SOBRE O EDIFÍCIO
Entre as medidas tomadas para fazer frente às consequências do terramoto de 1 de novembro de 1755, consta o recrutamento de forças militares destinadas às operações de socorro à população. A dois de novembro desse ano, logo no dia sucessivo à catástrofe, o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, determinou que se deslocassem para Lisboa os Regimentos de Infantaria de Peniche, de Olivença e de Elvas, bem como os Dragões de Évora. A missão das tropas era fazer frente à situação de calamidade pública através do restabelecimento da ordem, da prevenção da criminalidade e da proteção dos ministros e do clero.
Face ao êxodo da população de Lisboa que, em pânico, se deslocava em massa para as áreas urbanas menos afetadas pelo tremor de terra, as forças militares vieram desempenhar o papel correspondente ao da atual proteção civil, envolvendo-se ativamente nas operações de desentulho, extinção de incêndios e remoção de destroços, entre outras. As tropas foram distribuídas por diversos locais dentro dos limites da cidade[1] – tempestivamente definidos pela lei de 3 de dezembro de 1755, com proibição de construir fora dos mesmos — e instaladas em construções provisórias, os abarracamentos. As áreas escolhidas para o efeito foram a Cotovia de Cima, na zona da atual Praça do Príncipe Real; o Vale de Pereiro, na zona da atual Rua Braamcamp; a Cruz do Tabuado, na zona da atual Praça José Fontana; e a Cruz dos Quatro Caminhos, na zona da atual Rua dos Sapadores. Em 1758, os abarracamentos foram melhorados e transformados em construções de madeira mais funcionais ao acomodamento das tropas.
O Regimento de Infantaria de Peniche ocupava o abarracamento instalado na Cotovia de Cima, tendo deixado rastos da sua presença na toponímia de Lisboa — a atual Travessa do Abarracamento de Peniche, junto à Praça do Príncipe Real. A construção de madeira que abrigava as tropas encontra-se representada na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, que mostra um edifício baixo e alongado, com cobertura de duas águas e pequenas janelas. A planta retangular do abarracamento do Regimento de Infantaria de Peniche está representada na Carta Topográfica de Lisboa e Seus Subúrbios do Capitão Duarte José Fava (1807), que atesta a sua permanência pelo menos até ao começo do século XIX.
Michela Degortes
Como citar: Michela DEGORTES, “Regimento de Infantaria de Peniche” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
[1] Os limites antigos da cidade eram «considerados entre Alcântara e Santa Apolónia, com limites norte em S. João de Bem-casados, Rato, S. Sebastião da Pedreira, Bemposta, Santa Barbara e Quatro Caminhos» (França, 1987, p. 73).
BIBLIOGRAFIA
FRANÇA, José-Augusto – Lisboa Pombalina e o Iluminismo, Lisboa: Bertrand, 1987.
PARENTE, José Melo – “Abarracamentos”, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa: s.n, 1994, pp. 1-2.
SEQUEIRA, Gustavo de Matos – Depois do terramoto. Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Lisboa: Academia das Ciências, 1933, Vol. I.