SOBRE O EDIFÍCIO
Sobre a sua iconografia, chegaram até nós duas representações da parte posterior do palácio, uma anterior ao terramoto, aqui documentada no Grande Panorama pintado por Gabriel del Barco (c. 1699), e outra depois desse cataclismo, a Vista da Academia Nacional das Belas Artes (c. 1769).
Ainda que as separe um grande período temporal, e que o traço seja mais realista na representação mais tardia, certo é que não existe uma grande modificação na construção identificada como o palácio dos viscondes de Asseca. Nas duas, podemos admirar os cinco arcos no piso térreo, sobrepujados por uma varanda a todo o comprimento da dita construção que se abria ao Tejo e permitia gozar a amenidade e o fresco do rio. Essa configuração parece ter-se mantido durante toda a primeira metade do século XVIII.
A documentação e a bibliografia de que dispomos sobre a residência destes titulares é quase nula. Nada sabemos dos seus interiores ou recheio.
Mas quando começaram os Asseca a habitar este palácio? Julgamos que o primeiro a habitá-lo tenha sido Salvador Correia de Sá, alcaide-mor do Rio de Janeiro e pai do 1º visconde de Asseca, Martim Correia de Sá e Benevides Velasco. Esta suspeita nasce da constatação de que o seu corpo e de sua mulher Juana Catalina Ramirez de Velasco se encontram sepultados no Convento dos Marianos em frente ao dito palácio [1], um lugar de sepultura que revela alguma relação de proximidade com a comunidade monástica, aventamos uma proximidade geográfica, talvez. A partir daí as referências de que dispomos demonstram a permanência dos viscondes de Asseca no seu palácio de Santos-o-Velho.
Em 1669, sabemos, sem dúvida que aí habitavam. É o assento de casamento do 3º visconde de Asseca, quem no-lo demonstra, dizendo que o dito conde havia sido baptizado na freguesia de Santos nesse ano e que em 1697, data do seu casamento, era nela morador [2].
No princípio do século XVIII, mais concretamente em 1702, insinua D. António Caetano de Sousa que o palácio havia sido alugado ao embaixador da Alemanha e que nele se havia hospedado o príncipe Jorge de Darmstadt [3]. Onde viveriam então os Viscondes de Asseca nesse período resta uma questão para a qual não encontrámos resposta.
Em 1712, por fim, o Pe. António Carvalho da Costa na sua Corografia Portuguesa confirma que nesta freguesia se localizava o palácio dos Viscondes de Asseca [4], ao dizer, “Ha nesta Freguesia muytas Casas nobres com seus jardins, & quintaes, que são as de Christóvão de Almada, as do Conde Barão de Alvito, as de D. António de Menezes, com hũa Ermida de S. Pedro, que forão dos Viscondes de Fonte Arcada; as dos Duques de Aveyro, em que morão os Marquezes das Minas; as dos Condes de Villa Nova, as dos Viscondes d’Asseca, as de D. Francisco Mascarenhas, as dos Condes de Alvor, as do Conde Meyrinho môr, & as de António de Albuquerque Coelho (…)”.
Entre 1767 e 1794 o palácio é assinalado nos livros das Décimas da Cidade da Freguesia de Santos como propriedade do Visconde (ou Conde) de Asseca, que resulta também proprietário de uns fornos localizados no lado poente do edifício [5].
No palácio dos Viscondes de Asseca, nasceriam e morreriam muitos membros desta família e na vizinha igreja paroquial de Santos-o-Velho seriam baptizados [6]. Quanto aos membros femininos dessa casa sabemos que algumas contraíram matrimónio no oratório do palácio, como a filha dos 1ºs viscondes, Maria Antónia da Silva com o 3º conde de Vila Flor [7].
Tal como no caso da “Vista de Lisboa” da Academia Nacional de Belas-Artes (c. 1769), sempre referida por ocasião do Palácio dos Viscondes de Asseca, o “Grande panorama de Lisboa” em azulejo (1698-99) é também um execelente testemunho iconográfico desta importante residência aristocrática.
Pedro Lopes Madureira Silva Miguel
Atualização: Michela Degortes
Como citar: Pedro Madureira MIGUEL, “Palácio dos Viscondes de Asseca” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/EAT-EAT/099160/2008), 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
[1] COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza e Descripçam topografica do famoso reyno de Portugal. Lisboa: Off. De Valentim da Costa Deslandes, 1706 – 1712, III tomo, p. 527 – “(…) e mais para o meyo tem duas janellas de vidraças, & lhe fazem peanha duas urnas de ordinaria grandeza; porèm de superlativo primor em a obra, & custo, por serem de varios jaspes brancos, & pretos, assentando cada hũa sobre dous leões de jaspe vermelho, aonde estão gravadas as memorias em letras de ouro, dos que em si incluem encerrados, como diz o letreyro: Aqui jaz o Condestavel Salvador Correa de Sá, Senhor do Couto de Penaboa, & da Villa de Tanquinhos. Na outra urna, que se segue, està outro letreyro, que diz: Aqui jaz Dona Catharina de Velasco, mulher do Condestavel de Castella (…)”
[2] ADLSB, Paróquia da Ajuda, livro C3, fl. 49v – “Aos des dias do mes de Abril de mil e seiscentos e noventa e sette de tarde em o Oratorio da Caza de Luis Cezar de Menezes Lemite de Alcantara nesta freguesia de Nossa Senhora da Ajuda em presença do Illustrissimo Senhor Dom Frei Joseph de Lencastre, e minha e de mais testemunhas abaixo assignadas e muitas mais pessoas que prezentes estavão, se receberão por palavras de prezente por marido e mulher como manda a Santa Madre Igreja o Bisconde de Asseca Diogo Correa de Sáa filho do Bisconde Martim Correa de Saa ja defunto e de sua mulher Dona Angela de Mello bautizado na freguesia de Santcos de Lixboa e nella morador com Dona Ignes Izabel de Ungria e Alencastre, filha de Luis Cezar de Menezes e de Dona.Mariana de Alencastre naturais desta Cidade e moradores nesta freguesia donde a contrahente foi bautizada e he moradora”.
[3] SOUSA, D. António Caetano de – História Genealógica da Casa Real Portuguesa (ed. revista por M. Lopes de Almeida, César Pegado). Coimbra: Atlântida, 1946-55, vol. VII, p. 509 – “No anno seguinte de 1702 em 15 de Julho chegou ao rio de Lisboa em huma fragata de guerra Ingleza o Principe Jorge Darmstad, primo com irmão da Rainha D. Maria Sofia, e dando fundo defronte das Tercenas, na mesma tarde desembarcou, e foy para casa do Conde de Valdestein, Embaixador de Alemanha, que já havia tido a sua audiencia de despedida, e morava este Ministro nas casas do Visconde da Asseca, que tem comunicação com a marinha”
[4] COSTA, Pe. António Carvalho da – Corografia Portugueza e Descripçam topografica do famoso reyno de Portugal. Lisboa: Off. De Valentim da Costa Deslandes, 1706 – 1712, t. III, p. 532.
[5] Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC), Livros das Décimas da Cidade (DC), Freguesia de Santos, Arruamentos, DC 5927, ano de 1767, f. 65 nº 362: “Propriedade do dito Ex.mo Visconde de Asseca que consta do Palácio avaliado tudo em 524000 reis” (Segue Lista dos criados). DC 6009, ano de 1794, Livro 1, f. 77, nº 287: “Propriedade do Ex.mo Conde de Asseca, avaliado como consta no livro do Arruamento na f. 64 em 330400 reis”.
[6] Cf. as referência genealógicas em www.geneall.net.
[7] ADLSB, Paróquia de Santos, lv. C6, fl. 22v – “Aos vinte e sete de julho de mil seis centos noventa e oito receberão se em prezença de Dom Joseph de Almada Chantre de Vizeu e tão bem em a minha, de licença do senhor Cardeal em o Oratorio da Viscondeça de Aseca, Martinho de Souza de Menezes, filho de Luis de Souza de Menezes e de sua mulher Dona Mariana de Noronha morador na freguesia de São joão da Praça desta Corte com Dona Maria Antonia da Silva (…)”