Palácio Baltazar Brás da Silveira

SOBRE O EDIFÍCIO

Na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, em segundo plano e parcialmente escondida por trás da cerca do convento das Albertas, é visível a cobertura de um imóvel que dá o nome à rua que o torneia, a Travessa de D. Brás. A sua existência está ligada à figura de D. Brás Baltazar da Silveira (1674–1751), capitão de infantaria e governador da Capitania de São Paulo e Minas Gerais, e aos seus descendentes.

D. Brás Baltazar da Silveira nasceu em Lisboa, filho de D. Luís Baltazar da Silveira, descendente dos Lobos, estirpe com origens nobiliárquicas antiquas, e de D. Luísa Bernarda da Lima. A brilhante carreira militar, na qual se distinguiu pela coragem, valeu a D. Brás Baltazar da Silveira a nomeação, em 1712, para governador da Capitania de São Paulo e Minas Gerais, cargo que lhe permitiu acumular considerável fortuna no Brasil. Em 1718, regressou a Lisboa, onde veio a casar duas vezes: a primeira, em 1719, com D. Joana Vicência de Menezes, com quem teve três filhas[1]; a segunda, em 1732, com D. Maria Caetana de Távora, filha dos condes de Povolide, com quem teve seis filhas. Em 1737, tornou-se herdeiro do património da família, após a morte de ambos os pais. Nessa altura, D. Brás Baltazar da Silveira tinha acumulado vários títulos – cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo e senhor de São Cosmado, na comarca de Lamego, entre outros – e vivia na opulência. Investiu parte da sua liquidez na aquisição de terras – em Alcochete, Gondomar, Benavente, Santarém e Sintra, entre outros locais – e de cerca de vinte e cinco prédios urbanos em Lisboa. A isto somavam-se a sua residência numa quinta do Campo Grande, que tinha adquirido «em 1724 por execução de uma dívida do visconde de Asseca» (Miranda, 2006, p. 115), e a casa dos seus pais, entre o Rossio e a Feira das Bestas.

Face a um património imobiliário tão vasto, é difícil saber se D. Brás Baltazar da Silveira chegou a morar, efetivamente, na residência localizada no gaveto entre a rua de São Francisco de Paula (atual rua Presidente Arriaga) e a travessa D. Brás. Todavia, a proximidade desse imóvel em relação ao palácio Alvor, então residência dos Távora, tem sido considerada como uma das circunstâncias relacionadas com os casamentos[2] de duas das suas filhas, D. Luísa Francisca Antónia da Silveira e D. Maria Inácia da Silveira, com D. Nuno Gaspar de Távora e Lorena (1705–1789) (Matos, 1994, p. 22). Sabe-se que, a partir dos anos 1770 – na altura da realização da Vista ANBA –, nas casas da Travessa de D. Brás passou a residir um dos seus netos, D. Brás José Baltazar Piedade de Silveira (1747–1806). Com efeito, a morada é registada nas Décimas da cidade de 1770 como «Propriedade de D. Braz José Balthazar da Silveira, que consta de Palacio avaliado (…) em 400#000reis»[3], mantendo-se a mesma informação nos anos 1790 e seguintes. No que toca ao nome da rua, a primeira referência à toponímia «Travessa de D. Brás» é de 1796 (Miranda, 2006, p. 117, n. 40).

Não se encontraram, até agora, registos relativos à construção e à origem do «casarão de D. Brás» (Matos, 1994, p. 20) na rua Direita de São Francisco de Paula. Em 1717, vários terrenos nessa área foram adquiridos com vista à construção do hospício de São Francisco de Paula e respetiva igreja, por ordem de D. João V. O envolvimento neste processo de D. António Luís de Sousa, 2.º marquês das Minas (Lourenço et al., 2016), tio materno de D. Brás Baltazar da Silveira, poderá indiciar que a família tivesse terrenos e propriedades nessa zona da cidade.

O edifício manteve-se na posse dos descendentes da família ao longo do século XIX, como demonstra o registo de obras[4] realizadas, em 1883, pela viscondessa de Roboredo, casada com D. Alexandre da Silveira e Lorena, 12.º marquês das Minas (1847–1903). Em 1924, o edifício passou à posse de Maria Branca Richetti, casada com Vicente de Oliveira, visconde de Tojal[5].

Ao longo dos séculos XX e XXI, o edifício foi alvo de obras, tendo sido acrescentado um andar, como se pode deduzir da comparação com a imagem captada na Vista ANBA, que evidencia uma diferente configuração da cobertura.

                                                                                Michela Degortes


[1] D. Brás Baltazar de Silveira casou uma primeira vez no Brasil, em 1715, com Maria Antónia de Melo, de uma família abastada de São Paulo. Desta união, que não foi reconhecida por ter sido celebrada sem autorização régia, nasceu, já em Lisboa, em 1718, Luís Tomé da Silveira (Faria, 1895).

[2] Em 1745, D. Luísa Francisca Antónia da Silveira casou com D. Nuno Gaspar de Távora e Lorena, com quem teve dois filhos, D. Brás Baltazar da Piedade da Silveira e Lorena e D. Joana de Távora. Morreu em 1749. Depois de enviuvar, D. Nuno Gaspar casou, em 1753, com a cunhada, D. Maria Inácia da Silveira, com quem teve dois filhos, D. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena, Conde de Sarzedas, e D. Francisca da Silveira e Lorena, marquesa de Pombal.  

[3]AHTC, DC 5936, f. 23 v nº96, «Propriedade de D. Braz José Balthazar da Silveira que consta de Palacio avaliado como consta no arruamento a f.18 em 400.000 Reis; AHTC DC 6009, ano de 1794, Livro 1, f. 23 nº 88 Propriedade de Braz da Silveira avaliada como consta no arruamento f. 21 em 300.000Reis».

[4] AML, Obra nº 13875. “Reedificação que a Viscondessa do Roboredo pretende fazer na frente da cocheira na travessa de Dom Brás, n.º 3 a 5. Assinado por Rosa Araújo”.

[5] AML, Livro de Notas nº118A, f.52v a 55v.


BIBLIOGRAFIA

Fontes

Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC):

Livros da décima da cidade de Lisboa (DC), Freguesia de Santos, Arruamentos. DC 5936, ano de 1770, e DC 6009, ano de 1794, Livro 1.

Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa (AML):

Obra nº 13875.

Livro de Notas nº118A, f.52v a 55v.

Referências Bibliográficas

CARDOSO, V. J. Correia Paiva de Freitas. O Arquivo da Casa das Mouras: estudo orgânico e sua representação através do modelo sistémico (Relatório final 2º Ciclo de Estudos em História e Património). Universidade do Porto, 2013.

GAYO, Felgueiras – “Nobiliário de famílias de Portugal”. Barcelos, Agostinho de Azevedo Meirelles e Domingos de Araujo Affonso, 1938-1941. Tomo XVII, p. 179-18.

LOURENÇO, T. Borges, MÉGRE, Rita, SILVA, Hélia – “Obras mais palacianas que Sacra. História, arquitetura e (nova) imagem urbana do Convento de São Francisco de Paula em Lisboa nos séculos XVIII e XIX”. RHA – Revista de História de Arte, nº5/2016, pp. 294-307.

MATOS, José Sarmento. Uma casa na Lapa, Lisboa: Quetzal, 1994.

MIRANDA, Tiago dos Reis – “D. Brás Baltasar da Silveira: na vizinhança dos Grandes”. Revista do Arquivo Público Mineiro. Nova Série, Ano XLII, n.º 2 (julho-dezembro de 2006), p. 106-117

Internet

Silveira, Brás da (1747-1806) Disponível em  https://inventarq.fcsh.unl.pt/index.php/silveira-bras-da-1747-1806 (consultado 2025-10-10)

FARIA, Antonio de Portugal de – Apontamentos genalogicos sobre a familia Portugal da Silveira, Typografia Portugueza, 1895. Disponível em Robarts – University of Toronto, Apontamentos genealogicos sobre a familia Portugal da Silveira (Consultado 2025-10-10)

D. Brás Baltazar da Piedade da Silveira e Lorena. Disponível em Geneall [Em linha]. http://geneall.net/pt/nome/21877/d-bras-baltazar-da-piedade-da-silveira-e-lorena/ (Consultado 2025-10-10).


LOCALIZAÇÃO


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