Palácio do Monteiro Mor – Correio Velho

SOBRE O EDIFÍCIO

O Palácio do Monteiro-Mor, também conhecido como Palácio Marim-Olhão e atual sede da leiloeira Correio Velho, sobressai no tecido urbano do Bairro Alto devido à sua volumetria invulgar. Graças a essa imponência, é possível reconhecê-lo na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, apesar de apenas se entrevê-lo parcialmente, representado de esconso, por detrás da antiga igreja de Santa Catarina. Localizado no quarteirão delimitado pela Calçada do Combro, pela Rua do Século e pela Travessa das Mercês, é considerado um importante exemplo da arquitetura palaciana portuguesa, destacando-se pela ambição do projeto e pela erudição da sua linguagem arquitetónica.

A sua construção remonta à década de 1730, quando D. Fernão Teles da Silva (1698–1763) promoveu uma campanha de obras nas casas da Calçada do Combro de propriedade dos seus sogros, D. Catarina de Noronha e D. Francisco de Melo, Monteiro-Mor do Reino e embaixador extraordinário em Madrid. Deste último, D. Fernão Teles da Silva herdaria igualmente o cargo de Monteiro-Mor, bem como outras propriedades da família da sua mulher, D. Maria Josefa de Melo, com quem casara em 1725 (Coutinho, 2012, p. 79).

Fernão Teles da Silva era filho de João Gomes da Silva (1671–1738), 4.º conde de Tarouca, diplomata culto e figura de relevo no panorama cultural português da sua época. Com efeito, foi este quem definiu as opções estéticas e funcionais adotadas nas obras do palácio, executadas de acordo com as minuciosas instruções que transmitiu ao filho por correspondência entre 1734 e 1735 (Coutinho, 2012; 2014). As missivas foram enviadas de Viena, onde o 4.º conde de Tarouca desempenhava funções de embaixador, tendo-se bem integrado na elite cultural e artística internacional. A correspondência enviada da Áustria revela o modelo que idealizava «para uma casa nobre magnífica e de pendor internacionalista, temperada por um profundo conhecimento da tradição palaciana lisboeta» (Caldas e Coutinho, 2014, p. 139). As cartas confirmam igualmente o gosto requintado e a cultura arquitetónica do 4.º conde de Tarouca, outrora próximo do arquiteto régio João Antunes (1643–1712); a este último, aliás, o diplomata terá encomendado o risco de um grandioso palácio a edificar-se no alto da Cotovia (Coutinho, 2018, 80) cuja obra nunca foi concluída.

Vários arquitetos estiveram envolvidos nas obras das casas pertencentes aos sogros de Fernão Teles da Silva. As primeiras alterações, realizadas segundo o risco de Santos Pacheco de Lima (1684–1768), artista e mestre entalhador ativo no domínio da arquitetura (Ferreira, 2019, p. 183), viriam a ser demolidas por terem sido consideradas inadequadas por João Gomes da Silva. Este avaliou igualmente de forma negativa os riscos de Antonio Canevari (1681–1764) e de outro arquiteto referido nas cartas como «Messier» — possivelmente uma deformação do francês Monsieur (Coutinho, 2012, 77) —, não poupando sequer o afamado Carlos Mardel (1696–1763), chamado por Fernão Teles da Silva a pronunciar-se sobre as obras do palácio.

O projeto que João Gomes da Silva tinha em mente, e que sugeria ao filho, apontava para um edifício imponente e majestoso, de forte impacto no tecido urbano, numa zona onde residiam importantes famílias aristocráticas, como as dos vizinhos palácios Larre e Mesquitela. Entre os elementos que definiam o edifício destacavam-se o amplo pátio em U, «com tamanho suficiente para serem capazes de voltar nele coches a seis cavalos» (Coutinho, 2012, p. 81), e as escadarias de aparato que conduziam ao andar nobre, o qual deveria dispor de «oratório, sala, treze divisões para a Senhora e dez para o Marido» (Coutinho, ibidem). O acesso ao edifício fazia-se através do pórtico sobre a Calçada do Combro, provavelmente executado segundo o risco de Antonio Canevari. Todavia, o projeto concretizado «corresponde a pouco mais do que a metade do que seria a intenção inicial» (Caldas e Coutinho, 2014, p. 152) e o palácio sofreu importantes alterações ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX.

Em 1769 — época em que terá sido realizada a Vista ANBA— o edifício encontra-se registado nas Décimas da Cidade de Lisboa como «Palácio do Ex.mo Monteiro Mor do Reyno […] com onze logeas e um terreno todos arrendados […] e todo o mais resto do palácio com todas as suas pertenças, avaliado em 600.000 reis, [estando] ocupado pelo dono»[1], então D. Pedro de Melo da Cunha Mendonça e Meneses. Em 1778, o palácio passou para a posse do seu filho, D. Francisco de Melo da Cunha Mendonça e Meneses, 1.º conde de Castro Marim e marquês de Olhão, que, apesar de não residir no edifício, promoveu, em 1779, importantes obras de remodelação da fachada principal e das alas nobres.

Em 1801 uma parte do imóvel passou a estar arrendada «por hum conto de reis»[2] ao Correio Geral do Reino, instituição que aí permaneceu até 1881, dando origem à atual designação de Palácio do Correio Velho – embora o edifício continue a surgir identificado como «Palácio do Monteiro-Mor» nos livros das Décimas da Cidade até 1833. Entre 1840 e 1892 ficou instalada na parte posterior do palácio a redação do jornal A Revolução de Setembro. Entre 1910 e 1927 foi sede da Confederação Geral de Trabalhadores e do respetivo jornal, A Batalha. Em 1922 deixou de pertencer à família Castro Marim-Olhão, passando para a firma Mello Castello Branco, Lda. Após sofrer danos em 1927, foi abandonado e acabou por transitar para a posse da Câmara Municipal de Lisboa. Desde 1989, o edifício é sede da empresa Palácio do Correio Velho Leilões e Antiguidades, S.A., classificada como «Loja com História» desde 2018.

Atualmente, encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público (MIP), nos termos da Portaria n.º 649/2023, Diário da República, 2.ª série, n.º 214, de 6 de novembro de 2023.

Michela Degortes


[1] AHTC, DC 4122. Decima da Cidade, Freguesia das Mercês, ano 1769. Arruamentos, fls. 9 e 10.

[2] AHTC, DC 4267. Decima da Cidade, Freguesia das Mercês, ano 1807. Arruamentos, f. 4.


BIBLIOGRAFIA

Fontes

Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC)

Livros da décima da cidade de Lisboa (DC), Freguesia das Mercês, Arruamentos, DC 4122, ano de 1769; DC 4267, ano de 1807.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, D. Fernando de, (coord.) – Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol. V, Tomo II, Lisboa, 1975.

ARAÚJO, Norberto de – Peregrinações em Lisboa, Livro V, Lisboa, 1939.

ARAÚJO, Norberto de – Invenrário Lisboa, Fascículo IX, CML, 1952.

CALDAS, João Vieira, COUTINHO, Maria João Pereira – “O nome e a função: terminologia e uso dos compartimentos na casa nobre urbana da primeira metade do século XVIII”, In I. Mendonça, H. Carita, M. Malta (eds.), A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro: Anatomia de Interiores, Lisboa: IHA EBA, 2014, pp. 134- 189.

CASTILHO, Júlio de – Lisboa Antiga. Bairro Alto, Vol. V, Lisboa, 1954 – 1966 (1ª ed. 1879).

COUTINHO, Maria João Pereira –  “O Palácio do Monteiro Mor e a visão da arquitetura civil lisboeta na primeira metade de Setecentos por João Gomes da Silva (1671-1738), 4ª conde de Tarouca”, In Atas do IV Congresso de História da Arte Portuguesa – Homenagem a José-Augusto França, Fundação Calouste Gulbenkian, APHA, 2012, pp. 77-84.

FERREIRA, Silvia – “Santos Pacheco de Lima (1684-1768) e José Coelho de Noronha (1705-1765): duas faces da talha barroca luso-brasileira”, In F. Quiles García & M. P. López (eds.), Barroco Vivo, Barroco Continuo, Universidad Nacional de Colombia, 2019, pp. 180-199.

VALDEMAR, António, Palácio Marim-Olhão – In F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa: s.n, 1994.

Internet

Palácio do Correio Velho / Palácio Marim Olhão, Ficha de Inventário do Património Arquitectónico IPA.00009434, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9434 (consultado em 2026-04-27).

DUARTE, Paulo – Palácio do Monteiro-Mor ou Palácio Marim-Olhão, Património Cultural, DGPC, 2016 https://imovel.patrimoniocultural.gov.pt/detalhes.php?code=18646294 (consultado em 2026-04-27).


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