SOBRE O EDIFÍCIO
O palácio dos Carvalho de Ataíde, hoje conhecido por Palácio Fiúza, localiza-se no “Grande panorama de Lisboa” em Alcântara, junto à Quinta Real e à ponte que se erguia no mesmo local.
O edifício, de feição nitidamente maneirista, apresenta-se em dois corpos justapostos em ângulo recto com fenestrações de sacada, ritmadas, observando-se maior número no corpo superior, o seu andar nobre. Datado do século XVII, terá pertencido em primeiro lugar à família Carvalho Ataíde, avós paternos de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal. Paulo Carvalho e Melo, tio paterno deste, refere que o irmão, Manuel Carvalho de Ataíde, recém-casado com D. Teresa Luísa Rosa de Mendonça, fora viver para a quinta da família em Alcântara. Uma carta de Francisco de Melo Manuel remetida de Haia a 14 de novembro de 1669 e dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo refere que “o Conde de Schomberg se aprestava a Quinta de Alcantara que foy de Paulo de Carvalho. Diga me VM se elle he já partido”, documentando a posse da propriedade (DGLAB/TT).
Estima-se que tenha sido em Janeiro de 1698 que o jovem casal se mudou para a dita quinta. No entanto, a sua permanência será breve, não mais de dois a três anos, pois, e ainda segundo relato de seu irmão, o pai do futuro ministro do rei D. José I encontrava-se em Vila Viçosa em campanha militar em 1704, tendo partido de Lisboa provavelmente em 1703, data em que a família teria retornado à propriedade que detinham na Rua Formosa. Sebastião de Carvalho e Melo nasceu a 13 de Maio de 1699 e foi baptizado na igreja das Mercês, cujo padroado pertencia à sua família. O que não invalida a plausível teoria de que o futuro marquês de Pombal possa ter nascido no Palácio dos Carvalho de Ataíde, em Alcântara.
Da história deste palácio destaca-se ainda o facto de nele ter estado alojado o rei D. Pedro II aquando das obras do seu Paço Real de Alcântara. Sabe-se que o rei terá passado um curto espaço de tempo nesta casa, pois nela se fixa no outono de 1706, vindo a falecer já no seu Paço de Alcântara a 9 de Dezembro do mesmo ano.
Referenciado por Abel Botelho, ministro de Portugal em Buenos Aires, no seu romance “Amanhã”, datado de 1901, o palácio é assim caracterizado: “O velho palácio, pátio e quinta do Fiúza já não apresentava mais do que uns ténues vestígios da feição e traça primitiva (…) frente monotamente regrada, em cinco fiadas, por comedidas rectangulares de cantaria lavrada (…) Possui um jardim de talhe hierático (…) moldado em grossos paredões de buxo, maciçamente esquadrados, segundo o classicismo frio e simétrico da arte e do primeiro Império, circunscrevendo cascatas, fontes sem água e náiades sem cabeça. E esta sua gélida imobilidade intimidava (…) Certo é que o Palácio do Fiúza tinha sobejos fóros para arrogar-se a gloria de haver sido por excelência o solar do moderno movimento revolucionário em Portugal. Ali se fundara e instalara e ali funcionou, desde 1858, durante muitos anos de seguida, a Associação Fraternal dos Fabricantes de Tecidos e Artes Correlativas, uma das primeiras cooperativas nacionais, ao depois convertida num centro de agitação dos mais ousados e mais fecundos: Ali celebravam as suas clandestinas sessões várias lojas maçonicas: Ali passaram de preferência a reunir, a contar de 1875, todos os conciliábulos de conspiradores, todos as fenianas ligas de resistência contra os podêres constituídos, presididos e insuflados as mais delas por Carrilhos Videira”.
Jornalista e activista político, Sebastião de Magalhães Lima, na sua obra Episódios da Minha Vida: Memórias documentadas, datada de 1928, relata que: “Houve em Lisboa três focos de irradiação republicana: o Palácio do Fiúza, em Alcântara; o Pátio do Salema, onde teve a sua sede o “Centro Fraternidade Republicana”, e a “Livraria Internacional”, de Carrilho Videira (…) O Palácio do Fiúza era frequentado por republicanos e socialistas, que, naquela época, caminhavam a par (…) foi no palácio Fiúza que saiu o Trabalho, em que colaborei com Silva Pinto e Eduardo Maia”.
Em meados do século XIX, concretamente em 1858, observa-se na planta de Filipe Folque, o Palácio Fiúza ainda plenamente integrado na malha urbana, fazendo parte da organicidade urbanística envolvente.
Várias conjunturas históricas e escolhas urbanísticas ditaram o desmembramento da envolvente urbana deste imóvel. Desde logo, a industrialização crescente do local, iniciada em meados do século XIX, que trouxe consigo a necessidade de alojar os operários das várias fábricas que se instalaram no local. O Palácio e a Quinta do Fiúza não foram excepção e os seus interiores foram subdivididos e adequados ao arrendamento a várias famílias.
Posteriormente, com o rasgamento da Avenida de Ceuta e a construção do acesso de Alcântara à Ponte sobre o Tejo, o já então denominado Pátio do Fiúza perde de vez o seu norte urbanístico.
Actualmente, o antigo palácio dos Carvalho de Ataíde, é flanqueado a norte por um bairro social construído nos antigos terrenos da Quinta, a sul pelos acessos à Ponte 25 de Abril e a este por um conjunto de edifícios de habitação de dois pisos.
Silvia Ferreira
Como citar: Sílvia FERREIRA, “Palácio de Manuel de Carvalho e Ataíde (Fiúza)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/EAT-EAT/099160/2008), 2017.
BIBLIOGRAFIA
Fontes
DGLAB/TT, Ministério dos Negócios Estrangeiros, “Carta de Francisco de Melo Manuel a Duarte Ribeiro de Macedo”, cx 4, Mç 5, 1673-4.
Estudos
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Internet
Palácio Fiúza, Ficha de inventário do IHRU, N.º de IPA 00023543, em www.monumentos.pt, consultado em Dezembro de 2013.