Palácio dos Condes de Vila Nova de Portimão (Marq. de Abrantes)

SOBRE O EDIFÍCIO

O sítio actualmente ocupado pelo palácio dos Lencastre ou de Santos foi em tempos espaço de habitação dos membros da ordem de Santiago de Espada, a quem em 1194, o rei D. Sancho legou a igreja e as terras que a circundavam. Com a retirada dos cavaleiros mais para sul, no sentido da reconquista, o então convento de Santos ficou servindo de local de acolhimento para as viúvas e filhas desses cavaleiros. No entanto, as comendadeiras, deixam esse local a 5 de Setembro de 1490, mudando-se para o seu recém-edificado convento de Santos-o-Novo. Desocupado o espaço, este foi aforado a Fernão Lourenço, um rico armador e comerciante, profundamente envolvido nos descobrimentos marítimos portugueses e ao tempo feitor da Casa da Índia e da Mina.

No entanto, apesar de ter arrasado o antigo casario e no seu lugar ter construído uma casa nobre, Fernão Lourenço não habitava o local. É assim que em 1497, contrata com D. Manuel I uma cedência do contrato que possuía com as comendadeiras de Santos. A partir desse momento, D. Manuel I empenha-se em transformar a antiga casa burguesa de Fernão Lourenço e emprestar-lhe contornos arquitectónicos mais consentâneos com uma habitação real. Nasce deste modo o Real Paço de Santos, que parece ter tido uma função mais recreativa, proporcionada pela sua boa localização com ampla vista para o rio Tejo, porto de atracagem privado, e jardins aprazíveis e recatados.

Dos monarcas seguintes, apenas D. Sebastião terá mostrado interesse em residir longos períodos no Paço de Santos. Sabe-se que, estando no palácio em 1576, D. Sebastião terá escapado incólume a uma explosão ocorrida nos armazéns de pólvora que se situavam nas margens do rio. O avultado acidente causou danos muito consideráveis no palácio. 1577 é uma data marcante na história de Portugal e deste edifício, pois foi nos seus aposentos de Santos que D. Sebastião recebeu a notificação do seu ministro contra a campanha, na África do Norte, que o rei vinha preparando com fervor. Na véspera de partir para Marrocos, a 24 de Junho de 1578, o rei D. Sebastião assiste à missa na Igreja de Santos-o-Velho, e conta-se que terá tomado a sua última refeição no Palácio.

Depois do desaire de Alcácer Quibir, o palácio fica momentaneamente abandonado, sendo ocupado anos mais tarde pelos Lencastre, que se dispunham a recuperar a habitação. Esta encontrava-se bastante arruinada devido ainda aos efeitos da explosão dos armazéns de pólvora e também à ocupação que sofreu pelo exército de Filipe I, aquando da sua entrada em Lisboa, reclamando o trono de Portugal. Apesar de Luís de Lencastre, depois de regressado de Marrocos, onde combateu a par de D. Sebastião, ter comprado o palácio às Comendadeiras de Santos, esta aquisição não foi aceite pela coroa como válida. Apenas no ano de 1629 se efectiva a compra, com a anuência da coroa, por Francisco Luís de Lencastre, filho de Luís de Lencastre. Depois de finalmente entrarem na posse legal deste espaço, este será alvo de grandes obras de engrandecimento.

Ampliação arquitectónica e recheio dos interiores foram objectivos prementes dos habitantes seguintes deste palácio, nomeadamente de José Luís de Lencastre, neto de Francisco Luís, do seu irmão Luís e mais tarde do seu filho Pedro de Lencastre. Entre meados do século XVII e meados do século seguinte, estes membros da família Lencastre empenharam-se em dotar o seu palácio de Santos de melhorias arquitectónicas, nomeadamente ao nível da ampliação, construção dos salões voltados a Leste para o jardim e dignificação da fachada do Palácio. No que concerne aos interiores, mandaram edificar a capela, a correspondente sacristia e a famosa sala das porcelanas.

As figuras mais relevantes neste processo terão sido D. José Luís de Lencastre, Conde de Figueiró, e a sua mulher, Dona Filipa de Vilhena, senhora de linhagem nobre. Como a historiografia comprovou, os Lencastre apreciavam sobejamente obras de arte. Segundo inventário de bens datado de 1704, elaborado aquando da morte de Luís de Lencastre, estes possuíam entre outras obras de arte, porcelanas e sedas da China, brocados de ouro da Índia, pratas, tapeçarias e numerosas obras de pintura. O casamento que iniciou o relacionamento da família Lencastre com os marqueses de Abrantes deu-se entre Pedro de Lencastre e Maria Sofia de Lorena, que era filha do 1.º marquês de Abrantes, Rodrigo de Sá Menezes.

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 não terá causado danos significativos no palácio que afortunadamente se viu poupado a maiores prejuízos. Sabe-se, sim, que terá servido de espaço de acolhimento a diversos familiares dos Lancastre que viram as suas casas arruinadas com o cataclismo.

Com a morte da 2.ª duquesa de Abrantes, no ano de 1780, o título nobiliárquico passa para os Lencastre. É assim que Pedro de Lencastre (1762-1828) se torna o 3° Marquês de Abrantes e que o palácio passará também a ser conhecido como palácio dos marqueses de Abrantes.

Anos mais tarde, já em 1870, e por ocasião do falecimento de José de Lancastre e Távora, irmão de Pedro de Lencastre, resolve-se alugar o Palácio ao Ministro de França em Lisboa, o Conde Armand, o qual decide aí instalar a legação francesa. Finalmente, a 14 de Agosto de 1909, Saint-René Taillandier, Ministro de França e em representação do seu país, compra o Palácio e todo o seu recheio pela quantia de 80 contos de réis. Em 1937, fazem-se obras no edifício, acrescentando-se um corpo à ala Ocidental, segundo projecto dos arquitectos Carlos Rebelo de Andrade e Guilherme Rebelo de Andrade. Em 1948 dá-se a mudança de estatuto da representação francesa em Lisboa, o que proporciona a ocupação da parte central do edifício pela Embaixada daquele país. Entre os anos de 1980 e 1982, procede-se a obras de requalificação e remodelação do edifício segundo projecto do arquitecto Gonçalo Sousa Byrne.

Pela sua localização próxima do rio, o Palácio dos Condes de Vila Nova de Portimão surge representado em diversas vistas da cidade, entre as quais a Vista da Academia Nacional de Belas Artes, onde o edifício é representado com grande rigor, ao ponto de serem visíveis os painéis de azulejos na fachada sul. São visiveis, também, as cavalariças do palácio que surgem na continuação do edifício, em direção a poente. 

Silvia Ferreira

Atualização: Michela Degortes

Como citar: Sílvia FERREIRA, “Palácio dos Condes de Vila Nova de Portimão (Marqueses de Abrantes)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/EAT-EAT/099160/2008), 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026. 


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Internet

Palácio do Marquês de Abrantes / Embaixada de França, Ficha de inventário do IHRU, N.º de IPA 00005048, em www.monumentos.pt, consultado em Dezembro de 2013, http://www.ambafrance-pt.org/Apresentacao, consultado em Dezembro de 2013.


LOCALIZAÇÃO