SOBRE O EDIFÍCIO
A origem desta Casa remonta à segunda metade do século XVII, quando terá sido provavelmente fundada por Duarte de Sousa da Mata Coutinho, 8º Correio-mor do Reino. A família destes Correios-mores corresponde a um caso invulgar no panorama da alta nobreza do Antigo Regime. Com efeito, trata-se de uma família de apelido original “Coronel” e origens suspeitas, à luz dos critérios de “limpeza de sangue” que então vigoravam, por se lhe imputar uma suposta origem judaica.
A família amealhou uma fortuna crescente e encetou uma ascensão social que passou pelo investimento em bens fundiários, pela mudança de nome da família (adaptaram o nome da Mata inspirada pela propriedade duma Quinta adquirida nas vizinhanças de Loures) pela concessão de armas próprias, pela união com famílias da antiga nobreza e pela condução de um modo de vida verdadeiramente faustoso. Assim se foram nobilitando, e acabaram por ascender à Grandeza do Reino também em circunstâncias invulgares, uma vez que, no Reinado de D. Maria I, o último Correio-mor cedeu ao Estado o seu cargo (com todos os rendimentos inerentes) recebendo, em troca, o título do Conde de Penafiel, benesses de natureza honorífica e determinados rendimentos, tudo como compensação pela perda do ofício de Correio-mor.
Talvez por este percurso peculiar no seio de uma aristocracia para quem os critérios genealógicos se afiguravam tão importantes, os Correios-mores detinham, a sua Quinta junto da Praia de Belém, não como mera casa de campo, mas como residência costumeira (isto não obstante possuírem também um grande palácio citadino a São Mamede, não longe da Sé) (FERREIRA:1963:39). Na Quinta de Belém nasceu em 1688 o 9º Correio-mor – Luís Vitório da Mata Coutinho e faleceu em 1696 seu pai, o acima aludido 8º Correio-mor (FERREIRA:1963:39-79). Era pois o 9º Correio-mor o proprietário da Quinta ao Bom Sucesso que nos urge representado no Grande Panorama de Lisboa: um sóbrio casarão de raiz seiscentista deitado para norte, ou seja para a estrada; completá-lo-iam porém mais dependências a Sul, até ao limite da margem do Tejo. A propriedade, de resto, não podia ser muito extensa, encaixada como estava entre a Quinta da Praia a Oriente e o Convento do Bom Sucesso a Ocidente.
Por morte do oitavo Correio-mor (1696) a sua viúva – D. Isabel Caffaro abandonou a Quinta, vindo a aluga-la em 1700 ao 3º Conde de Aveiras, o qual havia cedido entretanto a sua Quinta de Belém para alojamento da Rainha da Grã-Bretanha D. Catarina de Bragança. O Conde de Aveiras pouco permaneceu na Quinta do Correio-mor, pois em 1702 regressou à sua Quinta do Outeiro das Vinhas (ver ficha neste site), entretanto desocupada por D. Catarina de Bragança.
Em 1727, a Quinta dos Correios-mores, como tantas outras em Belém foi adquirida pelo Rei D. João V a Luís Vitório de Sousa da Mata Coutinho (da parte dos vendedores, há a referir a circunstância de o 9º Correio-mor ter passado a residir quase exclusivamente no seu solar de Loures pelo menos desde 1718, por razões de índole pessoal. Com efeito, o percurso da sua saúde mental levou-o a repudiar ou não suportar o convívio do mundo e a isolar-se totalmente neste seu refúgio campestre, onde se recusava a receber qualquer visita social (FERREIRA:1963:83-85).
Como o monarca havia também adquirido a vizinha Quinta Real da Praia (ver ficha neste site), formou-se então uma propriedade régia contínua desde a praia de Belém até à cerca do Convento do Bom Sucesso. Por outro lado, o facto de a Quinta Real da Praia ser um edifício de maiores dimensões e de situação mais aprazível fez com que a Quinta dos Correios-mores não tivesse qualquer utilidade prática para o Rei. Assim se explica que, na realidade não haja notícia de D. João V ou outro membro da Família Real ter permanecido na recém adquirida Quinta dos Correios-mores. Esta parece pois não ter tido para o régio detentor utilidade de maior, servindo talvez apenas como apoio à Quinta da Praia, essa sim intensamente usada pela Casa de Bragança.
Mais uma vez, o terramoto viria a alterar drasticamente esta situação! Tal como sucedeu com tantas outras Quintas deste sítio de Belém, o Rei D. José usou a Quinta dos Correios-mores como forma de minorar o desconforto das grandes famílias entretanto desalojadas dos seus palácios tradicionais consumidos na voragem do sismo e da reconstrução de Lisboa. O agraciado com a cedência da Quinta dos Correios-mores foi D. António Francisco Lobo da Silveira, 10º Barão de Alvito, 3º Conde de Oriola e futuro 1º Marquês de Alvito. O velho palácio desta família em Lisboa situava-se à Boa Vista (ver ficha neste site), no Largo ainda hoje designado como do Conde-Barão e sofreu muito com o terramoto. Não sabemos ao cero a que título o Rei D. José terá cedido ao Conde Barão a Quinta dos Correios-mores, mas o mais provável é que o tenha feito como empréstimo, tal como no caso da vizinha Quinta da Praia e dos Marqueses de Marialva. Mais tarde, por volta do final do primeiro quartel do século XIX, a cedência temporária ter-se-á transformado numa doação integral (NÉU, 1998:152).
Os Condes-barões, depois Marqueses-Barões de Alvito, ocuparam a Quinta do Bom Sucesso durante quatro gerações, entre o terceiro quartel do século XVIII e o terceiro do século XIX. Aqui veio falecer o primeiro Marquês de Alvito em 1773. Mesmo depois da reconstrução parcial do seu Palácio na Boavista e de outro que possuíam a Santa Engrácia (MATOS e PAULO, 1999: I, 67-71), os Marqueses-Barões viveram principalmente em Belém, pois na verdade importava mais permanecer junto da corte, de resto num sítio tão deleitável, do que regressar ao Centro Urbano. O último titular a viver na Quinta de ao Bom Sucesso foi D. José Lobo da Silveira Quaresma, 4º Marquês de Alvito, figura marcante da corte portuguesa durante a monarquia constitucional, muito conhecido pela excentricidade do seu carácter e dos seus ditos, amigo próximo dos Reis D. Luís e D. Carlos. O último Marquês de Alvito desbaratou de forma sistemática o vasto património de sua Casa, vindo a alienar em sua vida praticamente todos os bens importantes que esta possuía, incluindo o Castelo de Alvito, antiquíssimo solar de família. No rol dos edifícios assim “consumidos” por D. José Lobo da Silveira inseriu-se naturalmente a Quinta do Bom Sucesso.
A Quinta foi adquirida na década 60 do século XIX pela Firma Dejant & Cia (NÉU, 1998:155) que nela realizou obras com o intuito de a transformar num Hotel, ideia que se enquadra sem dúvida no âmbito da valorização de Pedrouços como estância balnear da moda. O Club Hotel abriu as suas portas no início do decénio de 70. Os anúncios de propaganda que o hotel publicava nos jornais mostram que este se destinava aqueles que frequentavam Pedrouços como praia de banhos, mas também procurava atrair pessoas que simplesmente “desejassem permanecer no campo” (NÉU, 1998:156 ).
Os anúncios do hotel fornecem-nos também uma excelente fonte iconográfica para sabermos como era o aspecto da casa: o edifício da antiga Quinta possuía, para além do corpo rectangular ainda hoje existente, um outro que lhe era perpendicular, formando o conjunto um L, ao que o Hotel juntou um moderno pavilhão de amplas vidraças “para os banhos quentes e frios de águas do mar, de tina, de douche e de chuva” (NÉU, 1998:156). A pesar da variedade da sua oferta, o Hotel acabou por fechar nos anos 80. Instalou-se então na propriedade uma instituição que veio a inaugurar a última fase da sua história até ao presente: a sua transformação numa fábrica. A primeira ocupação industrial foi realizada nos anos 90 do Século XIX por Émile Carp, dedicando-se à estamparia de cachenés, mas este empresário Belga acabou por montar a sua fábrica definitiva noutro prédio situado um pouco mais adiante na mesma rua (NÉU, 1998:156-157).
A segunda ocupação industrial, muito mais marcante para a Quinta dos Correios-mores, iniciou-se com a compra da propriedade em 1917 pela Firma M.A. Brito & Cia (a qual dois anos depois passou a chamar-se Cordeiro, Santos & Ferreira) produtora de conservas. Ao longo de mais de sessenta anos, esta firma ocupou a Quinta dos Correios-mores, vindo a anexar-lhes diversas construções nos terrenos do lado do rio. A produção desta fabrica abrangia conservas de todo o tipo, chegando a empregar mais de duzentos operários. Nos anos 70, a fábrica entrou em declínio e acabou por fechar por volta de 1980 (NÉU, 1998:156-157). O conjunto acabou por ser expropriado para a construção do Centro Cultural de Belém, procedendo-se então à demolição das instalações industriais. O velho palácio, ou o que sobrava dele, manteve-se teimosamente de pé, ainda que em estado de ruína. Em 2009 as vetustas paredes da Quinta dos Correios-mores vieram abaixo para dar lugar a uma nova ala do Centro Cultural de Belém.
Miguel Metelo de Seixas
Como citar: Miguel Metelo de SEIXAS, “Quinta do Correio-Mor” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
FERREIRA, Godofredo, “Dos Correios-Mores do Reino aos Administradores Gerais dos Correios e Telégrafos”, Lisboa, 2ª ed. revista e aumentada, 1963.
MATOS, José Sarmento de, PAULO, Jorge Ferreira, Caminho do Oriente – Guia Histórico, vol. I, LIsboa, Livros Horizonte, 1999.
NÉO, João B., Em Volta da Torre de Belém, vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1998.
RIBEIRO, Mário de Sampayo, “As Quintas Reais do Lugar de Belém” in Anais das Bibliotecas, dos Museus e Arquivo Histórico Municipais, nº 15, Lisboa, Janeiro-Maio, 1935.
SANCHES, José Dias, “Belém do Passado e do Presente”, Jornal Ecos de Belém, 1970.
Esta entrada corresponde a uma adaptação do texto do autor para figurar no presente site, publicado em Isabel Correia da SILVA e Miguel Metelo SEIXAS, Belém: Monografia histórica, Lisboa, Junta de Freguesia de Belém, 2009, pp. 115-118.