Palácio Corte Real

SOBRE O EDIFÍCIO

As casas de morada do vice-rei D. Cristóvão de Moura Corte Real (1538-1613), localizadas junto ao palácio real da Ribeira, também conhecidas como “palácio dos marqueses de Castelo Rodrigo”, “palácio Corte Real”, “palácio das Cortes Reaes“, “palácio do Corpo Santo” e “paços do Infante”, terão sido começadas a edificar em data por apurar, no local onde Vasco Anes Corte Real, seu sogro, possuía terrenos, bem como Miguel Corte Real, desde 1502. Apesar de se desconhecer o arquitecto de tal edificação, bem como outras nuances relativas à sua construção, o seu risco tem sido atribuído ao arquitecto hispânico Juan de Herrera (1530-1597).

Todavia, a ideia da intervenção do arquitecto régio João Antunes (1643-1712), no ano de 1700, terá sido mais provável, pois a 1 de Abril desse ano, foram-lhe adjudicadas as obras de pedraria e de carpintaria para as casas da Corte Real, armazéns da Ribeira e cavalariça do Arco do Ouro. Nesse local terá vivido o primeiro marquês de Castelo Rodrigo, bem como o seu filho D. Manuel de Moura Corte Real (f. 1652), embaixador de Filipe III em Roma e Viena, e o neto D. Francisco de Moura Corte Real (f. 1675), cujos títulos e bens perderam na sequência do golpe de estado independentista de 1640. É aliás na sequência da devolução da coroa portuguesa aos Bragança que o palácio Corte Real é incorporado nos bens da Casa do Infantado, sendo devolvido à família no ano de 1668 e arrendado à família real portuguesa por cinco mil cruzados anuais. A partir dessa data, foi habitado por alguns membros da família real, a saber: as rainhas D. Maria Francisca de Sabóia (1646-1683) e D. Maria Isabel Sofia de Neuburgo (1666-1699), que nele faleceu. Sabemos ainda que, por ocasião do casamento desta rainha (1687), houve importantes obras de acrescento do palácio: “Vivia el-Rei [D. Pedro II] no Palácio da Corte-Real, aonde vivia de antes e sendo solteiro, e ali tãobém a Senhora Infanta D. Izabel. E para haver mais comodos se fizerão casas por cima de outras de que resultou ficar este Palácio sem a regularidade e prefeição que de antes tinha” (FLOR, 2017).

No mesmo espaço nasceu o futuro D. João V (1689-1750) e seus irmãos, os infantes D. Francisco (1691-1742), que aí terão residido, D. António (1695-1757), D. Teresa (1696-1704), D. Manuel (1697-1736) e D. Francisca (1699-1736). Terá ainda sido durante o reinado de D. Pedro II (1648-1706), quando D. Maria Francisca habitou o palácio, que se mandou edificar o seu celebre passadiço, que o ligava ao paço da Ribeira, registado na iconografia coeva.

O destino do palácio terá sido ditado às cinco horas da tarde do dia 17 de Junho de 1751, poucos meses depois deste ter sido adquirido pelo infante D. Pedro (1717-1786), futuro D. Pedro III, quando deflagrou um incêndio de grandes proporções, tendo ardido num espaço de quatro horas os cento e oitenta e cinco compartimentos que o compunham. Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755 a destruição do remanescente foi total, pouco ou nada tendo subsistido para perpetuar a memória da casa dos marqueses de Castelo Rodrigo.

No que à recolha iconográfica deste edifício concerne, atente-se à representação de Lisboa de c. de 1593, por Theodor de Bry (1528-1598), possivelmente a primeira fixação gráfica conhecida, onde só se observa o que parece ser um piso térreo. A esta memória, deve-se acrescentar aquelas perenizadas na gravura da obra Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D. Filipe II N.S. ao Reyno de Portvgal e rellaçao do solene recebimento que nelle se lhe fez S. Magestade a mandou de Lavanha, da entrada régia de Filipe II (1578-1621) em 1619, onde o edifício parece continuar a não apresentar um número muito elevado de  andares, e na pintura que se encontra no castelo de Weillburg na Alemanha.

Outra das representações mais significativas deste edifício é a que se encontra num esboço da autoria de Luís Nunes Tinoco (c. 1642-1719), incluso na sua obra A Pheniz de Portugal Prodigioza em seus Nomes D. Maria Sofia Isabel Raynha Serenissima, & Senhora Nossa, onde se observa à esquerda do torreão do palácio real um volume onde sobressaem quatro torreões sobrepujados por coberturas piramidais. Também no registo de Pier Maria Baldi (c. 1630-1686), aquando da viagem de Cosme de Médicis a Portugal, ou num dos desenhos e gravura com a vista do palácio da autoria de Dirk Stoop (1618 – 1686), pertencentes ao espólio do Museu da Cidade, se confirma a importância que este edifício tinha na malha urbana da Lisboa Seiscentista e Setecentista. Por fim, observe-se a representação do imóvel nas pinturas Nossa Senhora do Porto Seguro e Partida de S. Francisco Xavier para a Índia, esta última da autoria de Pinhão de Matos, onde a monumentalidade e características diferenciadoras do edifício, o distinguem dos demais.

A construção, similarmente representado na iconografia recolhida, localizava-se então, como já foi referido, junto ao rio Tejo, na área denominada de “Corpo Santo”, e era composto duas plantas quadrangulares, justapostas, uma referente ao corpo do edifício e outra, fronteira ao rio, onde se erguiam dois corpos paralelos, rematados superiormente por varandins, e fechados entre si no topo. Esse topo apresentava centralmente um portal, cujo acesso era conseguido através de dois lanços de escadas, directamente do rio.

O edifício habitacional era rematado por quatro torreões, coroados por coberturas piramidais, e apresentava os seus panos murários hierarquizados, com marcação do piso nobre através das largas janelas com varandins, ao nível do 4.º piso. Os mesmos alçados apresentavam ainda pilastras, a indicar a marcação dos torreões, sendo o poente unicamente animado por um portal, ladeado por duplas colunas e encimado por edícula decorativa, possivelmente com as armas dos Corte Real. O alçado sul do edifício, nas representações mais perspectivadas, apresentava galeria de arcos, que davam para o jardim, fronteiro ao Tejo.

Segundo estudos recentes existem algumas discrepâncias entre as diferentes representações do edificado, mormente ao nível da escala, não correspondendo ao último registo gráfico que se conhece: a reconstituição do palácio, efectuada a seguir ao terramoto de 1755, que hoje se encontra à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal.

Maria João Pereira Coutinho


BIBLIOGRAFIA

Fontes manuscritas e iconográficas:

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Fontes impressas:

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LOCALIZAÇÃO