Reservatório da Mãe da Àgua

SOBRE O EDIFÍCIO

A construção do reservatório da Mãe da Água, segundo projeto de Carlos Mardel (1695–1763), terá iniciado em 1746 na sequência da edificação do Aqueduto das Águas Livres, do qual iria recolher as águas, viabilizando a sua distribuição pela rede de fontes e chafarizes. Ponto terminal do percurso visível do aqueduto, o reservatório é precedido por uma sucessão de dez arcos grandiosos, entre os quais se destaca o arco triunfal das Amoreiras.

O reservatório da Mãe da Água das Amoreiras constitui o único depósito efetivamente construído dos três inicialmente previstos para o interior da cidade, os quais deveriam implantar-se ao longo da linha principal do aqueduto, de acordo com o plano elaborado por Manuel da Maia[1]. Estes depósitos, destinados a assegurar o encaminhamento da água e a «permitir o seu armazenamento em quantidade suficiente para alimentar os vários pontos de distribuição durante as épocas secas» (Duarte, 2005, p. 92), acabaram por ser substituídos por tanques localizados junto dos principais chafarizes (Rossa, 1998, p. 78).

As várias versões conhecidas do projeto do reservatório evidenciam as dificuldades inerentes à resolução dos problemas de estabilidade associados à construção de um grande depósito sobre aterro, sendo fundamental que o local de implantação «viabilizasse o abastecimento por gravidade» (Rossa, 1998, p. 558) a diferentes zonas da cidade. Na primeira versão do projeto, apresentada à apreciação da superintendência da obra em 1745, o reservatório localizava-se abaixo da sua implantação atual, ocupando parte do espaço do Largo do Rato, no lado norte. O edifício assentava sobre um envasamento e organizava-se a partir de uma planta quadrada, delimitada por um pórtico exterior. As três versões subsequentes introduziram alterações decorrentes das opções técnicas adotadas, entre as quais se destaca a implantação do edifício em cota mais elevada e mais recuada. As diversas propostas testemunham a hesitação entre a solução com dois tanques sobrepostos e a opção por um único depósito, bem como as alternativas consideradas para a cobertura, os acessos e o programa decorativo.

O edifício efetivamente construído não desvirtuou o conceito inicial, embora não corresponda integralmente a nenhuma das versões conhecidas, provavelmente por ter havido a intervenção de vários arquitetos ao longo de um processo construtivo que se prolongou até 1834 (Rossa, 1998, p. 78).  A construção, caraterizada pela sobriedade das linhas arquitetónica, assenta sobre um pódio quadrangular elevado que integra o envasamento, ao qual é adossada, no lado ocidental, a Casa do Registo. A entrada ao reservatório é feita no lado Sul através de um corpo saliente adossado ao volume principal, por duas escadarias exteriores. No interior, a água proveniente do topo da arcada aflui ao tanque enfatizando simbolicamente a ligação ao aqueduto e a conclusão do seu percurso.

O efeito de imponência do conjunto arquitetónico, que domina o largo do Rato, é particularmente evidente na representação da Vista da Academia das Belas Artes de Lisboa, onde importa destacar uma cobertura provisória do edifício.  Com efeito, o reservatório ainda «estava por cobrir (…) quando se dão por concluídas as obras das Águas Livres em 1799», apesar de ter sido mandada construir, em 1798, «uma muralha para suster a terra da entrada da Casa da Água a fim de evitar o seu desabamento» (Moita, 1990, p. 48). Enquanto única testemunha de uma fase efémera – ainda que prolongada – do processo construtivo do edifício, a representação do reservatório da Mãe da Água da Vista da Academia das Belas Artes, torna-se particularmente relevante para a iconografia da cidade.

Michela Degortes

Como citar: Michela DEGORTES, “Reservatório da Mãe da Água” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.


[1] Considerações sobre o projecto da condução das Aguas; chamadas Livres, ao Bairro Alto; e explanações sobre as mesmas considerações, offerecidas ao S.r. D.João V, por Manuel da Maya, 1731, transcrito em Moita, 1990, Vol.I.


BIBLIOGRAFIA

DUARTE, João Miguel Couto, “O Reservatório da Mãe D’Água das Amoreiras, ou o Vazio Como Presença”, in Arte Teoria – Revista do Mestrado em Teorias de Arte da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, n.º7, Lisboa, 2005.

MOITA, Irisalva (org.), D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa, 2 vol., Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa 1990.

ROSSA, Walter, Mãe-d’Água das Amoreiras, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa:s.n, 1994, p.557 – 559.

ROSSA, Walter, Além da Baixa – Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa: IPPAR 1998.

SILVA, Augusto Vieira da, O Arco e a Mãe D’Água das Amoreiras, Separata do Número Comemorativo da Exposição de Obras Públicas, do Boletim da Comissão de Fiscalização das Águas de Lisboa, Lisboa, [s.d.].

SILVA, Augusto Vieira da, Dispersos, 3 vol., Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1960.

Internet

Mãe de Água das Amoreiras – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106461221, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana http://www.monumentos.gov.pt  (consultado a 2026-03-17).

Aqueduto das Águas Livres  – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106370253), Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6811 (consultado a 2026-01-29).


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