SOBRE O EDIFÍCIO
A existência desta Quinta poderá ser balizada entre meados da década de 20 e finais da década de 30 do século XVII. Deve-se esta cronologia à sua ausência na descrição que Frei Nicolau de Oliveira faz do Sítio de Pedrouços (1620), bem como à referência de uma redução do imposto, designado por Quarto, a D. Miguel de Noronha (ABECASIS, 2009: 122-124).
D. Miguel de Noronha (? – 1645) foi 4º Conde de Linhares e descendia, pelo lado materno, do antigo ramo dos Senhores de Vila Verde dos Francos, iniciado por Gonçalo de Lourenço de Gomide, os mesmos que detinham a Quinta do Restelo ou das Caldas (ver ficha neste website). Diz-nos D. António Caetano de Sousa que “ocupou grandes lugares, porque foy governador e Capitão General da Praça de Tangere, do Conselho de Estado de Portugal, Gentilhomem da Câmara del Rey Filipe IV, General da Armada no mar Oceano, e General das Galés de Sicilia e das Hespanhas, Vice-Rey da Índia, vegésimo sétimo dos que tiveram este título” (SOUSA, 1738:125). Na Índia esteve seis anos, tendo regressado a Portugal em 1635. Talvez, date desta época, o pedido de redução do imposto para a quinta que possuía em Pedrouços. Pouco tempo depois, o Rei Filipe IV chamou-o a Madrid e ao chegar à corte, ficou famosa a sua oferta de “hum cinto ou transelim de diamantes” a Filipe IV e “arrecadas de cabaças e pérolas de grande valor” a D. Isabel de Bourbon. Em 1640, quando se deu a aclamação de Portugal, ficou ao serviço do Rei espanhol, mas, citando a mesma fonte, não tomou armas contra o Reino “e que assim devia a Coroa a seus sucessores as legítimas, que pertenderão” (SOUSA, 1738: 125).
Não conseguimos apurar o destino da Quinta até finais do século XVII, mas deixamos duas notícia sobre o futuro proprietário – D. Nuno Álvares Pereira, Duque de Cadaval (1638-1727). A primeira é-nos fornecida por D. António Caetano de Sousa: no ano de 1662 “o Duque e a Duquesa [D. Maria de Faro Condessa de Odemira] fizeram doação às Religiosas Trinas do Mosteiro de Nossa Senhora da Soledade de Lisboa do seu casal da Boa Vista, que era junto com o Mosteiro, em que estavao muy apertadas, e com elle se alargarão, ficando tão bem acomodados, e agradecidas…” (SOUSA, X, 1743:197). Também para o mesmo ano, informa-nos Virgínia Rau que o Duque possuía uma Quinta junto ao Convento do Sacramento, a qual era cobiçada pela Rainha D. Luísa de Gusmão: “A Rainha, nossa Senhora, está effeituando a compra da Quinta junto ao Sacramento, em que vive o Duque de Cadaval, e se está trabalhando no pasadiço, para ficar a Quinta na clausura do convento, com que Sua Majestade se dá por bem agazalhada, ainda que a caza, e a Quinta seja mui fraca couza, e está S. Majestade com impaciência de ver acabada esta obra para se recolher. 15 de Julho de 1662” (RAU, 1969: 79). A propriedade aparece na iconografia de Lisboa, em 1662, por detrás da Torre de Belém, de acordo com o testemunho legado por Dirck Stoop em gravura, o que atesta a antiguidade da quinta, pertença então dos Linhares.
Teria sido este o momento da cedência da Quinta de Pedrouços à Casa Cadaval? Ou, tal oferta só se viria a realizar na década de 90, a partir da qual se encontram registos da família Cadaval nos Róis de Confessados da Freguesia de Nossa Senhora da Ajuda? Com efeito, em 1697, D. Nuno Álvares Pereira pediu autorização a D. Pedro II “para estabelecer um foro fixo, nuns casais que tinha aforados à Coroa, no Reguengo de Algés (estes casais que tinha em Pedroços eram terras de pão, mas o Duque queria plantar pomares, por isso solicitou que a renda que pagava, correspondente a um quarto de produção, se transformasse num foro certo pago em moios de trigo o que o monarca autorizou” (ANTUNES, 1997:9). É neste documento que é referido o nome do 4º Conde de Linhares e de Manuel Guterres, proprietário do casal menor (ABECASSIS, 2009:124).
Das obras que ali mandou fazer e dos artistas intervenientes na transformação/construção de novas estruturas não temos notícia concreta. Da imagem que observamos no Grande Panorama, Gabriel del Barco captou a imagem de uma Quinta agrícola murada à faceira do caminho de Pedrouços, cuja entrada se fazia por extensa alameda até a um pórtico que dava acesso ao terreiro do seu Palácio. Este obedecia à tipologia da época com planta em U flanqueada por dois torreões. Do lado esquerdo, saliente-se a existência de um mirante do qual se poderia admirar a beleza do Tejo e a extensão da propriedade que sabemos estender-se “para parte do actual Bairro do Restelo, alcançavam o lugar de Pai Calvo, onde hoje se encontra o Bairro de Caselas” (ABECASSIS, 2009:120).
De facto, a propriedade seria muito extensa e aprazível, razão pela qual foi local de repouso de D. João V por várias vezes. Narra-nos Frei António da Piedade. “No ano de 1712 querendo gozar fora da corte do delicioso tempo da primavera escolheu … a Quinta que o duque de Cadaval tem no lugar de Pedrouços, que fica junto a este convento. Todos os dias, a impulso da sua devota inclinação…vinha assistir connosco no coro às matinas…”(PIEDADE, 1728:227). O mesmo se regista para os anos de 1718 e 1720, ano no qual estadeou todo o verão (Povolide, 1718/20: 309; 330). A Quinta do 1º Duque serviu também como palco de festas reais como nos deixou relatada a Gazeta em 1717 “Sua Magestade como Grão Mestre da Ordem de Cristo, fez terça feyra a funçãoo de armar cavalleyro na Capela do Palacio de Pedrouços [ermida de Nossa Senhora da Conceição] ao Senhor Infante D. António, a quem logo lançou o habito da Ordem de Cristo o Rmo P. Fr. Fernando de Moraes, D. Prior Geral della, em cujas mãos S.A. fez profissão na forma dos definitórios da mesma Ordem, estando o dito Prelado sentado junto ao Altar mor, vestido pontificalmente com capa de aspergere, mitara e bago [sic], assistio presente o Senhor Infante D. Francisco, que neste dia cumpria anos, por cuja razão foy mais festiva esta solemnidade, a que concorrerão os Duquezes, Marquezes, Condes & mais Nobreza da Corte, vestidos de gala” (citada por MIGUEL, 2012:99).
Anos mais tarde, o sucessor – o 3º Duque D. Jaime Álvares Pereira de Melo (1684-1749) – acrescentar-lhe-á uma famosa picaria para deleite da nobreza da época: “toda esta grande casa, que logra o Duque D. Jaime com trato magnifico, faz ainda mais distincta as inclinações dos seus divertimentos, mantendo hum grande número de cavalos de regalo, que se exercitão na famosa picaria, que ele fez construir na sua casa de campo de Pedrouços, que fica em pouca distância de Lisboa, que não cede a muitas das celebres, que se vêm em diversos Reinos, a qual frequenta em certos dias da semana com a companhia de muitos Senhores parentes, amigos, curiosos, que se entretem vendo, e trabalhando eles mesmos os cavalos com muito primor; porque além do Duque ser eminitente na arte da cavalaria, tem excelentes Mestres desta mesma Academia, que se conserva com largas despezas, não perdendo por ella a inclinação da caça, entretendo também Falconeiros para a volateria, e muitos caçadores para toda a outra na sua Vila de Muja, sendo estes divertimentos seguidos, ainda que com gosto, sem excesso, que perturbassem nunca as próprias obrigações satisfeitas com tão prodigioso génio, que conseguio o ser bemquisto universalmente, alcançando mais pela afabilidade, do que talvez poderia ter pela elevada representaçãoo do seu alto nascimento, porque o respeito que a fortuna lhe prevenio neste, poderia não merecer no amor e estimação das gentes…” (SOUSA, V. X, 1743: 215). Os painéis de azulejos que adornavam aquele espaço encontram-se hoje no edifício do Departamento de Ensino do Instituto de Estudos Superiores Miltares.
O terramoto de Lisboa destruiu com violência a Casa dos Duques de Cadaval (que possuía chancelaria própria), junto ao Rossio, e, com ele, desapareceu um riquíssimo património para a cidade como bem nos elucidou Delminda Rijo (RIJO, 2012:65-84) no estudo sobre a freguesia de Santa Justa. À semelhança de outras famílias nobres, também os Duques de Cadaval adoptaram a sua Quinta de Pedrouços como residência permanente. Ali realizaram o banquete de casamento o 6º Duque de Cadaval D. Nuno Álvares Pereira de Melo com Maria Domingas de Bragança Sousa e Ligne onde foram servidos “refrescos de neves e doces, com a maior profusão e delicadezas, taes que se estendião à muita gente de fora, de que estavão cheias as outras salas do Palácio. Todas ellas estavao adornadas, com o mais exquisito gosto, de preciosas alfais a meza em que couberam setenta pessoas, achava-se enfeitada com hum Plató [sic] de bronze dourado de ágoa e de cristal com duas baixelas de grande preço e de excelente perfeição.” (SILVA e SEIXAS, 2009:98).
Em 1832, o Almoxarifado de Algés procedeu às medidas da propriedade do Duque de Cadaval que aqui deixamos transcrita a fim de aferir a extensão da mesma:
“Ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de 1832, aos 30 dias do mês de Outubro do dito ano, neste sítio de Pedrouços …para o efeito de proceder á medição e confrontação das terras e propriedades que neste sítio possue o excelentissimo duque de cadaval por se acharem dentro do reguengo de algés; e posto que estejam livres do pagamento do Quarto por merce regia, deve no mesmo tombo geral… ficar constando a sua medição e extensao bem como a avaliaçao do que podem levar de semeadura … e sendo confrontados com o tomo das mesmas propriedades que por ordem de sua magestade o Senhor D. José I fizera o dezembargador Manuel Joaquim bandeira no ano de 1766…principiando na esquina do muro que esta junto do rio de Algés nas praia abaixo do forte se achou ter até esta 54 varas; confinando pelo Poente com o rio e continuando a medição desde a fonte até á extrema das terras de fronte de hum marco que esta mais dentro, hindo a medição ao longo do rio, se achou ter 202 varas, confinando pelo Poente com o mesmo rio e voltando para o Nascente até outro marco se achou ter 105 varas, e voltando para o sul até ao valado da Quinta ou terras se achou ter 28 varas; e voltando outra vez para o Nascente até onde faz um ângulo saliente se achou ter ao longo do mesmo valado 198 varas, e voltando para sul até ao valado onde faz ângulo curvo, se achou ter 70 varas e meia, e voltando outra vez para o nascente com inclinação para o Nordeste ao longo do Valado e muro da mesma Quinta, se achou ter até ao primeiro marco 160 v/2 e dahi ate ao segundo marco 43 varas e dali até ao/fl. 202/ terceiro marco 68 varas ; dahi até ao 4º Marco 63v e meia, hindo sempre na mesma direcção do nascente e continuando sempre estas medições com terras do Cazal do Pacheco, que ficão ao Poente, e Norte da Quinta e Terras que se vão medindo, e voltando a medição para o sueste com inclinação para o sul em direitura ao muro da cerca dos monges de santo Jerónimos, se achou ter ate ao 1 marco 66, até ao segundo 52 varas, e até ao muro da cerca 498 varas. Confinando sempre pelo nordeste com terras do Cazal do Pai calvo, que he de Sua Magestade, e voltando á medição para o sul com inclinação mais para o Poente, indo encostada ao muro da cerca e seguindo as suas voltas se achou ter ate junto da Capela 314/2 e meia, e voltando para Poente e depois para o Sul , em roda do adro da capela , e terreno em que antigamente se fazia a feira se achou ter 124 varas, confinando pelo sul e nascente com o dito terreno, e voltando a medição para baixo em direcção ao lugar de Pedrouços e do sul com inclinação para Poente se achou ter até ao portão da Quinta junto as primeiras cazas 489 varas, confinando pelo Sueste com terras que hoje possue a Condeça da Ribeira; e dahi até à Estrada, que vem de Belem para Pedrouços, se achou ter ao longo da Calçada ou Beco, que dá entrada para a Quinta 87 varas e atravessando a dita estrada na mesma direcção, hindo a medição por de/fl. 202-3traz das cazas dos herdeiros de Bernardo Pires de Carvalho até à Rua que vai para dentro das Courellas, da esplanada da Bateria do Bom Sucesso, se achou ter 63 varas confinando pelo Nascente ou Sueste com as ditas cazas dos ditos herdeiros; e voltando a medição mais para o Poente, pela dita Rua abaixo até hum Marco do Reguengo, e que serve de deviza às Courelas de que he foreiro António Agard se achou ter 172 varas , confinando pelo Sul com o vallado e cazas foreiras à Real Coroa e corella da dita esplanada; e voltando a medição para o Noroeste, hindo para a rua ou camiho que vem da Bataria, até hum marco do reguengo, que estão defronte da Caza de Campo do mesmo Excelentíssimo Duque; e continuando pela praia fora até à esquina do muro aonde principiou a medição se achou 816 varas, confinando pelo Sul, com courellas foreiras à Real coroa e praia do mar; com o que ficaram redondamente medidas todas as propriedades que neste sítio possue o dito Excelentíssimo Duque de Cadaval comprendendo-se dentro desta medição não so o palácio, quinta, fabrica de cordoaria, terras de pão e vinhas, mas tão bem varias propriedades de cazas e quintaes foreiras à mesma excelentissima caza;..”.
Um anos após esta medição, o 6º Duque de Cadaval foi obrigado a exilar-se pelo apoio dado ao Governo de D. Miguel e a Quinta de Pedrouços nunca mais foi habitada pela família. No século XX, tal como a vizinha Quinta Real da Praia, foi adquirida pelo Estado para a Exposição do Mundo Português, mas após o término desta conheceu um desfecho mais feliz.
Em 1959 ali foi instalado o Instituto de Altos Estudos Militares, entidade que ali perdura sob a designação de Departamento de Apoio ao Instituto de Estudos Superiores Militares.
Susana Varela Flor
Como citar: Susana Varela FLOR, “Quinta do Duque de Cadaval (Pedrouços)” in in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
FONTES MANUSCRITAS
DGLAB/TT – Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas / Torre do Tombo
Conselho da Fazenda, Tombo do Reguengo de Algés, Livro 428, Tombo das propriedades que o Excelentíssimo Duque de Cadaval possue no sitio de Pedrouços dentro dos Quaes tem o seu Palácio e Quinta, fl. 201-202v.
FONTES IMPRESSAS
PIEDADE; Frei António da, Espelho de Penitentes, Crónica da província de Santa Maria da Arrábida da Regular e da mais estreita observância sa Ordem do Serafico Patriarca S. Francisco no Instituto Capucho…, Lisboa Ocidental, Tomo I na Officina Joseph Antonio da Sylva, 1728.
SOUSA, D. António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo X, Lisboa, na Regi Officina Sylviana e da Academia Real, 1743.
ESTUDOS
ABECASIS, Maria Isabel Braga, A Real Barraca – a residência dos Reis de Portugal após o Terramoto (1756-1794), Lisboa, Ed. Tribuna, 2009.
ANTUNES, Ana Maria Pessoa de Oliveira, D. Nuno Álvares Pereira de Melo, 1º Duque de Cadaval (1638-1727), Dissertação de Mestrado em História Moderna apresentado à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 1997
AZEVEDO, Pedro, “A chancelaria do Ducado de Cadaval” in Arquivo Histórico Português, 1904.
RAU, Virgínia, Livro de Cartas que escreverão ao Ilustríssimo Senhor Francisco de Mello, Marques de Sande, Sendo Embaixador Extraordinário em Inglaterra, e França em os Annos de 1658 athe 1665, Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Históricos, Lisboa, 1969.
RIJO, Delminda, História, Sociedade e família em Santa Justa antes do Grande Terramoto de 1755: O Palácio Cadaval e o Hospital Real de Todos-os-Santos” in Rossio – estudos de Lisboa, Gabinete de Estudos Olisiponenses, 2012.
SILVA, Isabel Correia da; SEIXAS, Miguel Metelo de, “Quinta dos Duques de Cadaval” in Belém – Monografia Histórica, Lisboa, Junta de Freguesia de Santa Maria de Belém, 2009.