuária de Lisboa.
Carlos Caetano
Atualização: Michela Degortes
Como citar: Carlos CAETANO, “Tercenas de Santos” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
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BOHORQUEZ, J. MENZ, M. – “State Contractors and Global Brokers: The Itinerary of Two Lisbon Merchants and the Transatlantic Slave Trade during the Eighteenth Century”, In Itinerario, Vol. 42, No. 3/2018, pp. 403–429.
CAETANO, Carlos – A Ribeira de Lisboa na Época da Expansão Portuguesa (Séculos XV-XVIII), Pandora, Lisboa, 2004.
CASTILHO, Júlio de – A Ribeira de Lisboa – Descrição Histórica da Margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho, Câmara Municipal de Lisboa, Vol. V, 2.ª Ed. Lisboa, 1968.
LIMA, Durval Pires de (Ed.) – “O ataque dos Ingleses a Lisboa em 1589 Contado por uma Testemunha – Memória anónima” in Lisboa e o seu Termo – Estudos e Documentos, Vol. I, Ass. dos Arqueólogos Portugueses, Lisboa, 1947.
OLIVEIRA, Frei Nicolau de, Livro das Grandezas de Lisboa (reimpressão da edição de 1620), Vega, Lisboa, 1991.
Internet
MACHAQUEIRO, Raquel – “José António Pereira, a Portuguese Merchant and Eslaver” (November, 29, 2023) in https://slavewrecksproject.org/blog/jose-antonio-perreira-sao-jose/ (consultado 2026-05-30)
DEGORTES, Michela – “Palacete Pombal na Rua das Janelas Verdes” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026. WEBSITE AQUI