SOBRE O EDIFÍCIO
A encosta de Santa Catarina, com a homónima igreja localizada na colina outrora «conhecida […] por Monte ou Pico do Belver, e ainda da Boa Vista» (Araujo, 1939, p. 73), encontra-se representada na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, ocupando a última folha até agora conhecida deste excecional testemunho iconográfico da cidade de Lisboa. No Desenho do Museu Nacional de Arte Antiga, realizado a partir de um ponto de captação situado no rio, justamente em frente da antiga igreja de Santa Catarina, a imagem da colina posiciona-se no centro da panorâmica.
Da comparação com o estado atual do tecido urbano nesta área, verifica-se que vários edifícios mantiveram quase in toto a sua configuração arquitetónica original, com destaque para os imóveis situados nas atuais travessa dos Ferreiros a Santa Catarina, rua Fernandes Tomás, rua de Santa Catarina, calçada Salvador Correia de Sá e rua da Boavista. Entre estes, destaca-se o prédio situado na esquina entre a travessa da Condessa do Rio e a rua dos Ferreiros a Santa Catarina, estando parcialmente visível, em segundo plano, por trás deste imóvel, a igreja do convento Paulista, na calçada do Combro. No Desenho do MNAA, o facto deste imóvel, ter sido numerado para uma futura legenda aponta para a sua relevância no contexto sociocultural contemporâneo.
Na altura da realização da Vista ANBA (c. 1769), o edifício é descrito nos livros das Décimas da cidade como «propriedade do Exmo. Conde de Boubadella que consta de duas lojes, hua sobre loja, hum andar e cazas Nobres»[1], sendo a rua então designada como rua do Secretário. Esta toponímia, bem como a propriedade do imóvel, mantêm-se inalteradas nos livros das Décimas pelo menos até 1815, ano em que a rua passa a ser denominada travessa da Condessa do Rio -denominação que aparece, também, na planta de Duarte José Fava (c. 1807). Segundo Norberto de Araújo, morou e faleceu no imóvel em questão D. Antónia Maria Francisca Barreto de Sá (1735–1759), condessa do Rio Grande, à qual se deve a atual toponímia[2]. No entanto, de acordo com os registos paroquiais, D. Antónia Barreto de Sá morreu na rua do Sol – atual rua do Sol a Santa Catarina – que cruza a antiga rua Secretário.[3] A residência da condessa do Rio Grande pode ter sido, portanto, o prédio setecentista de três andares implantado no gaveto entre estas duas ruas[4].
Voltando ao palácio objeto deste estudo, não se conhece, até agora, informação acerca do ano da sua construção mas, pelo menos a partir de 1765, o edifício pertenceu ao 2º conde de Bobadela, José António Freire de Andrade (1708-1784), casado com Antónia Xavier de Lencastre de Almeida e Bourbon (1746 – 1791). José António Freire de Andrade era irmão de Gomes Freire de Andrade (1685–1763), governador do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais entre 1733 e 1763 e primeiro conde de Bobadela, título concedido por D. José I em 1758. Também José António Freire de Andrade exerceu o cargo de governador interino de Minas Gerais e do Rio de Janeiro (1752–1758), tendo regressado a Portugal em 1761. Em 1763, herdou o património do seu irmão[5] e sucedeu na casa com o título do 2º conde de Bobadela.
O prédio da antiga rua do Secretário, no cruzamento com a rua dos Ferreiros, poderá ter sido parte do dito património ou ter sido adquirido por ocasião do regresso a Portugal, e do casamento (1761). O imóvel manteve-se na posse do mesmo proprietário e, depois da sua morte, na dos seus herdeiros, até às primeiras décadas do século XIX. Já em 1831, o edifício pertencia a João Maria de Abreu, encontrando-se aforado ao conde de Bobadela.[6] Durante o século XIX, o edifício passou para a posse da família Mendia, que mantém atualmente a propriedade do imóvel.[7]
O prédio, com implantação em L e fachada principal virada para a travessa da Condessa do Rio, tinha originalmente dois andares — rés-do-chão, 1.º andar e 2.º andar nobre. O desenho das fachadas distingue-se pelo requinte dos seus elementos arquitetónicos, destacando-se o segundo andar, com frontaria marcada por janelas de sacada com cantaria em arco de cortina e varandins de ferro forjado, implantados ao nível do friso que separa os andares. Na fachada sobre a rua dos Ferreiros a Santa Catarina, o primeiro andar apresenta janelas de sacada de menores dimensões, com cantaria mais sóbria e varandins de ferro forjado, enquanto, na fachada sobre a travessa da Condessa do Rio, o mesmo piso tem janelas quadradas, interrompidas ao meio da frontaria pelo grande portal central de entrada, ladeado por três aberturas de cada lado. O tipo de detalhe de cantaria das janelas de sacada do segundo andar encontra-se em outros palácios de Lisboa, como o palácio Rebelo Andrade, na rua da Escola Politécnica (c. 1760) — também representado na Vista ANBA —, e o palácio do marquês de Lavradio, na Feira da Ladra (c. 1745), no campo Santa Clara.
Ao longo dos séculos XIX e XX, o edifício foi alvo de obras de alteração, nomeadamente no que diz respeito ao acrescento de um terceiro andar. Uma fotografia de cerca de cerca de 1896[8] atesta a presença de um último andar em estilo neogótico, recuado em relação à fachada. Este piso foi demolido e reconstruído em 1966, e novamente em 1978, com projeto do arquiteto João Braula Reis.[9]
Michela Degortes
[1] AHTC, DC 1397 (1771) Decima da Cidade, Freguesia de Santa Catarina. Arruamentos, fl. 53, nº 205. A designação Rua do Secretário mantém-se nos livros das décimas consultados entre 1765 e 1815, ano em que aparece a toponímia travessa da Condessa do Rio. Ao longo desta baliza temporal, o edifício em questão está registado como propriedade do conde de Bobadela, ou dos seus herdeiros, encontrando-se arrendado.
[2] «Esta travessa da Condessa do Rio deve o seu nome a D. Antónia Maria de Sá Barreto, condessa do Rio grande por seu casamento com Lopo Furtado de Mendonça; morou nesta Rua, onde faleceu com 90 anos em 20 de agosto de 1759. O seu palácio julgo ter sido este, n 1 a 11 da travessa, 2 a 4 da Rua dos Ferreiros, hoje pertencente a D. José Mateus de Mendia» Araújo, 1939, p. 73).
[3] ANTT, Registos Paroquiais, Santa Catarina, Registo de Òbitos, lv. 10 – o (1752-1768), f. 98. «Em vinte de Agosto de mil setecentos e cincoenta e nove faleceo de repente sem sacramentos na Rua do Sol desta freguesia Dona Antónia Maria Francisca de Sá, Condeça do Rio. A Ex.ma D. Antª Mª F.ca de Sá, condeça do Rio Grande. Testamento».
[4] Com morada atual na Travessa da Condessa do Rio 3 a 11.
[5] ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês de D. José, liv. 17, f. 405v. 17 de novembro de 1764, Carta de padrão e Tença.
[6] AHTC, DC 1587. Decima da Cidade, Freguesia de Santa Catarina, ano 1831. 279, nº 1-2 da trav. da Condessa do Rio) e 278, nº22 da rua Ferreiros a Santa Catarina, «propriedade de João Maria D’Abreu pelo foro do Exmo. conde de Bobadella».
[7] AML, Obra 8448. Em 2023 o edifício é registado como propriedade de Rita Mendia Araujo.
[8] https://arquivomunicipal3.cm-lisboa.pt/X-arqWEB/ (consultado 2025-10-21). AML, Obra 8448, Código de Referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/FAN/003008
[9] AML, Obra 8448. 2548/DMPGU/OB/1978. As obras de 1966, embargadas pela Câmara Municipal de Lisboa, tinham sido inclusive denunciadas pelos proprietários do prédio na trav. da Condessa do Rio 2-2A, fronteiro a este.
BIBLIOGRAFIA
Fontes
Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC):
Livros da décima da cidade de Lisboa (DC), Freguesia de Santa Catarina: DC 5927 (1769); DC 1479 (1793); DC 1545 (1815); DC 1587 (1831).
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT):
Feitos Findos, Registo Geral de Testamentos, liv. 272, f. 62. Testamento de Antónia Maria Francisca de Sá (1759).
Registos Paroquiais, Santa Catarina, Registo de Òbitos, lv. 10 – o, f. 98. Disponível em https://sites.nosportugueses.pt/pt/bairroalto/paroquiais/2799/santa-catarina (2026-07-1)
Arquivo Municipal de Lisboa (AML):
Obra nº 8448 (Travessa da Condessa do Rio 1 a 1F, rua dos Ferreiros 2 e 4).
Biblioteca Nacional de Portugal (BNL)
FAVA, Duarte José – Carta Topográfica da Cidade de Lisboa Comprehendida entre Barreiras: desde a Ribeira de Alcântara até ao Convento de Santa Apolónia, c. 1807.
Cota: D-153-R
Referências Bibliográficas
ARAÚJO, Norberto de – Peregrinações em Lisboa, Vol. XIII, Lisboa, 1939.
SANTANA, Francisco, SUCENA, Eduardo (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, 1994.
SILVA, Augusto Vieira da. “Uma vista panorâmica de Lisboa dos fins do seculo XVIII” in Elucidário Nobiliárquico, Vol. II, X (1929), pp. 324-331.