SOBRE O EDIFÍCIO
A localização deste edifício, bem perto do Convento de N. Sra. da Porciúncula (Barbadinhos franceses) e em zona fronteira ao Mosteiro da Esperança, não deixa margem para dúvidas sobre a identidade: o Palácio dos Duques de Aveiro. É um majestoso edifício com vários registos, corpos e fenestrações. A arcada do piso térreo, que suporta uma varanda, deita para um jardim que se estende em direção ao Tejo.
Foi morada dos Duques de Aveiro, pelo menos desde 1548, data em que se celebraram os desposórios do Comendador-mor de Avis, D. Luís de Lencastre, com D. Filipa de Meneses, de acordo com informe recolhido em Júlio de Castilho. (CASTILHO, 1964: 153).
Tanto no panorama de Lisboa de Braunius (nº 133) de c. 1598 (com base em iconografia anterior) como na “Vista de Lisboa” de c. 1620-22 do Castelo de Weilburg, a morada dos Duques em frente à Esperança surge com algum destaque, além de se assinalar sempre o jardim e muro que separava a propriedade da praia do Tejo. Foi residência visitada por reis, em particular os de Espanha quando vieram a Lisboa (1581 e 1619).
Parte da primitiva propriedade chegou a ser doada (1648) aos frades capuchinhos (Barbadinhos franceses) que aí edificaram um hospício.
Sabemos que a casa dos duques de Aveiro era pois proprietária de um grande palácio que se erguia na freguesia de Santos. Contudo ao tempo de D. João V, o seu proprietário aí não residia. O palácio encontrava-se, então, alugado aos marqueses das Minas que durante todo o tempo de vida de D. João V aí viveram. Certo é que o 7º duque de Aveiro, Gabriel de Lancastre Ponce de Leon Manrique de Lara Cárdenas Girón y Aragón, pouco tempo também viveu em Portugal.
Chegou ao reino em Fevereiro de 1720, como noticia a Gazeta de Lisboa[1], “Na quinta feyra chegou a esta Corte D. Gabriel Ponce de Leon & Lancastro, Duque de Banhos, & Grande de Hespanha da primeyra classe, & foy visitado de toda a Nobreza da Corte”. Chegado a Portugal teve de sustentar uma demanda contra a marquesa de Unhão, o marquês de Gouveia, D. Martinho de Mascarenhas, e D. Rodrigo de Lencastre, que todos se arrogavam direitos sobre a casa de Aveiro. Em Dezembro de 1723, D. Gabriel voltaria a Espanha, como noticia a Gazeta[2], “O Duque de Banhos partio Sabbado 18 deste mez para Madrid a ajustar varias dependencias da sua Casa deixando nesta Cidade procuradores para assisitirem a huma demanda da Casa de Aveiro, que pende sobre Embargos.“. Resolvida a questão a seu favor, D. Gabriel regressa, então, ao reino, em Fevereiro de 1732 e fez acto de vassalagem a D. João V em 2 de Maio de 1732[3].
Este importante palácio em Santos foi, mais tarde, transformado num prédio de arrendamento que hoje faz frente na esquina da Avenida D. Carlos I e o Largo Vitorino Damásio. A diferença no traçado urbanístico e as modificações operadas na Calçada de Abrantes, na Rua da Esperança e no referido Largo dificultam a tarefa de analisar melhor este espaço. Esclarece-nos Júlio de Castilho: “Ainda antes de 1882, ano em que se contruíram os prédios novos que tornejam para a Calçada do Marquês de Abrantes, via quem passava nesta calçada a frente do palácio que olhava para a banda do Tejo. O mais caíra pelo terramoto de 1755”. (CASTILHO, 1964: 154). Assim se explica que a “Vista de Lisboa” (c. 1767-69) da Academia Nacional de Belas-Artes não lhe dê qualquer destaque de representação. Dada a raridade de iconografia do palácio, podemos afirmar que o “Grande panorama de Lisboa” captou em azulejo um dos mais exactos registos desta zona da cidade e do imóvel.
Pedro Lopes Madureira Silva Miguel
[1] Gazeta de Lisboa – 15 de Fevereiro de 1720.
[2] Gazeta de Lisboa –23 de Dezembro de 1723.
[3] Gazeta de Lisboa – 12 de Junho de 1732 – “A D. Gabriel de Lancastro, Duque que foy de Banhos, e Grande de Hespanha, a quem foy julgada por sentença no Juizo da Coroa; a sucessão da Caza de Aveiro; que chegou a esta Corte a 16 de Fevereiro passado, e fez acto devassalage nas mãos delRey nosso Senhor a 2 de Mayo, sendo seus Padrinhos o Conde de Villanova e D. Rodrigo de Lancastro, foy Sua Magestade servido, mandar por seu Real Decreto de 27 de Mayo darlhe posse de todos os bens, terras, rendas, e direitos, que se contem nas doaçoens da dita Caza, na forma que lhe forão julgadas, sem ser necessario requerer pelos meyos ordinarios a execução della; e por carta de 2 do corrente lhe fez tambem a merce do Titulo de Duque da Villa de Aveiro de juro, e herdade na forma da Ley Mental, por cujas merces beijou o Duque a mão a Suas Magestades.”
BIBLIOGRAFIA
CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, vol. IV, Lisboa, CML, 3ª ed., 1964.