Palácio dos Condes de Óbidos

SOBRE O EDIFÍCIO

Devemos imaginar este Palácio numa relação diferente com a rua e a própria cidade: imaginá-lo-emos com um pano de muro que fechava o pátio do palácio à rua, muro esse com duas aberturas, dois portões que ainda hoje se encontram no palácio mas que foram recolocados numa posição lateral ao sentido da própria rua. O transeunte que, então, passasse na rua das Janelas Verdes, era confrontado com esta sequência: palácio dos condes de Alvor, convento de Santo Alberto, muro do horto do dito convento, muro do palácio dos condes de Óbidos e convento de S. João de Deus. Mas se para o lado da rua, o palácio se encerrava sobre si próprio apenas com as duas aberturas referidas, para o lado do rio, o panorama era completamente diferente. No topo de uma grande rocha, a chamada “rocha do Conde de Óbidos[1]”, o palácio abria-se ao rio e àqueles que nele passavam.

Durante o período de 1689 a 1750, os condes de Óbidos ocuparam ininterruptamente este palácio, disso encontramos provas em várias fontes. Em 1693, sabemos que o 2º conde de Óbidos aí habitava[2] Em 1712, o Pe. António Carvalho da Costa, na sua Corografia Portuguesa, identifica as casas nobres “do Conde Meyrinho môr” localizando-as na freguesia de Santos-o-Velho[3]” e em 1719, a aprovação do testamento do 2º conde de Óbidos é feita “na Cidade de Lixboa Ocidental freguesia de Santos o Velho e Cazas da morada do Excelentíssimo Conde Meyrinho mor D. Fernando Martins Mascarenhas estando elle ahi prezente doente em cama mas seu prefeito Juizo[4]”. Depois disso nos livros da paróquia de Santos-o-Velho podem ser encontrados vários assentos de baptismo ou de casamento que indicam a permanência neste lugar.

Todavia, a ocupação do local por membros desta casa data de um tempo anterior. Diz uma pequena publicação[5] editada pela Cruz Vermelha Portuguesa que o palácio foi construído por um antecessor desta família, D. António de Mascarenhas, no segundo quartel do século XVII, informando que foi também este fidalgo que doou aos irmãos de S. João de Deus o terreno contíguo ao palácio, do lado poente, para nele edificarem um convento-hospital. Assim o confirma o Pe. Baptista de Castro no seu Mapa[6].

Depois disso, sabemos que os sobrinhos de D. António, os 1ºs condes de Óbidos, D. Vasco Mascarenhas e sua segunda mulher D. Joana Francisca de Vilhena, aqui viviam. Descobrimo-lo em duas fontes que nos veiculam essa informação. A primeira[7] data de 1652 e a segunda[8] de 1679, em que todavia a condessa é já viúva. A dita publicação diz-nos, então, que mais tarde este 1º conde de Óbidos fez reconstruir inteiramente este palácio[9], dados que carecem ainda de ser provados por fontes documentais.

Certo é que essas obras começadas por D. Vasco Mascarenhas estavam longe de estar terminadas ao tempo de seu filho, o 2º conde de Óbidos, D. Fernando Martins Mascarenhas. Disso achamos prova num “Traslado de uma escriptura de contrato de obrigação que fez o Senhor Conde de Sabugal[10] com os mestres dos Officios de Carpinteiro e Pedreiro para estes lhe fazerem uma obra num dos quartos do Palacio da Rocha do Conde de Óbidos, a S. João de Deos: feita no anno de 1704 aos 28 dias dos mez de Outubro”[11]. Nessa escritura, encontramos pormenorizadamente, uma descrição das obras que estavam acertadas fazer “no quarto da banda do mar das suas cazas que tem junto a Sam Joam de Deos”, e os preços das mesmas. Diz o pedreiro “que fará as pedrarias muito bem feitas e muito alvas de pedra leos assim ombreiras como faxas, pessas de volta e tudo o mais que for necessario e vermelho nos alizares com suas cabessas que ham-de goarnecer por dentro das cazas e sseram todas igoaes, e nam tendo igoaldade e perfeiçam desta pedraria declarada ou em faxas ou capiteis e simalhas, nam será obrigado o dito Conde aseita-llas, e o fará ele mestre a sua custa na forma em que o pedir a arte”. Também o carpinteiro “se obriga a fazer toda a obra que for necessaria de seu officio de carpinteiro com toda a perfeiçam assim de portas como de janellas madeiramentos e tudo que for necessario de madeiras para ella as quaes seram das mais fortes e derradeiras, e a contento do dito conde e tambem ferragens, pregaria, e tudo o mais do que necessitar tudo a sua conta”. É particularmente feliz reparar que ainda hoje podemos admirar os alisares das portas que o pedreiro se propõe fazer a vermelho. Passados mais de três séculos, são os mesmos.

E de facto, a memória destas obras feitas pelo 2º conde de Óbidos permaneceu até à geração seguinte, como descobrimos numa declaração de Helena Josefa de Menezes, segunda mulher do 3º conde de Óbidos, em que esta escreve do seu próprio punho “Tão bem declaro que estas Cazas em que moramos a Pampulha não sei se são de morgado, mas sei que meu sogro as fes de novo e não sei a quem pertenseu estas bemfectorias e por esta rezão não estão lansadas[12]”.

Quantos aos interiores e recheio deste palácio, no arquivo da casa dos marqueses de Santa Iria guardam-se dois outros documentos fundamentais para os compreender. O primeiro é um “Inventario que se fes por fallecimento da Senhora Dona Brites Mascarenhas que Deus Tem[13]” e o segundo é um “Instrumento dado em publica forma, de uma verba do Inventário que se faz d’arrecadação dos bens que ficaram por falecimento do Senhor Conde Meirinho Mor de que foi Testamenteiro o Senhor Marquez de Gouvea, cuja verba consta da especificação e avaliação do Palácio de São João de Deos, a São Francisco de Paula, avaliado em quarenta mil cruzados[14]”.

No primeiro documento que antecede cronologicamente o segundo, descobrimos o recheio dos interiores do palácio à data da morte da 3ª condessa de Óbidos, D. Beatriz Mascarenhas Castelo-Branco da Costa, também 3ª condessa de Palma e 4ª condessa de Sabugal, em 1709. Do inventário constam as suas jóias, as jóias da casa, a prata, o estanho, os livros, os cobres da cozinha, o que pertence à copa, as loiças e porcelanas, os candeeiros da casa, a roupa, os móveis, os razes, os tecidos, as alcatifas, os cavalos, os freios entre outros bens. Uma grande lista de inventário em que não faltam um curioso papagaio ou “quatro resposteiros de Alentejo com as armas dos Mascarenhas, novas”, e curiosamente uma série de apetrechos para as campanhas[15] que se guardavam no palácio, “Hum tapete redondo que serve pera tenda, novo e grande Hum pavilhão de lã azul com seu capelo da China bordado de ouro de palhinha com seu cobertor azul de damasco com as cenefas bordadas, forrado de tafetá amarelo, todo com sua franja de ouro e ceda”, “Hum pavilhão da China em folha de tafetá branco bordado de ouro, e ceda de palhinha, e seu capello bordado, e cobertor de damasco branco grande, com canefas bordadas de ouro, e tres travisseiros, e quatro almofadinhas”, “Dous estandartes de damasco branco como o habito de Christo, outro mais pequeno com o mesmo habito e duas bandeiras das trombetas, e hua bandeira de Ifanteria” e também “Cinco tendas de campo da India de diversas cores”.

Por seu turno, o segundo documento que antes enunciámos é crucial para conhecer as divisões do palácio. O documento faz uma descrição do palácio desde o exterior ao interior, e também dos dois andares de que era composto, explicando a função dos vários espaços, no ano de 1733. Escusámo-nos aqui a copiar as informações que o documento veicula e aconselhamos a leitura da transcrição do mesmo documento que se encontra em anexo[16]. Como se nota da leitura do anexo, não há menção de que no terreno do palácio se situassem as suas cavalariças. É então através da Gazeta de Lisboa que descobrimos mais informações sobre elas. Diz-nos uma notícia, “A semana passada se queimou no bairro da Pampulha huma propriedade de casas pertencentes ao Senado desta Cidade, em que estava a Cavalhariça do Conde de Obidos[17]”.

Pedro Lopes Madureira Silva Miguel

[1] Ainda hoje o topónimo permanece no imaginário lisboeta e é empregue no diálogo.

[2] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 11, doc. nº 51 – “Saibão quantos este Instrumento de Amigavel Composição e obrigação consignação de pagamentos […] virem que no anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e seiscentos noventa e tres em desanove dias do mes de Mayo na Cidade de Lixboa junto ao Convento de São João de Deos nos apozentos de Dom Fernando Martins Mascarenhas Conde Meirinho mor do Reino estando elle ahy prezente”.

[3] COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza e Descripçam topografica do famoso reyno de Portugal. Lisboa: Off. De Valentim da Costa Deslandes, 1706-1712, t. III, p. 532 – “Ha nesta Freguesia muytas Casas nobres com seus jardins, & quintaes, que são as de Christóvão de Almada, as do Conde Barão de Alvito, as de D. António de Menezes, com hũa Ermida de S. Pedro, que forão dos Viscondes de Fonte Arcada; as dos Duques de Aveyro, em que morão os Marquezes das Minas; as dos Condes de Villa Nova, as dos Viscondes d’Asseca, as de D. Francisco Mascarenhas, as dos Condes de Alvor, as do Conde Meyrinho môr, & as de António de Albuquerque Coelho […]”

[4] ANTT, Registo Geral de Testamentos, livro 155, fl. 20v a 23.

[5] O Palácio dos Condes de Óbidos, sede da Cruz Vermelha Portuguesa. Lisboa: C.V.P., 1983

[6] CASTRO, João Bautista de – Mappa de Portugal Antigo, e Moderno, tomo III, parte V. Lisboa: na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Amena, 1762-1763, p. 425 – falando acerca do Convento de S. João de Deos na freguesia de Santos diz-nos o dito Pe. “De Religiosos Hospitalarios. Fundou-o no anno de 1629 D. Antonio Mascarenhas Deão da Capella Real, Deputado da Mesa da Consciência, e Comissário da Bulla da Cruzada.”.

[7] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 11, doc. nº 44 – “Saibão quantos este Instrumento de obrigação Procuração em cauza propria consignação de pagamento e como melhor e mais valiozo em dereito seja virem que no anno do nacimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e seiscentos e sincoenta e dous Em dezanoue dias do mes de Março na Cidade de Lixboa extramuros della junto ao Mosteiro de São João de Deus nos apozentos em que vive dom Vasco Mascarenhas Conde d’Obedos do Conselho d’estado […]”.

[8] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 10, doc. nº 63 – “Em Nome de Deos Amen Saibam quantos este Instromento de doação Intre vivos Valedoura, Inrevogavel [sic], […] virem que no anno do nasimento de nosso Senhor Jesus Cristo de mil e sseiscentos e setenta e nove, em vinte e quattro dias do mes de julho na Cidade de Lisboa, Junto a Igreja de São João de Deus nos apozentos da Condessa de Obidos Dona Joanna Francisca Mascarenhas veuva do Conde Dom Vasco Mascarenhas que Deus aja  estando ella Condessa ahy presente […]”.

[9] O Palácio dos Condes de Óbidos, sede da Cruz Vermelha Portuguesa. Lisboa: C.V.P., 1983, p.13, 14.

[10] Ainda que identificado como conde de Sabugal no título do documento, no corpo do mesmo confirmamos que se trata de D. Fernando Martins Mascarenhas, 2º conde de Óbidos.

[11] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 11, doc. nº 65.

[12] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 10, doc. nº 104.

[13] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 10, doc. nº 117.

[14] ANTT, Casa dos Marqueses de Santa Iria, cx. 10, doc. nº 111.

[15] Bens que deveriam pertencer a D. Fernando Martins Mascarenhas sendo parte das suas equipagens de campanha.

[16] Veja-se a transcrição do documento que segue em anexo 1.

[17] Gazeta de Lisboa – 8 de Setembro de 1729.


BIBLIOGRAFIA

CASTRO, João Bautista de – Mappa de Portugal Antigo, e Moderno, tomo III, parte V. Lisboa: na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Amena, 1762-1763.

COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza e Descripçam topografica do famoso reyno de Portugal. Lisboa: Off. De Valentim da Costa Deslandes, 1706-1712, t. III.

O Palácio dos Condes de Óbidos, sede da Cruz Vermelha Portuguesa. Lisboa: C.V.P., 1983.


LOCALIZAÇÃO