Palácio do 2ª conde de Alcáçovas – Guilherme Pinto Basto na rua de Santa Catarina

SOBRE O EDIFÍCIO

O Alto de Santa Catarina terá sido, desde a fundação da homónima igreja em 1557, o sítio mais icónico daquele bairro; com efeito, pela sua posição e vista desafogada sobre o rio, o local passou a ser conhecido, também, como Monte do Belver ou da Boavista (Araújo, 1939, p. 73). As diversas representações da igreja de Santa Catarina de Monte Sinai e da zona circundante, patentes na Grande Panorâmica em Azulejos (1698-99), no Desenho do Museu Nacional de Arte Antiga (c. 1760) e na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes (c. 1769), permitem comparar a transformação urbana desta área ao longo do tempo. Com efeito, o Alto de Santa Catarina assume o aspeto que hoje lhe conhecemos na segunda metade de Oitocentos, sendo alvo de importantes transformações – entre as quais a construção do palácio que alberga atualmente o Museu da Farmácia (1862) e o ajardinamento do miradouro de Santa Catarina (1878).

Observando as Vistas MNAA e ANBA, com enfoque na estrada que acompanha o declive da colina em direção poente – a atual rua de Santa Catarina –, destaca-se pela imponência o prédio situado na esquina com a travessa da Condessa do Rio. Por trás deste edifício é visível, em segundo plano, o topo da igreja do convento Paulista, na calçada do Combro. Na Vista MNAA, o facto deste imóvel ter sido numerado para uma futura legenda aponta para a sua relevância no contexto sociocultural contemporâneo. A Vista ANBA, mais detalhada, revela um edifício de dimensões consideráveis, que emerge do tecido urbano circundante apesar da sobriedade da fachada, aqui representada com simples janelas quadradas que não denunciam a existência de um andar nobre, destacando-se apenas o grande portal com cantaria em pedra.

Não se conhece, até agora, o ano da sua construção, podendo esta ser posterior ao terramoto, visto que o Alto de Santa Catarina sofreu danos relevantes nessa circunstância – contando, inclusive, com a destruição da homónima igreja, reconstruída em 1757. A partir dos anos sessenta de Setecentos, o edifício de «três logeas, dois andares e dois quartos, e hum Páteo»[1] sito na então rua do Monte de Santa Catarina, é registado nas Décimas da cidade como propriedade[2] de D. José de Lencastre, encontrando-se arrendado. A este nome se deve também a designação do “Pátio do Lencastre”, localizado mais acima, no cruzamento com a antiga rua do Cemitério, o que poderá apontar para a posse do terreno situado entre essa rua e a do Monte de Santa Catarina.

D. José de Lencastre (1717? -1793), gentil-homem da câmara do rei D. José, era filho de Pedro de Almeida de Lencastre e Inês Josefa de Távora, e tinha herdado o morgado de José António de Saldanha Menezes e Sousa (1738-?), falecido sem filhos. Em 1746, casou, na paroquia de Santa Catarina, com D. Leonor Henriques de Faria Pereira, 11ª senhora das Alcáçovas (1723 – 1797), da qual teve quatro filhos[3]. Era dono de outras propriedade na freguesia de Santa Catarina, nomeadamente as casas na rua Direita das Portas Santa Catarina, incendiadas no terramoto de 1755[4]. A partir dessa data, D. José de Lencastre e a família mudaram-se para o palácio Alcaçovas na antiga Rua da Cruz, na freguesia das Mercês (Miranda, 2017), naõ resultando que tenha alguma vez residido no prédio da rua do Monte a Santa Catarina.

A partir de 1817, este imóvel é aforado por D. Caetano de Lencastre Saldanha[5] a José António Pereira Vilela, que consta como residente naquela morada pelo menos até 1826[6]. Nos anos cinquenta de Oitocentos, a Câmara Municipal de Lisboa aprova o projeto do arquiteto e engenheiro Pedro José Pezarat para os «prédios que o Conde de Alcaçovas [D. Caetano de Sales Henriques Pereira de Faria Saldanha Vasconcelos de Lancastre (1819-1894), 2º conde de Alcaçovas] pretende alterar na rua do Monte de Santa Catarina, atual rua de Santa Catarina, n.º 8 a 10 e na travessa da Condessa do Rio, n.º 30»[7]. O projeto apostava em conferir elegância ao edifício, redimensionando os vãos e introduzindo novas simetrias, nomeadamente com a transformação das aberturas do segundo andar em janelas de sacada, com os respetivos terraços e varandim em ferro forjado, e a introdução de três grandes portas de entrada no rés-do-chão. Em 1866, o conde de Alcaçovas cedeu ao município uma porção do terreno «contíguo ao jardim do prédio que possue no Alto de Santa Catarina»[8], adjacente à rua do Cemitério, para a construção de uma casa para o alojamento da polícia municipal.

Possivelmente em finais do século XIX, o edifício passou para a posse de Guilherme Pinto Basto (1864-1957), empresário e pioneiro do futebol e do ténis em Portugal, bisneto de José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), fundador da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, em 1824. Em 1916, o edifício é alvo de obras de alteração da fachada e é construído um acrescento, destinado «a acomodação para creados[9]» no jardim virado para a travessa da Condessa do Rio. Nos anos quarenta de Novecentos, Anselmo Pinto Basto, então proprietário e morador do edifício, promove obras de remodelação no interior, e faz ampliar de um piso ao acrescento do jardim, tranformando-o numa habitação independente.

O aspeto atual da fachada do edifício, sóbrio e elegante, resulta principalmente das obras realizadas nos anos cinquenta de Oitocentos, às quais se juntam algumas alterações introduzidas em 1916. No século XXI, viveu no prédio a cantora Mysia, nome artístico de Susana Maria Alfonso de Aguiar (1955-2024), cujo apartamento, adquirido depois da sua morte pela Fundação Kees Eijrond (KEF), é atualmente sede de residências artísticas por determinação daquela instituição.

Michela Degortes


[1] AHTC, Décimas da Cidade (DC), Freguesia de Santa Catarina, DC 1418 (1777), f. 41v.

[2] AHTC, Décimas da Cidade (DC), Freguesia de Santa Catarina, DC 1372 (1766), f. 33v.

[3] ANTT, Registos Paroquiais, Santa Catarina, Registo de Casamentos, lv. 12 – C, f. 40. Casamento celebrado a 21 de Junho de 1746 entre «D. Joseph de Alencastre, baptizado na freguesia de S. Sebastião da Pedreira desta cidade, filho de D. Pedro de Almeida de Alencastre e de sua mulher Dona Inês Josepha de Távora, defuntos, e D. Leonor Maria Henriques de Faria Pereira, filha legitima de D. António Henriques de Faria e de D. Josepha Francisca de Hesemberg (?), baptizada nesta minha freguesia, e nella ambos os contraentes moradores, e meus fregueses […]».

[4] ANTT, Feitos Findos, Juízo da Inspeção de Bairro, liv. 6.

[5] D. Caetano Alberto Henrique de Lencastre Saldanha (c. 1755-1822), filho de José de Lencastre, casado com D. Maria Domingos de Castro, pai de Teresa Francisca de Paula Lencastre, 13ª condessa de Alcáçovas. Pelo menos entre 1795 e 1818, D. Caetano residia no palácio Alcáçovas da rua da Cruz (atual rua da Cruz dos Poiais).

[6] AHTC, DC 1551 (1817). Rua do Monte de Santa Catarina, n. 1 a 8 «Propriedade de José António Pereira Vilella que rende […] 365#000 reis […] do Foro ao Exmo. D. Caetano de Lencastre». DC 1578 (1826), f. 32, nº 177, 1 a 8.

[7] AML, Gestão de Expediente Geral, 1452 – Prospeto conforme o aprovado, dos prédios que o Conde de Alcaçovas pretende alterar na rua do Monte de Santa Catarina, atual rua de Santa Catarina, n.º 8 a 10 e na travessa da Condessa do Rio, n.º 30. 27-03-1855.

[8] AML, Decretos e Portarias Régias, liv. 1, f. 56v.

[9] Obra 8055, proc. 2168/1916.


BIBLIOGRAFIA

Fontes

Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC)

Livros da décima da cidade de Lisboa (DC), Freguesia de Santa Catarina, DC 1372 (1766), DC 1418 (1777), DC 1551 (1817), DC 1578 (1826).

Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)

Feitos Findos, Juízo da Inspeção de Bairro, liv. 6. Adjudicações e posses de propriedades pertencentes a este bairro

Ministério do Reino, mç. 694, proc. 21. Requerimento de Caetano Alberto Henriques Pereira Faria de Lencastre e Saldanha, sobre a administração dos bens da sua Casa após morte de D. José de Lencastre Saldanha. https://digitarq.arquivos.pt/fileViewer/4b1c4f4b7f884556ac5d07f964c40cdf?isRepresentation=false&selectedFile=20425980&fileType=IMAGE (2026-06-11)

Registos Paroquiais, Santa Catarina, Casamentos, lv. 12 – C, f. 40. https://sites.nosportugueses.pt/pt/bairroalto/paroquiais/2799/santa-catarina (2026-06-11)

Arquivo Municipal de Lisboa (AML)

Gestão de Expediente Geral (GEGE), 1452 – Prospeto conforme o aprovado, dos prédios que o Conde de Alcaçovas pretende alterar na rua do Monte de Santa Catarina, atual rua de Santa Catarina, n.º 8 a 10 e na travessa da Condessa do Rio, n.º 30. [Prospeto dos prédios do Conde de Alcaçovas sitos na rua do Monte de Santa Catarina, nº 8 a 10 e na travessa da Condessa do Rio, nº 30] (consultado 2025-10-25).

Decretos e Portarias Régias, liv. 1, f. 56v, 17-07-1866. [Arrendamento de um terreno para construção de uma casa para a polícia municipal] (consultado 2025-10-25).

Obra nº 8055. Travessa da Condessa do Rio, 2 e 2A. Rua de Santa Catarina, 16 e 18.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Norberto de – Peregrinações em Lisboa, Livro XIII, Lisboa, 1939.

AAVV – Dicionário Enciclopédico das Freguesias, Vol. IV, 1997.

MARTINS, Rocha – Lisboa de ontem e de hoje: As colinas de Lisboa. 1ª parte. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1945.

MIRANDA, António – “Palácio Alcáçovas” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.

SILVA, Augusto Vieira da. “Uma vista panorâmica de Lisboa dos fins do seculo XVIII” in Elucidário Nobiliárquico, Vol. II, X (1929), pp. 324-331.


LOCALIZAÇÃO