SOBRE O EDIFÍCIO
Toda a frente ribeirinha, tanto do lado ocidental como do lado oriental da cidade, cedo se revelou local de forte atratividade para morada de nobres e abastados. Mercê da privilegiada localização, frente à praia e ao Tejo, e de onde se desfrutavam belas vistas, a Rua da Boavista, não foi exceção. O Palácio do Marquês de Sampaio é um entre tantos outros que pela vizinhança proliferaram.
Construído na primeira metade do século XVIII, onde se teriam erguido umas casas quinhentistas, o antigo Palácio do Marquês de Sampaio marca ainda hoje o gaveto para a travessa que veio a nomear e por onde se processava a entrada para o andar nobre. Apesar de um projeto de alterações datado de 1880 ter transformado a construção áulica num prédio de rendimento, parte significativa das primitivas fachadas dão ainda testemunho do edifício palaciano.
De planta em L em torno de um pequeno pátio quadrangular a tardoz, o palácio era composto, nos inícios do século XVIII, por um piso térreo, sobreloja, dois andares superiores e águas-furtadas. A fachada para a Rua da Boavista, regular e tendencialmente simétrica era, e é, ritmada por uma sucessão de sete vãos por piso que no 1º e 2º andares são de sacada pouco pronunciada que se salientam ligeiramente dos frisos de cantaria que demarcam os andares, apresentando-se os três vãos centrais, mais espaçados, enquadrados nas extremidades por conjuntos de dois vãos emparelhados. O piso térreo era marcado a eixo por um vão mais largo de grande simplicidade. Cunhal, que terá ostentado pedra de armas, e pilastra de cantaria enquadram a composição que era rematada por cornija e telhado com beiral de telha de canudo.
A fachada lateral, dada a inclinação da via, apresentava-se mais irregular sendo tripartida por pilastras. Era por ela que se fazia a entrada direta para o andar nobre através de uma porta que, a norte, junto ao ângulo que a travessa faz, se rasgava na sequência das janelas de peito da sobreloja, aqui a um nível térreo. No seu alinhamento, abrindo à parte mais ampla da artéria, o edifício ostentava um corpo mais elevado, estreito, com dois vão de sacada.
A Travessa do Marquês de Sampaio, que em 1674 era designada pelo «caminho que vai da rua Direita para as Barrocas de Santa Catarina do Monte Sinay» e em 1712 por «beco dos Sampaios», em 1814 aparece mencionada no Prazo nº 45 da freguesia de S. Paulo como travessa da Bica dos Olhos. Em 1842 era o «beco do Conde de Sampaio» e só a partir de 1871, por edital de 10 de Setembro, passou à designação que atualmente mantém. (1)
O projeto de alterações de 1880 acrescenta mais um andar. Inicialmente previsto com janelas de peito rematado por platibanda, e com águas-furtadas, receberia janelas de sacada abrindo para uma varanda corrida sobre cornija, rematado por cornija e beirado. O piso térreo para a Rua da Boavista foi totalmente redesenhado, desaparecendo a sobreloja, englobada que foi pelos altos vãos de porta com lintéis de volta perfeita – os três centrais mais espaçados e os duplos conjuntos laterais emparelhados como já acontecia nos andares superiores originais. A eixo, a porta de entrada para a nova caixa de escada, de poço, de acesso aos fogos habitacionais que passaram a ocupar os salões agora subdivididos. A fachada recebeu, ainda, revestimento de azulejos policromos, de padronagem estampilhada, com friso contornando os elementos pétreos da arquitetura, da fábrica Viúva Lamego. As primitivas grades de ferro forjado foram substituídas por gradeamentos de ferro fundido de gosto oitocentista. Posteriormente, já no século XX, foram rasgados dois amplos vãos comerciais, interligando cada um dois vãos, que romperam com a simetria do piso térreo.
A primeira notícia desta propriedade aparece no testamento de João Moniz, filho de Jerónimo Moniz, reposteiro-mor de D. Manuel e de D. João III, datado de 1544 que legou a seu irmão Febo, procurador da cidade de Lisboa, os seus bens onde se incluíam umas casas à Rua da Boa Vista. Por morte de Febo Moniz herdou-as seu filho Jerónimo Moniz de Lusignano, Comendador de São Salvador das Alcáçovas que, falecido em 1595, as deixaria ao seu filho “outro Febo Moniz de Lusignano casado com D. Filipa Coutinho, filha de André Gonçalves de Riba Fria, alcaide-mor de Sintra.” Sem filhos varões foi sua herdeira a filha “D. Luísa Moniz Coutinho, ou D. Luísa de Torres Moniz, como depois se chamou, a qual casou com o 9º Senhor de Vila Flor.” Falecida em 1662, as casas passam a “seu filho primogénito, Manuel de São Payo e Melo, [e] a este, seu neto o Viso-Rei da Índia, Francisco José de São Payo Melo e Castro, e a este ainda seu bisneto, outro Manuel de São Payo Melo e Castro, gentil-homem do Senhor Infante D. Manuel.” (2)
A traça quinhentista ter-se-á desvanecido com as obras necessárias de alteração e adaptação a novas exigências. Será, no entanto, com este último proprietário que, em data incerta, a fim de alargar a casa avoenga, “adquiriu uma morada foreira aos frades do Carmo” (3) e outro prédio também a eles foreira.
Grandes obras terão então ocorrido, ao que tudo indicia na primeira metade do século XVIII (Júlio de Castilho informa que na esquina se lê a data, não comprovada, de 1712, e antes de 1723 o heraldista Francisco Xavier da Serra Craesbeck regista aí a presença de uma pedra de armas cuja existência se revela ainda no remendo existente no cunhal de cantaria aparelhada).
“O tombo que em 1769 o 1º Conde de São Payo mandou fazer de todas as suas propriedades, a folhas 87 descreve o palácio (…): § «Item um Palácio nesta Cidade de Lisboa à Boa Vista, defronte do Boqueirão das Melancias, que hoje serve de Areia. Parte do Sul com a Rua Direita da Boa Vista, e do nascente com um Beco que vem desta Rua para a entrada principal deste Palácio e rua que lhe serve de serventia; do norte com o Convento dos Religiosos de Sam João de Nepomuceno; do Poente com casas de João de Sousa Campos, oficial da Secretaria de Estado, tem dous andares e águas-furtadas com suas sacadas sobre a Rua direita, praya e mar, de cuja vista e recreação logra; e para a Rua tem logeas que se alugão e servem de Armazens com suas portas por onde se servem; na esquina da parte do Beco na frontaria da Rua direita huma pedra de Armas com as do Ilustrissimo Conde de Sampaio, e para a Rua que serve de entrada a este Palácio ficão cosinhas, e coxeiras e cavalariças, como também os quartos para os creados. He este Palacio magnifico, tem muita acomodação por ter vários quartos com suas camaras, e ante camaras, casas de espera, cópa e tudo o mais necessário para uma boa acomodação; e pela sua grandeza não necessita de mais medição, nem demarcação por serem bem conhecidas.» (4)
O progressivo aterro da praia e o início das construções no lado oposto da rua será a razão por que por volta de 1820 os Sampaio abandonam a casa dos seus antepassados, acabando por se instalar num outro palácio a São Vicente de Fora.
O vetusto casarão foi sucessivamente alugado, por vezes aos quartos, a diversos inquilinos, até que acabou por ser vendido pelo seu último morgado, “em hasta pública a Luís Manuel da Costa, negociante e proprietário, em 25 de Outubro de 1877, por sete mil réis, tendo sido a respetiva escritura lavrada nas notas do tabelião João Baptista Scola, em 29 de Novembro do mesmo ano.” (5) Será este o responsável pelo projeto de alterações de 1880. A decadência que se registou ao longo da segunda metade de Novecentos na zona levou a que de prédio de rendimento se convertesse em pensão. Depois de ter sido alvo de obras de reabilitação em 1997, acabou por albergar (pelo menos entre 2004 e 2011) um polo da ETIC – Escola de Tecnologias Inovação e Criação, criada em 1991 e cuja sede é na vizinha Rua D. Luís I, nº 6. Recentemente foi convertido num hostel.
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(1) Nota nº 17 de Pastor de Macedo, p. 298, in: Júlio Castilho – A Ribeira de Lisboa. Vol. 4
(2) D. António, Conde de São Payo citado por Pastor de Macedo, nota nº 17, pp. 294-295, in: Júlio Castilho – A Ribeira de Lisboa. Vol. 4
(3) Op. cit. p. 295
(4) Idem. p. 297
(5) Idem. p. 298
António Miranda
BIBLIOGRAFIA
Fontes
PROCESSO OBRA nº 3994. Arquivo Municipal de Lisboa. Arquivo Intermédio. Câmara Municipal de Lisboa. Ref. PT/AMLSB/CMLSBAH/COPA/001/0046 43/1ªREP/PG/1880
Referências Bibliográficas
CASTILHO, Júlio – A Ribeira de Lisboa. Vol. 4; 4ª ed. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1981, p. 139, 294-298 [anotações de Luís Pastor de Macedo].