Palácio dos Câmara (Condes da Ribeira Grande)

SOBRE O EDIFÍCIO

Por iniciativa de D. Rodrigo Gonçalves da Câmara (1594-1672), o antigo assento de morada na capital portuguesa dos senhores da capitania de São Miguel seria profunda e radicalmente alterado, dando lugar a um moderno palácio servido pelos mais atualizados recursos técnicos e estéticos, produto da reformada Aula do Risco por ação do monarca espanhol Filipe II. O projeto deveu-se ao arquiteto régio Diogo Marques Lucas, um dos três primeiros bolseiros da escola filipina, incluindo-se entre as raras obras de arquitetura civil assinadas por este arquiteto cuja obra, infelizmente, é hoje mal conhecida.

A edificação do novo palácio inicia-se por volta de 1623, data em que é firmado o contrato de obra com o mestre pedreiro Francisco Alvares, tendo-se arrastado por vários anos e consumido grossos cabedais, estimados por alguns em cem mil cruzados. Para a implantação numa zona de forte declive foi criada uma ampla e custosa plataforma, limitada a sul por um alto muro de suporte e do lado oposto, frente à rua de Nossa Senhora dos Mártires (depois rua do Ferragial e atualmente rua Vítor Cordon), a regularização da fachada ditou a tomada de chão público cuja traça seria justificada no auto de cordeamento «vista a fermosura e grandeza da obra della».

O palácio serviu de morada a D. Rodrigo e sua família até 1651, ano em que o conde seria preso por ordem do Tribunal do Santo Ofício acusado de diversos crimes sexuais, tendo acabado por morrer no seu exílio forçado no convento do cabo de S. Vicente aos 78 anos de idade. Até esse momento, porém, o conde de Vila Franca havia transitado entre períodos passados em Lisboa, intercalados com longas temporadas na corte de Madrid e períodos de residência forçada no paço de Ponta Delgada. O regime de certa itinerância que se estendia a grande parte da alta nobreza portuguesa até ao final das guerras da Restauração, perdurou no caso dos Câmara dada a obrigação de habitarem por períodos de tempo determinados, impostos por ordem régia, na capitania de S. Miguel.

Assim aconteceu com os sucessores de D. Rodrigo: D. Manuel Luis Baltazar da Câmara (1630-1673), 1º conde de Ribeira Grande, D. José Rodrigo da Câmara (1665-1724), 2º conde da Ribeira e D. José Rodrigo da Câmara Teles (1712-1757), 4º conde da Ribeira e último residente no palácio de S. Francisco. De facto, em 1746 o imóvel já era tido como «casas nobres de sua magestade que foram do conde da Ribeira», presumindo-se que a sua venda à casa real tenha ocorrido nos primeiros anos de 1740, durante o tempo em que o 12º capitão-donatário estanciou na capitania micaelense e antes do seu regresso definitivo ao reino, em 1752, quando veio ocupar o novo palácio da Junqueira. Alvo de importantes remodelações que o fizeram estar ligado por sinuosa escadaria ao «quarto novo» do Paço da Ribeira, o edifício seria pouco depois gravemente danificado pelo terramoto de 1755, vindo a ser reerguido mais tarde com outra traça arquitetonica e destinado a outros inquilinos.

No prospeto que mostra o palácio, sempre pelo alçado sul e voltado ao rio, a cavaleiro sobre a Ribeira das Naus, revela-se uma altiva fachada que atinge os quatro pisos mais um, correspondente ao ático. O edifício é formado por três corpos de diferente volumetria, sendo mais estreitos e mais baixos os dois extremos e mais largo e mais alto, o central. Os três corpos são divididos por largas e expressivas faixas apilastradas traçadas de alto a baixo, que se desdobram em outras duas idênticas na subdivisão do corpo central, conferindo ao conjunto a perceção de uma fachada pentapartida. A composição é absolutamente regrada e simétrica embora sem o apelo evidente a um eixo de simetria, i.e. sem a ênfase de centralidade que caracteriza as criações barrocas. A fenestração é desenhada em fiadas uniformes de onze vãos jacentes nos pisos inferiores e o mesmo número de janelas retangulares, que parecem ser de sacada no corpo central dos pisos superiores. No remate surgem três frontões triangulares que atestam o reforço (pioneiro) da linguagem clássica no âmbito da arquitetura doméstica e na base desenha-se uma arcaria com arcos de pleno cimbre assente sobre pilares.

Em suma, no plano das opções e partidos arquitetónicos, quer pelo hieratismo e rigor geométrico da composição quer pela conformação de um bloco perimetral de forte pendor urbano, o palácio dos Câmara constitui um caso excecional no contexto da arquitetura palaciana lisboeta da primeira metade de seiscentos.

Isabel Soares de Albergaria


BIBLIOGRAFIA

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