Quinta da Condessa de Mesquitela

SOBRE O EDIFÍCIO

Uma das representações mais curiosas no “Grande Panorama de Lisboa” é sem dúvida a do edifício/palácio, de proporções consideráveis, um pouco mais a norte do Convento de Santa Brígida (ou das Inglesinhas). Como seria de esperar, a casa pertencente a essa quinta não está representada no seguimento da cerca conventual, que veio a formar o limite da actual rua do Quelhas, também designada na documentação de “Rua da Bela Vista” ou ainda “Caminho Novo”  (ARAÚJO, 1939: 33-35).

Ao invés, a casa aparece-nos representada de modo fronteiro ao observador, cortando abruptamente a cerca de uma propriedade de grandes dimensões, certamente a quinta que lhe ficava anexa. É provável que este palácio, entretanto desaparecido, se desenvolvesse transversalmente à dita cerca e portanto tivesse a sua fachada nobre voltada ao Tejo. No entanto, não nos foi possível assegurar esta hipótese, até porque a cartografia mais antiga da zona (1770) é omissa na representação de um edifício com tal planimetria e nem mesmo a Vista da Academia Nacional de Belas-Artes não é conclusiva nesta matéria (SILVA, 1985: 182).

De acordo com a leitura atenta dos “Livros da Décima” da cidade de Lisboa (1764), a Quinta pertencia a D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, o Quelhas (ATC). Esta informação articula-se com outra, recolhida no assento de óbito do dono em 1768 que assevera a “Rua da Mesquitela” como lugar da habitação onde veio a falecer D. Francisco Xavier Pedro de Sousa (DGLAB/TT).

Numa zona em expansão da cidade de Lisboa, com a toponímia ainda pouco estabilizada, as vias envolventes do Convento das Brígidas para norte registaram uma delas como a da “Mesquitela”, fazendo alusão ao facto da mãe de D. Francisco, D. Maria de Nazaré e Lima (fal. 1718) ter sido primeiramente casada com D. Neutel de Castro, 2º Conde de Mesquitela (casa dos Castros), provavelmente o primeiro dono da propriedade. Mais tarde, rua do Quelhas será o topónimo para a dita rua, fazendo referência directa à alcunha de D. Francisco Xavier. De resto, no rol de confessados da freguesia de Santos-o-Velho, a importância da quinta era de tal ordem que o pároco regista “Casas da Condessa de Mesquitela” atribuíndo-lhes um destaque que pode bem relacionar-se com a imponência do edíficio (AIS).

D. Francisco Xavier (1689-1768) provinha de famílias de alta estirpe. O avô paterno era o poderoso D. Francisco de Sousa, 1º Marquês de Minas (1610-1674) que descendia por sua vez dos Condes do Prado. A avó materna era D. Eufrásia Filipa de Noronha, filha do 1º Conde de Torre e por conseguinte irmã do 1º Marquês de Fronteira, João de Mascarenhas. Por seu turno, o avô materno era D. Diogo de Lima Brito e Nogueira, 7º Visconde de Vila Nova de Cerveira.

Os pais de D. Francisco Xavier foram igualmente figuras de relevo na sociedade portuguesa. D. João de Sousa (c. 1640?-1703) desempenhou funções de Vedor da Casa Real, Comendador de Santa Maria da Vila de Prado e de Santa Maria de Vila Franca na Ordem de Cristo, Governador de Pernambuco, General da Artilharia da Província do Minho com o governo das Armas e pertencia também ao Conselho do Rei. A mãe, D. Maria de Nazaré e Lima (c. 1650-1718), recebeu a consideração real, na medida em que manteve as honras de Condessa, embora o marido não tivesse tal prerrogativa.

D. Francisco Xavier Pedro de Sousa sucedeu no Morgado que os pais instituíram, foi comendador de S. Miguel de Vila Franca, de Santa Maria do Prado no Arcebispado de Braga, de S. Miguel de Outeiro e Santa Maria da Ventosa no Bispado de Coimbra, Santo Eurico de Nespeira no de Lamego, todas na Ordem de Cristo e na de Benagazil no Arcebispado de Évora (SOUSA, 1748: 235-237). Tal como o pai, desempenhou o cargo de Vedor Real, desta feita da Casa de D. João V. Veio a casar na freguesia de S. Cristóvão (24/08/1707) com D. Mécia Teresa de Mendonça, filha de D. Luís Manuel de Távora, 4º Conde da Atalaia e da segunda mulher D. Francisca de Mendonça descendente da casa dos Condes da Ribeira Grande (DGLAB/TT).

De realçar também que D. Maria de Nazaré e Lima escolheu o próximo Convento de São Bento da Saúde para sua sepultura (MIGUEL, 2012: 165), o que reforça do nosso ponto de vista a pertença da propriedade e casas nesta freguesia de Santos, onde chegou a baptizar o filho D. Francisco Xavier (DGLAB/TT).

Tanto por via dos Condes de Mesquitela pelo matrimónio com D. Neutel de Castro, como por via do segundo casamento com D. João de Sousa (fal. 1703), filho do 1º Marquês de Minas, Governador de Pernambuco e Vedor e Conselheiro do rei D. Pedro II, sem esquecer a ascendência directa com a Casa dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira, D. Maria de Nazaré e Lima seria detentora de vasto património, de que se destaca uma quinta de recreio, a Quinta de Nossa Senhora da Piedade, sita na freguesia do Campo Grande nos arrabaldes da capital (MIGUEL, 2012). Este espaço de lazer foi herdado por D. Francisco Xavier que se viu obrigado a reconstrui-lo, após o terramoto de 1755, de acordo com a informação prestada nas Memórias Paroquiais de 1758 (PORTUGAL e MATOS, 1974: 42-43).

Em suma, é muito provável que o palácio registado nos “Livros da Décima” como pertença de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa fosse já herança da mãe, que o habitaria desde os finais do século XVII. D. Francisco era personagem influente na Corte na medida em que era Comendador das Ordens de Cristo e Santiago e desempenhava ainda funções de Vedor da Casa Real (CASTILHO, 1956: 116-123).

Após 1768, não tendo D. Francisco deixado herdeiros directos, o morgado transitaria depois por ordem testamentária para o sobrinho, D. João de Sousa e sua prole, os Condes de Rio Pardo, na pessoa de D. Diogo de Sousa (1755-1829) o 1º titulado (DGLAB/TT). Em data ainda não determinada, mas seguramente depois de 1819, data do anúncio da venda da propriedade, a mesma foi adquirida pela Baronesa de Sarmento (mais tarde elevada a Condessa), Maria da Conceição do Vale e Sousa de Menezes Mexia Botelho (1826-1907). Por volta de 1853, o ainda Barão de Sarmento, João Ferreira Sarmento Pimentel de Morais, pede autorização à Câmara Municipal de Lisboa para proceder a alterações ao edifício (AML).

Depois da morte da Condessa ocorrida em 1907, o edifício esteve nas mãos do General Côrte-Real, posteriormente foi sede da Nunciatura e, até 1936, funcionou o Liceu feminino de D. Filipa de Lencastre. Nos anos 40, o Estado adquiriu parte dos terrenos correspondentes à quinta do Quelhas, para aí construir algumas das instalações do antigo ISCEF, hoje ISEG (Araújo, 1939: 37).

Pedro Flor

Como citar: Pedro FLOR, “Quinta da Condessa de Mesquitela” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.


BIBLIOGRAFIA

Fontes Manuscritas

Arquivo da Igreja de Santos-o-Velho

Róis de Confessados da freguesia de Santos-o-Velho (1699-1710)

Arquivo Municipal de Lisboa

Proc.º n.º 8230, Alçado n.º 379, N.º 225

Arquivo do Tribunal de Contas (ATC)

Livros da décima da cidade de Lisboa, Maço 1025, ano de 1765 (Freguesia de Santos), fls. 253 e ss.

DGLAB/TT – Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas/Torre do Tombo

Registos Paroquiais de Lisboa, Freguesia de Santos-o-Velho, Livro de Óbitos (1762-1769)

Registos Paroquiais de Lisboa, Freguesia de São Cristóvão, Livro de Casamentos (1662-1731)

Fontes Impressas

ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. 7, Lisboa, 1939, pp. 33-38.

CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga – O Bairro Alto, vol. III, 3ª ed., Lisboa, CML, 1956.

Lisboa na 2ª Metade do Século XVIII (Plantas e Descrições das suas Freguesias – 1770), recolha e índices por Francisco SANTANA, Lisboa, CML, s/d.

MIGUEL, Pedro Lopes Madureira, Descobrir a dimensão palaciana de Lisboa na primeira metade do século XVIII. Titulares, a Corte, Vivências e Sociabilidades, 2 vols., Lisboa, Dissertação de Mestrado em História Moderna e dos Descobrimentos apresentada à FCSH/UNL, 2012.

PORTUGAL, Fernando e MATOS, Alfredo, Lisboa em 1758 – Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa, CML, 1974.

SILVA, Augusto Vieira, “Uma vista panorâmica de Lisboa dos fins do século XVIII”, in Dispersos, vol. II, 2ª ed., Lisboa, CML, 1985, pp. 167-187.

SOUSA, D. António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo XII, Parte II, Lisboa, Reg. Officina Sylviana, 1748.


LOCALIZAÇÃO