SOBRE O EDIFÍCIO
O Palácio dos Condes de Alvor, também conhecido por Palácio Alvor-Pombal, ou simplesmente Palácio Alvor, instala atualmente o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Foi mandado construir, por D. Francisco de Távora, 1.º conde de Alvor (1646-1710), após o seu regresso da Índia (1686), onde fora vice-rei. Começado a erguer por volta de 1698, sobre umas casas pertencentes ao Mosteiro de Santos, confinava a poente com a igreja do Convento das Albertas, que lhe servia de capela, e tinha um pequeno jardim, com vista para o Tejo. No rol de confessados da freguesia de Santos-o-Velho (1699), surgem justamente designadas como “Casas do Conde de Alvor” [1], que se encontram representadas no “Grande Panorama de Lisboa”. Já na vista da Academia Nacional das Belas Artes (ANBA), a fachada sul do Palácio Alvor é representada com rigor, conferindo ao edifício uma dimensão considerável no tecido urbano. No extremo nascente, destaca-se o corpo tripartido com uma varanda de três arcadas, que quebra o ritmo das janelas de sacada do piso nobre. Ao longo da frente ribeirinha na zona de Santos, são visíveis, no desenho da ANBA, outras varandas semelhantes — no Palácio do Visconde de Asseca e no Convento de Nossa Senhora dos Remédios — que se destacam como elementos de abertura que permitiam aproveitar o ar fresco do rio, e contemplá-lo.
No lado norte, a frontaria horizontal, de dois pisos, é pontuada por janelas de peitoril no térreo e de sacada no nobre, dividida por pilastras e quebrada por dois portais com janelas sobrepostas. Estes abrem para um amplo vestíbulo que abrigava os visitantes do Palácio e permitia às carruagens entrar por um e sair pelo outro, uma solução pioneira em Portugal. Do projeto inicial, sobrevivem dois tetos pintados em perspetiva, do artista florentino Vincenzo Bacherelli (ativo em Portugal de 1701 a 1718), sendo os seus únicos trabalhos profanos que ainda existem (apesar de a parte central ter sido substituída por clarabóias, quando o Palácio foi adaptado a museu). Originalmente, todos os tetos da mesma ala teriam pinturas semelhantes.
Após a morte do fundador (1710), o Palácio é alugado e comprado diversas vezes, passando por várias campanhas de obras. Em 1744, é comprado pelo escritor brasileiro Matias Aires Ramos da Silva de Eça (1705-1763), que ali terá composto a sua mais importante obra filosófica, Reflexões sobre as Vaidades dos Homens. Em 1762 é alugado a Daniel Gildemeester, cônsul holandês em Lisboa e contratador de diamantes, que consegue a penhora do Palácio e comprá-lo em nome de Paulo de Carvalho de Mendonça (presidente do Senado da Câmara de Lisboa, Inquisidor Geral e irmão do Marquês de Pombal). Contudo, o cônsul permaneceu no Palácio, mesmo quando ele foi herdado pelo Marquês de Pombal. À época, o edifício encontrava-se em mau estado, tinha falta de acomodações, poucas salas habitáveis e cada casa tinha um telhado independente (cobertura caraterística dos séculos XVI e XVII), o que provocava infiltrações. Gildemeester procede a importantes obras e decorações (1774-1775), existindo ainda três tetos com estuques artísticos ao gosto rococó, em duas salas e na escadaria, e os portais decorados com as armas dos Carvalho (os da frontaria e o de acesso ao salão nobre), provavelmente do artista italiano Giovanni Grossi. Efetivamente, no livro das décimas da cidade da freguesia de Santos de 1767, o edifício é descrito como “propriedade do Ex.mo Marquês de Pombal, que consta do Palácio arrendado em hum conto e duzentos mil ao Cônsul da Holanda” [2], sendo que a referência a Gildemeester desaparece a partir de 1793, ano em que este faleceu [3].
Por volta dessa epoca, o 2.º Marquês de Pombal instala-se no Palácio, já sem inquilinos, e ali vive até partir com a família real para o Rio de Janeiro (1807). Por sua morte, herda o título e bens da Casa Pombal o seu irmão segundo que, curiosamente, era casado com uma bisneta do 1.º Conde de Alvor. Ambos vêm a falecer no Palácio. Ali casa o 4.º Marquês de Pombal e nasce o filho que lhe sucede no título. Será este quem arrenda o Palácio (1850) à imperatriz do Brasil D. Amélia Augusta de Leuchtenberg (1812-73), 2ª mulher de D. Pedro IV, que, já viúva, viera para Portugal, com a filha, a Princesa D. Maria Amélia. Após a morte desta, a imperatriz encerra-se no Palácio, onde vem a falecer.
Em 1879 a Academia de Belas Artes de Lisboa, arrenda o Palácio, para instalar um futuro museu nacional. Apesar da escolha do edifício ser muito criticada na época, é ali organizada a Exposição Retrospetiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola (1882), cujo enorme sucesso espoleta a compra do Palácio pelo Governo (1883) e a abertura do Museu Nacional de Belas Artes (1884), antecessor do MNAA. O edifício virá a ser intervencionado diversas vezes, sobretudo na grande campanha de obras de 1937 a 1945, quando lhe é anexado um corpo novo a poente e a nascente, prolongado, de forma quase impercetível.
Henrique Martins
Atualização: Michela Degortes
Como citar: Henrique MARTINS, “Palácio Alvor – Pombal” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
[1] Arquivo da Igreja de Santos-o-Velho (AIS), Rol de confessados da freguesia de Santos-o-Velho (1699)
[2] Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC), Livros das Décimas da Cidade de Lisboa (DC), DC 5927,Freguesia de Santos, Arruamentos do ano de 1767, f. 351 e DC 6009, Freguesia de Santos, Arruamentos do ano de 1794, Livro 1, f.75v.
[3] Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Conselho da Fazenda, Justificações do Reino, Letra J, mç. 17, n.º 4, Autos de justificação de D. Joana Gildmeester, viúva de Daniel Henrique Gildmeester
BIBLIOGRAFIA
ENNES, Ernesto, O Dr. Matias Aires Ramos da Silva Eça e o Palácio dos Condes de Alvor à Janelas Verdes (MNAA. 1744-1763). Separata do vol. II de Ethnos, revista do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, Lisboa, 1940.
HENRIQUES, Ana de Castro, Museu Nacional de Arte Antiga. Roteiro, [s. l.], IPM / Edições ASA, 2003.
Ilusionismos. Os Tetos Pintados do Palácio Alvor. Catálogo da exposição, Lisboa, MNAA, 2013.
LEANDRO, Sandra, «Palácio dos condes de Alvor / Museu Nacional de Arte Antiga (ou das Janelas Verdes)» in ALMEIDA, Álvaro Duarte de e BELO, Duarte, Portugal Património. Guia-Inventário, vol. VII: Lisboa, [s. l.], Círculo de Leitores, 2006, p. 292.
MATOS, José Sarmento de, «Alvor, palácio» in PEREIRA, José Fernandes (dir.) e PEREIRA, Paulo (coord.), Dicionário da Arte Barroca em Portugal, Lisboa, Presença, 1989, p. 28.
PINTO, Augusto Cardoso, Notas para a História do Palácio das Janelas Verdes. Separata do Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, vols. I e II, fasc. 3, 5 e 8, Lisboa, [s.n.], 1943.
TELLES, João Bernardo Galvão, «Da Rua Formosa à Rua do Alecrim: um passeio pelas residências lisboetas dos Marqueses de Pombal. 1669-1999», Olisipo. Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, II série, nº 10 (especial), out. 1999, pp. 54-65.
Internet:
«Edifício» / «História» (Site do Museu Nacional de Arte Antiga): http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/pt-PT/edificio/historia/ContentDetail.aspx?id=385
MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho, Estuques Decorativos, Principia, 2009 (excerto em http://espacoememoria.blogspot.pt/2011/08/giovanni-grossi-e-os-estuques-de-oeiras.html, visualizado a 26.1.2013).
NOÉ, Paula e outros, «Convento de Santo Alberto / Palácio Alvor / Museu Nacional de Arte Antiga», sítio do Sistema de Informação para o Património Arquitetónico: http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3153