Palácio na rua das Janelas Verdes – Hotel Ramalhete

SOBRE O EDIFÍCIO

O palacete que atualmente alberga o Hotel Ramalhete, localizado na Rua das Janelas Verdes 96–104, é facilmente identificável na Vista de Lisboa da Academia Nacional de Belas-Artes, uma vez que, do ponto de vista exterior, o edifício atualmente existente não apresenta alterações significativas quando comparado com o que se encontra representado no desenho.

O edifício foi mandado construir, em 1767, pelo Desembargador João Tavares de Abreu, funcionário régio com carreira de ouvidor na cidade de Sabará, no Brasil, onde casara com D. Maria Aldonsa Aguirre, rica proprietária da Fazenda dos Penteados. Em maio de 1767, João Tavares de Abreu apresentou ao Senado da Câmara de Lisboa um requerimento solicitando autorização para realizar obras nas “cazas antigas” de sua propriedade “na Rua Direita das Janellas Verdes”, por estas “se acharem com algumas ruínas na frontaria” [1]. Na sequência deste pedido, foi efetuada uma vistoria ao local pelo Sargento-Mor Mateus Vicente de Oliveira, Arquiteto da Cidade, circunstância que revela a importância atribuída à construção de um edifício naquela localização. O projeto é atribuído a Reinaldo Manuel (Carita, 2014, p. 196), que, na mesma época, terá igualmente concebido o projeto do largo e do chafariz fronteiro ao Palácio das Janelas Verdes (antigo palácio dos Condes de Alvor), situado nas proximidades da propriedade do Desembargador.

Para além do registo do pedido de obras ao Senado da Câmara, nos Cordeamentos de 1767, o edifício surge pela primeira vez inscrito nas Décimas da Cidade da freguesia de Santos, em 1769. É então descrito como «Propriedade do Dezembargador Jozé Tavares e Abreu, que consta de dois quartos com loges. Hum quarto avaliado em cento e quarenta e quatro mil reis, por morar a familia do dono. Huma loge arrendada em vinte mil reis a Manuel Viana. Outro quarto arrendado em duzentos mil reis a Jozé Miguel Lincete, Tezoureiro do Ultramar (…)[2]».

Esta informação, que confirma a datação da Vista da Academia Nacional das Belas-Artes proposta por Vieira da Silva (Silva, 1985), permite ainda restringir a baliza cronológica a cerca de 1768, tendo em conta a data do pedido ao Senado da Câmara para o início das obras, efetuado a 2 de maio de 1767, bem como o período necessário à execução da construção. Com efeito, a fachada representada na vista encontra-se já concluída, correspondendo de forma bastante próxima à do edifício atual.

Em 1779, residiam no andar nobre do edifício Luís António de Sousa Tavares, sobrinho do Desembargador, e a sua esposa, Isabel Joaquina Pereira de Aguirre, enquanto o segundo andar se encontrava arrendado ao comerciante holandês Henrique Pope. Em 1820, o prédio é registado como propriedade de Inácio José de Sampaio Freire de Andrade, estando então arrendado ao cônsul da nação britânica (Carita, 2014, p. 194). Em 1831, Manuel Inácio de Sampaio e Pina, primeiro Visconde da Lançada, surge como proprietário do edifício, que se encontrava parcialmente arrendado, residindo o proprietário nos primeiros dois andares[3]. Posteriormente, o palacete integrou o património da Casa Palmela, na sequência do casamento de António de Sampaio e Pina de Brederode com a 3.ª Duquesa de Palmela, Maria Luísa de Sousa Holstein. Em 1910, o edifício passou a pertencer ao Visconde de Asseca, por via do seu casamento com Maria Luísa de Sousa Holstein Beck, sendo posteriormente herdado pela filha de ambos, Helena Maria Correia de Sá, casada com Vasco Scazzola Taborda Ferreira. O palacete permanece atualmente na posse da família, encontrando-se aí instalado o Hotel Ramalhete[4].

Do ponto de vista arquitetónico, o edifício apresenta uma fachada de dois andares, de linhas singelas, que refletem os modelos implementados por Eugénio dos Santos e Carlos Mardel para a reconstrução da Baixa de Lisboa após o terramoto de 1755. Enquanto o andar nobre se destaca pelas janelas de sacada, recortadas entre dois frisos que percorrem toda a extensão da fachada, o piso térreo é desprovido do grande portal de entrada característico das casas nobres. Os quatro portais idênticos, típicos do modelo de edifício de rendimento da Baixa pombalina, revelam a dupla valência funcional do imóvel, no qual os proprietários residiam no andar nobre, arrendando os restantes pisos, como efetivamente comprovam os sucessivos registos das Décimas da Cidade. Assim, enquanto a fachada principal se enquadra na tipologia dos edifícios pombalinos de rendimento, pelas proporções e pelo programa distributivo funcional, o edifício apresenta, simultaneamente, características próprias da tipologia do palacete. Este modelo viria a evoluir ao longo do reinado de D. Maria I, atingindo «a sua plena formulação no século XIX» (Carita, 2014, 191).

Uma última consideração prende-se com a designação “Ramalhete”, pela qual o palacete é conhecido. Coloca-se a questão de saber se este edifício terá efetivamente inspirado Eça de Queirós na conceção da habitação da família Maia, no romance homónimo publicado em 1888. Nas páginas da obra, o escritor situa a residência dos Maias, designada Ramalhete, «na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula», descrevendo-a como um «sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado». A origem desta alcunha literária permanece, contudo, por comprovar.

Michela Degortes


[1] AHCML, Livro de Cordeamentos 1760-1789, f. 250 a 252. Ver também Carita, 2014, 206

[2] AHTC, DC 5933. Decima da Cidade, Freguesia de Santos, ano 1769. Arruamentos, f. 17v.

[3] AHTC, DC 6137. Decima da Cidade, Freguesia de Santos, ano 1831, f. 39.

[4] “Palácio do Ramalhete” em https://acasasenhorial.org/acs/index.php/pt/casas-senhoriais/pesquisa-avancada-2/147-palacio-do-ramalhete (2025-10-01).


BIBLIOGRAFIA

Fontes

Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC)

Livros da décima da cidade de Lisboa (DC), Freguesia de Santos, Arruamentos, DC 5933, ano de 1769, fl. 17v; DC 6137, ano de 1831, f. 39.

Arquivo Municipal de Lisboa (AML)

AML-AH, Administração. Livro de Cordeamentos 1760-1789, f. 250 a 252. [Petição do desembargador João Tavares de Abreu a solicitar obras nas suas casas]

Referências Bibliográficas

CARITA, Helder – “O Palácio Ramalhete, nas Janelas Verdes: uma tipologia de palacete pombalino”.  In I. Mendonça, H. Carita, M. Malta (coord), A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro. Anatomia de Interiores. IHA Nova FCSH, EBA UFRJ, Lisboa e Rio de Janeiro, 2014, pp. 191-206.

SILVA, Augusto Vieira – “Uma vista panorâmica de Lisboa dos fins do século XVIII”, in Dispersos, vol. II, 2ª ed., Lisboa, CML, 1985, pp. 167-187.

Internet

MENDONÇA, Isabel, OLIVEIRA, Lina, ANTUNES, Tiago Molarinho – “Palácio do Ramalhete” em https://acasasenhorial.org/acs/index.php/pt/casas-senhoriais/pesquisa-avancada-2/147-palacio-do-ramalhete (2025-10-01)


LOCALIZAÇÃO


OUTRAS VISTAS ONDE ESTÁ REPESENTADO