Quinta da Cotovia (Palácio dos Soares-Noronha)

SOBRE O EDIFÍCIO

As notícias escritas mais antigas da Quinta da Cotovia, já representada na iconografia de c. 1620-22 com o característico pombal proeminente, remontam ao início do século XVII (1633), quando se identificam na zona três propriedades na antiga freguesia de Santa Catarina. Tais quintas, que correspondiam a outras tantas habitações, eram nomeadas em 1651 da seguinte forma: Quinta defronte dos frades, Quinta do Cirurgião-mor e Quinta da Cotovia. Sem termos as exactas proporções destas áreas, pensamos que a primeira se devia situar fronteira ou muito perto do vizinho Convento de Jesus da Ordem Terceira de S. Francisco pela designação apresentada; a segunda, um pouco mais acima, estenderia-se em direcção ao Noviciado da Cotovia (depois Colégio dos Nobres); a terceira, no limite da freguesia de Santa Catarina (mais tarde já pertencente à freguesia das Mercês), na área compreendida entre as actuais ruas da Imprensa Nacional, Escola Politécnica, Rato e S. Bento. Todas elas se situavam a norte, visto que a freguesia era delimitada a ocidente pela de Santos-o-velho e a oriente pela da Encarnação, além das Mercês que também com ela confinava a noroeste.

Sobre as duas primeiras propriedades, sabemos que evoluíram no sentido da união dos dois terrenos que deveriam ser contíguos ou muito próximos.

A primeira quinta, designada “defronte dos frades” e mais tarde “quinta da Palmeira” foi habitada desde 1633 e parece ser listada no rol de confessados da freguesia de Santa Catarina, embora não se discriminem os habitantes, isto é, das três quintas indicadas nesse ano não sabemos qual será a da Palmeira. Só em 1651, também nos róis das desobrigas, se identificam os seus moradores, a saber Garcia Velez de Castelo-Branco, sua mulher Maria da Silva e os filhos António Velez de Castelo-Branco, D. Leonor Joana e D. Mariana Barradas, além de cinco criados. Garcia Velez possuía a Comenda da Ordem de Cristo de Santa Comba dos Vales e foi Secretário do Conselho Ultramarino. Viveu durante alguns anos na freguesia dos Anjos na rua direita (1638-40) e nos primeiros anos da década de 50 (1651-52) surge-nos a habitar a Quinta da Palmeira, de acordo com os mencionados róis de confessados. Entre 1658 e 1688, a propriedade manteve-se habitada por Domingos Martins e Isabel Francisca e descendência, dos quais infelizmente não determinámos a origem social. Antes deles, aparece ainda em 1656 João Tavares e Margarida Borges sua mulher, além de dois filhos Margarida e João Tavares, sobre quem não apurámos quaisquer dados. A partir de 1688, a Quinta da Palmeira, também designada por Casal da Palmeira no final do séc. XVII, foi habitada por várias pessoas de condição social ainda desconhecida (alguns seriam caseiros apenas) e deixa de ser referida, a partir de 1710.

A segunda quinta, também apelidada de “Quinta do Cirurgião-Mor”, de “Quinta do Garcez” ou ainda mais commumente de “Quinta dos Cardaes” na documentação coeva, está documentada desde 1633, embora o problema de associação dos agregados familiares registados nos róis das desobrigas às quintas enumeradas se verifique, tal como no caso anterior (AHPL). Em anos posteriores, entre 1656-1659, os habitantes arrolados são o Doutor Jacinto Pimentel de Meneses, sua mulher D. Maria Pimentel Pereira, dois filhos e três criados. A partir de 1660, com regularidade até 1701, está registada a presença na propriedade do Cónego da Sé de Lisboa, o Doutor João Garcez de Azevedo, que fora também promotor e deputado da Inquisição de Évora, e seus familiares (AHPL). Em 1671, D. Maria Borges, irmã do Cónego, viria a fundar o “Recolhimento dos Cardaes”, precisamente na Quinta onde habitavam (Castilho, 1956). Em 1701, João Garcez de Azevedo veio a falecer, ficando a quinta sob aluguer da família de Luís de Sousa Valdez até 1706, data em que a propriedade parece ficar nas mãos dos Cabedos de Vasconcelos. Além disso, os róis das desobrigas explicitam “Quinta dos Cardais que foi do Cónego”, o que indicia tal mudança de posse (AHPL). Entre 1707 e 1712, ter-se-ão operado alterações urbanísticas nesta zona, uma vez que a discriminação da Quinta deixa de ser feita, passando a referir-se em seu lugar um novo arruamento, a Rua dos Cardais, também Rua do Cabedo e hoje Rua de Eduardo Coelho. O palácio terá sido remodelado (ampliado) por estes anos (1709), de acordo com a Corografia do Pe. Carvalho da Costa, o que volta a reforçar a alteração dos proprietários da Quinta (Castilho,1956). Na reconfiguração das propriedades e arruamentos da zona envolvente, ter-se-á dado a aquisição também da contígua Quinta ou Casal da Palmeira, dado o seu desaparecimento formal na documentação que temos vindo a citar (AHPL). Da memória das duas quintas, restam ainda testemunhos toponímicos que recordam a existência destes espaços nos arrabaldes da Lisboa medieval.

Sobre a última propriedade das três aludidas, a Quinta da Cotovia, os factos são mais conhecidos e têm merecido a atenção da historiografia citada que trata da história da freguesia de Santa Catarina e S. Mamede e da Imprensa Nacional. Tal como as anteriores, também é mencionada uma terceira quinta em 1633, cujos habitantes parecem ter sido os familiares de Nicolau Brito de Sotomaior, sobre o qual nada apurámos de concreto.

Anos mais tarde (1651-52), Manuel Mendes de Carvalho, Jacinta Monteira sua mulher, José Monteiro seu filho e Catarina Francisca criada são o agregado presente na propriedade que julgamos alugada tanto no primeiro caso como no segundo, pois o senhorio da Quinta pertencia a Francisco Soares (AHPL e Castilho, 1966). De resto, é na qualidade de proprietário desta Quinta que permite em 1638 o aposento de D. Duarte de Bragança, irmão do futuro D. João IV, a pedido do genro, D. Francisco de Faro, pelo casamento com a filha D. Mariana Silveira. A importância social e financeira de Francisco Soares “o da Cotovia”, assim designado por viver em uma quinta naquele sítio, cabeça de um opulento morgado (Sousa, 1742), pode medir-se pelos privilégios recebidos pela Coroa, em particular a presidência do Conselho Ultramarino e da Vedoria da Fazenda, além da participação no Conselho de Estado e do recebimento do título de 7º Conde de Odemira justamente para o genro.

A Quinta da Cotovia esteve na posse destes Condes até 1669, data coincidente com a morte de D. Joana de Faro (9ª Condessa), transitando na ocasião o Morgado para Diogo Soares da Veiga do Avelar e Taveira, seu parente afastado (Castilho, 1966). Entre as décadas de 70 e 90 do século XVII, a Quinta foi habitada pelos pais de Diogo Soares, João Álvares Soares e Maria Soares, além do próprio e dos irmãos Luísa, Francisco, Lourenço e Jerónimo, este último Bispo de Elvas e de Viseu e também Inquisidor do Reino. Pontualmente, regista-se também a permanência na Quinta, nos róis de confessados, do Pe. João Cardoso, do Cónego Manuel Soares Taveira, além dos caseiros que asseguravam a manutenção do património (AHPL). Isto significa que a família dos Soares não fizeram da Cotovia o seu local habitual de residência. A quantidade de agregados familiares associados à Quinta deixa transparecer até que existiram mais habitações dentro da propriedade que, como vimos, era muitíssimo extensa.

O “Grande Panorama de Lisboa” em azuleijos mostra-nos, desafogadamente, a Quinta da Cotovia e seu palácio e jardim, junto do imponente Noviciado da Companhia de Jesus que lhe ficava quase fronteiro. A entrada para o palácio fazia-se lateralmente, na parte que deita hoje para a Rua da Imprensa Nacional. A imagem do painel de azulejos, em conjunto com a presente nas telas “Entrada em Lisboa de Filipe III de Espanha em 1619” (c. 1620-22) do Castelo de Weilburg e na “Partida de S. Francisco Xavier para a Índia” (c. 1742) do MNAA são únicas na medida em que nos revelam a morada dos Soares, tal como se encontrava anterior ao terramoto e às alterações introduzidas pelo século XVIII. A planta em U do edifício segue o modelo habitual das quintas seiscentistas de Lisboa. Da presença de um pombal de grandes proporções que os azulejos e a tela testemunham ficou-nos a memória na toponímia da zona, durante algum tempo, sendo apagada mais tarde e dando origem à actual Rua da Imprensa Nacional.

De 1703 em diante, aparece-nos mais amiúde João Pedro Soares da Veiga Avelar Taveira e Noronha, filho de Diogo Soares da Veiga. De acordo com os registos paroquiais e com as desobrigas, sabemos que habitou quase sem interrupções o palácio da Cotovia, pelo menos até 1732, data da morte (DGLAB/TT e AHPL). A Quinta da Cotovia passou então para a filha Maria Antónia Soares de Noronha que pouco depois contraiu matrimónio com D. Rodrigo António de Noronha e Menezes, descendente da Casa dos Marialva, o que lhe conferia enorme prestígio e poder. Do seu governo (e também do anterior), datam intervenções de ampliação e decoração dos espaços interiores.

A Quinta da Cotovia manteve-se na posse desta família que o terá habitado mais esporadicamente, pois em 1768 parte da mesma foi aforada à Imprensa Régia, aforamento esse da responsabilidade de D. Fernando António Soares de Noronha, governador do Maranhão (Castilho, 1966). Criada por alvará de 24 de dezembro de 1768, a Real Oficina Tipográfica, ou Impressão Régia, começou a funcionar sob a direção da junta formada pelo impressor italiano Niccoló Pagliarini, nomeado diretor geral, pelo tesoureiro Bento José de Miranda, e pelo administrador Miguel Manescal da Costa. Um empréstimo de quarenta contos, autorizado por carta régia de 7 de fevereiro de 1769, permitiu o pagamento das despesas iniciais necessárias à instalação e ao funcionamento da oficina, a contar com os setecentos mil réis de renda do palácio Soares Noronha (Sequeira, 1916). Em julho de 1769, foi integrada na Impressão Régia a Fábrica de Cartas de Jogar e Papelões, sob a direção do genovês Lorenzo Maria Solesio.

Esta primeira fase da existência da Imprensa Régia encontra-se documentada na Vista da Academia Nacional de Belas-Artes, onde se representa com clareza a fachada principal do edifício, voltada para a Rua do Pombal — atual Rua da Imprensa Nacional —, com o arco do corpo central ladeado por três vãos de cada lado.

Em dezembro de 1816, atendendo à «necessidade que há de se apropriarem à Real Fazenda o edifício, casas conjuntas e terreno adjacente onde se acham estabelecidas a Impressão Regia e a Real Fábrica de Cartas»[1], a Coroa adquiriu o espaço a D. Fernando Soares de Noronha. Desde finais do século XIX, o edifício foi alvo de profundas obras de remodelação, realizadas por fases e concluídas em 1913, das quais resultou a configuração arquitetónica que hoje se pode admirar, junto do antigo Colégio dos Nobres e do Palácio Rebelo de Andrade, sede da Universidade Aberta.

Pedro Flor

Atualização: Michela Degortes

Como citar: Pedro FLOR, “Quinta da Cotovia (Palácio dos Soares-Noronha)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR  (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/EAT-EAT/099160/2008), 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.


[1]INCIM, Arquívo Histórico da Imprensa Nacional, “Aquisição da Imprensa Régia”, Portaria de 20 de fevereiro de 1816, cota 590, disponível em: https://imprensanacional.pt/history-heritage/portaria-relatia-a-venda-do-edificio-casas-e-terreno-adjacente-onde-se-achavam-estabelecidas-a-impressao-regia-e-a-fabrica-de-cartas-de-jogar-a-fazenda-real-coroa/   (consultado em 2026-01-10)


BIBLIOGRAFIA

Fontes

INCIM, Arquívo Histórico da Imprensa Nacional. https://imprensanacional.pt  

“Arrendamento do edifício da Impressão Régia”, Aviso de 24 de junho de 1806, cota 498.

“Aquisição da Imprensa Régia”, Portaria de 20 de fevereiro de 1816, cota 590.

Bibliografia

ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, nº 11, Lisboa, Parceria A. M. Pereira Editora, 1938, pp. 25-27.

CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga – o Bairro Alto, vol. III, Lisboa, CML, 3ª ed., 1956, pp. 309-311.

IDEM, Lisboa Antiga – o Bairro Alto, vol. V, Lisboa, CML, 3ª ed., 1966, pp. 56-62 e 377-381.

COUTINHO, Maria João Pereira, “Os palácios dos barões e viscondes de Zambujal em Setúbal e Lisboa”, Cadernos do Arquivo Municipal, 2ª série, nº 5, Lisboa, CML, 2016, pp. 173-208.

SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do Terramoto, vol. I, Lisboa, Acad. das Ciências de Lisboa, 2ª ed., 1967, pp. 421-450

SOUSA, D. António Caetano de, Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, tomo IX, Lisboa, Regia Officina Sylviana, 1742, pp. 383-387.

SOUSA, Nestor, “O largo do Rato, placa distributiva de Lisboa, espaço de vários espaços”, Arquipélago – História e Filosofia, vol. 7, nº. 2 (Jul-Dez), 1985, pp. 55-100.

Internet

História do Jornal Oficial, em  https://diariodarepublica.pt/dr/geral/diario-republica-eletronico/historia (consultado em 2026-01-10)


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