SOBRE O EDIFÍCIO
Criada em 1767, a Real Fábrica da Louça veio integrar o complexo fabril desenvolvido em torno da Fábrica das Sedas, da qual dependia administrativamente e a nível estatutário. A Fábrica das Sedas — fundada em 1734 por D. João V e reativada a partir de 1757 — constituía o centro impulsionador do Real Colégio das Manufaturas do Rato, um vasto conjunto de unidades fabris diversificadas implantado na área do Rato, com o objetivo de implementar as políticas de desenvolvimento industrial e a «transformação estrutural da produção manufatureira em Portugal» (Rossa, 1998, p. 99) vislumbradas pelo marquês de Pombal. A Fábrica de Pentes de Marfim do francês Gabriel de La Croix (1764), a Fábrica de estuques do milanês Giovanni Grossi (1766) e a Fábrica de Fundição de Metais do mantuano Giulio Gatti (1767), entre outras, faziam parte do bairro fabril edificado a partir de 1759, sob projeto de Carlos Mardel, na área das Amoreiras.
No contexto da produção cerâmica em Portugal, a Fábrica da Louça do Rato marca a passagem entre os modelos artesanais das antigas olarias para a matriz industrial. O primeiro mestre da fábrica foi Tomás Brunetto, ceramista italiano originário de Turim, que dirigiu a fábrica entre 1767 e 1771, liderando uma produção de qualidade, caracterizada pela variedade de modelos, que teve início em 1769. Em 1772, já sob a direção de Sebastião Inácio de Almeida (1771-1779), a Fábrica da Louça contava com cinquenta e nove aprendizes formados como oleiros e pintores de louça, afirmando-se, portanto, como centro de ensino de artífices especializados nessas áreas de produção (Mangucci, 2020). Ao longo da sua existência – tendo passado por várias administrações e diretores – a Fábrica do Rato teve uma produção diversificada de louça e de azulejos, conseguindo captar a tradição oficinal portuguesa e as suas técnicas, acumuladas ao longo de gerações.
O estabelecimento localizava-se junto ao reservatório da Mãe d’Água, nos limites do bairro das fábricas, num «terreno contiguo e dependente do grande Depósito das águas […] e com os seus fornos tão próximos dele que fazem aquecer a água corrente para o chafariz do Rato, quando cozem a louça»[1] (Pais e Monteiro, 2003, p. 34), voltado para a calçada da Fábrica da Louça – atual calçada Bento da Rocha Cabral. Em 1781, uma parte dos terrenos pertencentes à fábrica foi aforada a Luís José de Brito, contador do Real Erário, para a construção da sua residência, o palácio que posteriormente viria a pertencer ao marquês da Praia e Monforte, localizado entre a rua das Amoreiras e a calçada Bento da Rocha Cabral (Sequeira, 1933, vol. III, p. 393).
O edifício da Fábrica da Louça do Rato, reconhecível pelas chaminés, encontra-se representado na Vista da Academia Nacional de Belas-Artes. Tinha dimensões consideráveis, contando com quatro fornos e, entre outras divisões, uma «vasta e clara casa de pintura; muitos gabinetes para guardar obras delicadas; armazém para depósitos […] uma sala para Aula de química […]» (Pais e Monteiro, ibidem).
A partir dos anos vinte de Oitocentos, a Fábrica da Louça do Rato entrou numa parábola descendente, registando problemas e falhas na produção, com o consequente prejuízo económico para a Real Fábrica da Seda, da qual dependia. Em 1835, é tomada a decisão de alienar a fábrica, através da sua venda ou do seu arrendamento a particulares. O anúncio da venda, publicado na Revista de 19 de setembro de 1835, assim descrevia o estabelecimento:
Vai a praça no dia de 21 de setembro de 1835, pela quantia de 5.600#00reis: o edifício em que se acha estabelecida: confronta pelo N com a muralha da Casa da Água. S com a casa do Conde de Viana, nascente com a calçada da fábrica da Louça, poente com a rua Direita do Arco das Águas Livres; compõe-se de um grande páteo de entrada, tendo no fim um tanque, que recebe uma penna de agua do Aqueduto Geral das Águas Livres, armazém de venda, casas de deposito da louça, casas das rodas com estufa, casa de pintura, outra de moer vidro, tanques de apurar o barro, cavalariças, palheiro, tojeira, quatro fornos de cozer louça e um de fazer o vidro, mais seis casas para deposito e guarda louça manufacturada, barro e residência do Administrador (Sequeira, 1933, Vol. IV, p.2)
A 22 de outubro desse mesmo ano, a Fábrica das Sedas e a Fábrica da Louça do Rato eram adquiridas por Manuel Joaquim Jorge (Pais e Monteiro, 2003, p. 107), deixando de funcionar definitivamente. Do edifício da Fábrica da Louça não subsistem vestígios, tendo sido desmantelado ao longo do século XIX. Na imagem patente na Vista da Academia Nacional de Belas-Artes, a presença de chaminés acesas, a deitar fumo, regista a fábrica em funcionamento, tornando este testemunho iconográfico ainda mais relevante para a história daquele estabelecimento.
Michela Degortes
[1] A descrição esta patente num ofício de 1833 de António Lobo Teixeira Girão, então diretor da Fábrica das Sedas. O texto é trascrito em Pais e Monteiro, 2003, p.34 e ss.
BIBLIOGRAFIA
PAIS, Alexandre Nobre, MONTEIRO, J. Pedro, HENRIQUES, Paulo (coord.) – Real Fábrica da Louça, ao Rato, Catálogo da Exposição, Lisboa e Porto, 2002.
MANGUCCI, Celso – História da Azulejaria Portuguesa, Iconografia e Retórica. Tese de Doutoramento em História da Arte, Universidade de Évora, 2020.
RODRIGUES, Maria João Madeira – “Amoreiras (Séc. XVIII)”, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa: s.n, 1994, pp. 64-65.
ROSSA, Walter – Além da Baixa – Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa, 1998.
SEQUEIRA, Gustavo de Matos – Depois do terramoto. Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Lisboa: Academia das Ciências, 1933, Vol. IV, p. 167 e ss.; Vol. III, p. 393-403.