Ruinas da Igreja Patriarcal – Sítio da Patriarcal Queimada

SOBRE O EDIFÍCIO

A edificação de uma nova Igreja Patriarcal no Alto da Cotovia resultou da necessidade de reconstruir a basílica original, destruída pelo terramoto de 1755, juntamente com o contíguo Paço da Ribeira. Após a avaliação de vários locais para a instalação da nova Patriarcal — entre os quais o convento de São Bento da Saúde, para o qual Carlos Mardel elaborou um estudo —, a escolha recaiu sobre um terreno pertencente à Companhia de Jesus, situado no Alto da Cotovia. O bairro da Cotovia, que se estendia desde o caminho dos Moinhos a Vento — atual Rua D. Pedro V — até ao Largo do Rato, caracterizava-se por amplas áreas campestres que, desde o século XVII, vinham sendo alvo de um processo contínuo de urbanização, em virtude da sua localização privilegiada.

O local selecionado para a construção da Patriarcal integrava os terrenos outrora pertencentes a João Gomes da Silva Teles (1671–1738), marquês de Alegrete e conde de Tarouca por casamento com D. Joana Rosa Maria de Meneses, 4.ª condessa de Tarouca. Em finais do século XVII, João Gomes da Silva Teles, figura relevante no panorama cultural da sua época, terá iniciado nesse local a construção da sua residência. O viajante suíço Charles Frédéric de Merveilleux, nas suas Memórias Instrutivas sobre Portugal (1723–1726), refere-se a esta obra como algo que iria ultrapassar «em grandeza todos os palácios de Lisboa» (Tostões, 1994, 94). O grandioso palácio, com risco do arquiteto João Antunes (Coutinho, 2018, 80), porém, nunca chegou a ser concluído, passando o sítio a ser conhecido como “as obras da Cotovia” (Sequeira, 1916, 67) ou como local das “obras do Conde de Tarouca”. Nos anos quarenta do século XVIII, o terreno encontrava-se num grave estado de degradação, sendo utilizado como lixeira do Bairro Alto (Sequeira, 1916, 70). Foi então vendido pelo marquês de Penalva, sucessor do conde de Tarouca, aos padres da Companhia de Jesus, já proprietários dos terrenos contíguos.

Em 1756, o terreno foi escolhido para a instalação da nova Igreja Patriarcal, inaugurada a 8 de junho de 1757 (Sequeira, 1916, 103). As obras, que recorreram ao reaproveitamento das grossas cantarias do palácio inacabado do conde de Tarouca, estariam concluídas em 1761 (Tostões, 1994, 94). Um pórtico dava acesso à Basílica, de três naves, estando o corpo da igreja integrado no conjunto das dependências do edifício, de acordo com a “Planta Geral da S. Igreja Patriarcal que se acha edificada em todo o vão do Pallacio chamado do Conde de Tarouca”[1], com traço de autoria de João Pedro Ludovice (1701-1760). Todavia, a igreja revelou desde cedo problemas de instabilidade estrutural, nomeadamente na torre sineira provisória, armada em madeira, que já em 1764 ameaçava ruína, e na capela-mor, cuja estrutura teve de ser reforçada em 1768. Em maio de 1769, um incêndio ateado destruiu o edifício, seguindo-se outro, em agosto do mesmo ano, que arrasou a torre sineira. Estes dois episódios encontram-se representados em duas pinturas de Joaquim Manuel da Rocha[2], que constituem raros testemunhos iconográficos do edifício e das circunstâncias da sua destruição.

Após este episódio, o local passou a ser conhecido como “sítio da Patriarcal Queimada” e a Patriarcal foi transferida para vários locais – a saber, a igreja de São Roque, o convento de S. Bento da Saúde, o mosteiro de São Vicente, a igreja Paroquial da Ajuda (Sequeira, 1916, 109).  Em 1789, o visconde de Vila Nova de Cerveira, então ministro da Fazenda e presidente do Erário, propôs o aproveitamento do local das “ruínas da Cotovia” para a construção do edifício do Real Erário e da Tesouraria Central do Reino. O projeto foi encomendado ao arquiteto José da Costa e Silva (1747–1819), que concebeu um edifício grandioso, de inspiração palladiana: de planta quadrada, com cerca de 90 metros de lado e 20 metros de altura, desenvolvia-se a partir de um octógono central, eixo da composição, coroado por uma cúpula. As obras tiveram início em 1790 e foram abandonadas em 1797, não só por falta de verbas, mas também devido a problemas técnicos relacionados com a presença de uma falda aquífera identificada durante as escavações.

O sítio da “Patriarcal Queimada” passou então a ser conhecido como o dos “caboucos do Erário”, regressando a um estado de degradação que perdurou até 1833, ano em que o terreno foi limpo e a Câmara incumbida de aí concretizar uma praça. Em 1853, o poeta Castilho idealizou para este local a criação de um complexo arquitetónico destinado a funcionar como um «templo das artes, instrução e ciências» (Tostões, 1994, 96). O projeto, traçado pelo engenheiro-arquiteto camarário Pierre Joseph Pezarat (1801-1872), previa dois edifícios: um destinado a anfiteatro para a realização de conferências e cursos livres, e outro vocacionado para espetáculos musicais e saraus poético-literários. Contudo, nunca chegou a ser concretizado. Finalmente, em 1863, foi projetada a praça do Príncipe Real, jardim romântico cujo traçado assenta sobre o desenho do Erário, com o reservatório de água central a ocupar o octógono da torre outrora concebida por José da Costa e Silva.

A presença das ruínas da nova Igreja Patriarcal na Vista da Academia Nacional de Belas Artes reveste-se de particular importância, uma vez que constitui um dos elementos que sustentam a datação do desenho. Com efeito, a basílica surge já representada em estado de ruína, ou seja, após o incêndio que a destruiu em maio de 1769, correspondendo, de facto, ao edifício reproduzido nas pinturas de José Manuel Rocha.

Michela Degortes


[1] BNP, D. 14 R “Forma da Planta Geral da S. Igreja Patriarcal que se acha edificada em todo o vão do Pallacio chamado do Conde de Tarouca, delineada por João Pedro Ludovice, e executada pelo Cappitão Eugenio dos Santos”

[2]As duas pinturas encontram-se atualmente no Museu da Fundação Ricardo Espírito Santo, tendo anteriormente pertencido à coleção de Augusto Fialho de Castro.


BIBLIOGRAFIA

Fontes

BNP, Planta da segunda Igreja Patriarcal / delineada por João Pedro Ludovice, e executada por Cappitão Eugenio dos Santos, Cota D.14 R. https://purl.pt/27765

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Norberto de – Peregrinações em Lisboa, livro XI, Lisboa, 1993.

COSTA, Mário – A Patriarcal Queimada, uma síntese da sua história, Separata da Revista Municipal, Lisboa: Câmara Municipal, 1959.

SEQUEIRA, Gustavo de Matos – Depois do Terramoto. Subsídios para a História dos Bairros Ocidentais de Lisboa, Vol. I, Academia das Ciências de Lisboa, 1916, pp. 88 e ss.

TOSTÕES, Ana Cristina – “Praça do Príncipe Real” em FRANÇA, José Augusto (coord.) A Sétima Colina. Roteiro Histórico Artístico, Lisboa, 1994, pp. 90-97.


LOCALIZAÇÃO


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