Palácio de Manuel de Vasconcelos e Sousa

SOBRE O EDIFÍCIO

O bairro de Santa Catarina assistiu à construção de várias residências por algumas das mais importantes famílias portuguesas de que destacamos os Condes da Torre (mais tarde Marqueses de Fronteira) e os Condes de S. Lourenço. A pouco e pouco, a Calçada do Combro e o prolongamento até à Rua dos Poiais de S. Bento, bem como as artérias envolventes, receberam assim a construção de vários palácios e casas, bem perto das igrejas, capelas e conventos mais relevantes da freguesia.

A actual Rua da Cruz dos Poiais, transversal à citada Rua dos Poiais de S. Bento, era outrora apelidada Rua Larga de Jesus, de acordo com a designação consagrada nos róis de confessados da paróquia (AHPL) pelo menos desde o século XVII. Esta via aparece na documentação dividida em duas bandas: a de Jesus (para oriente) e a de S. Bento (para ocidente). Através do registo dos vários moradores desta rua e tomando por base a “banda de Jesus”, procurámos reconhecer a habitação e o agregado familiar respectivo passíveis de serem relacionados com o actual Palácio Mendia que sabemos ter raízes fundacionais no século XVII.

Com efeito, o lado direito de quem sobe da Rua Larga de Jesus refere-se à área correspondente à localização desse palácio e a entrada principal do mesmo deita justamente para esta via. Acrescente-se ainda que, neste arruamento, o rol regista sempre os moradores de sul para norte, isto é, subindo a rua vindo dos Poiais de S. Bento, passando a Rua Pedro Dias, em direcção à Travessa da Arrochela.

Além disso, as dimensões do edificado justificariam certamente um agregado familiar de pelo menos oito elementos, de acordo com a média apurada nas outras moradas constantes dos róis da freguesia. Bem perto deste quarteirão, tal como em outros pontos da freguesia de Santa Catarina, encontravam-se também estabelecidas olarias, tal como ficou documentado pelos trabalhos arqueológicos, levados a cabo em 2005, com o achado de fragmentos cerâmicos e trempes. (Santos, 2007). De entre os nomes identificados no bairro, e que pudessem ser relacionados com o edifício primitivo do Palácio Mendia, detectámos entre 1633 e 1689 os de Filipe Peixoto da Silva, um Luís Mendes de Vasconcelos, um Manuel Almada Pereira e respectivas famílias (AHPL).

A família de Filipe Peixoto da Silva parece ser a mais habitual nesta banda, mantendo-se com enorme regularidade entre 1658 e 1689, sempre acompanhado de uma casa com dez/quinze pessoas. Entre 1689 e 1695, na vez da família Peixoto da Silva, aparece a do Desembargador Diogo Carvalho de Sequeira que volta a desaparecer após essa data. Por este motivo, estamos em crer que deverá ter alugado a casa por pouco tempo.

Entre 1695/1696 e 1712, por conseguinte numa baliza próxima à da realização do painel de azulejos, encontramos instalados na habitação mais importante da Rua Larga / Cruz dos Poiais, em particular a última antes do arrolamento da “banda de S. Bento”, Manuel de Vasconcelos e Sousa (c. 1648-1710). Este era filho do 2º Conde de Castelo Melhor D. João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa; irmão do 3º Conde de Castelo Melhor D. Luís de Vasconcelos e Sousa; e do influente Bispo de Lamego e mais tarde de Coimbra D. António Vasconcelos e Sousa. Manuel de Vasconcelos e Sousa ocupou ainda o lugar de Trinchante-mor do rei D. Pedro II (Sousa, 1742).

A permanência desta importante família fidalga durante alguns anos na casa, que contava entre vinte e quatro a vinte e sete elementos, ou seja mais do dobro dos familiares de Filipe Peixoto da Silva ou de Diogo Carvalho de Sequeira, faz-nos pensar que terá sido Manuel Vasconcelos e Sousa o responsável pela construção (ampliação) da maior parte do palácio, mais tarde Mendia como vimos. A área do edifício deveria prolongar-se para o adro do Convento de Jesus, a aceitar a proposta de Maria João Santos baseada nas já mencionadas escavações arqueológicas de 2005. (Santos, 2007: 392).

A riqueza e o prestígio granjeados pelos Castelo Melhor, que possuíam também a Quinta da Calheta em Belém (Ajuda) e o Palácio junto da Calçada da Glória (São José), possibilitariam a (re)construção do edifício que terá sido começado pelos habitantes antecessores mas que conhecerá a sua forma final com Manuel Vasconcelos e Sousa, tal como nos parece documentar o painel de azulejos. Entre 1701 e 1706, a casa aparece desocupada na Páscoa, sabendo que, no ano de 1704, a família de Manuel Vasconcelos e Sousa se encontrava na Quinta da Calheta (ver ficha neste site). Entre 1706 e 1711 voltam a estar arrolados na Rua Larga / Cruz dos Poiais, alugando depois esta morada a Pedro Álvares Cabral de Lacerda e família até 1714. Esta data coincide com o regresso de D. Isabel de Sousa e Lima, já viúva de Manuel Vasconcelos e Sousa, e de alguns filhos, entre os quais José de Vasconcelos e Sousa que ficará de posse da habitação.

Em 1739, António Francisco de Vasconcelos e Sousa, irmão deste último, virá a falecer na casa, prova que o palácio se manteve nas mãos da família, pelo menos até ao segundo quartel do século XVIII.

O edifício que ocupa o último quarteirão da Rua da Cruz dos Poiais, banda de Jesus, ficou conhecido por “Palácio Mendia”, uma vez que o mesmo foi adquirido em 1861 por José Matheo de Mendia y Elorza (1807-1888), pai de Eugénio de Mendia y Cunha Matos, 1º Conde de Media, e depois ficou na posse do neto, Eduardo Pereira Caldas de Mendia (2º Conde). A propriedade do edifício é comprovável através de um requerimento remetido à Câmara Municipal de Lisboa em 1866, tendo em vista a alteração do imóvel (AML).

No início do século XX, Ventura Terra interveio igualmente no edifício, mantendo-lhe a sobriedade chã que sabemos ter raízes seiscentistas. Em 1939, Norberto Araújo corrobora a informação de que o palácio estava na posse de Eduardo Pereira Caldas, 2º Conde de Mendia.

Pedro Flor


BIBLIOGRAFIA

Arquivo Municipal de Lisboa

AHCML, Proc. 10110, Alçado n.º 1261, N.º 13 (AHCML)

Estudos

ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. 5, Lisboa, António Maria Pereira Editora, 1939, p. 44.

MELLO (coord.), José António de Casas e Palácios de Lisboa – Pedras d’Armas, Lisboa, Scribe, 2014, pp. 80-81.

SOUSA, António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portugueza, vol. IX, Lisboa, Regia Officina Sylviana, 1742, pp. 136-140.

SANTOS, Maria João, “Largo de Jesus: contributo para a história incógnita de Lisboa antiga”, Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 10, nº 1, 2007, pp. 381-399.

SILVA, Jorge Henriques Pais da, “Palácio dos Capitães de S. Julião da Barra”, in Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, ALMEIDA, D. Fernando de (dir.), Tomo V, Parte II, Lisboa, Assembleia Distrital, 1975, pp. 68-69.


LOCALIZAÇÃO