SOBRE O EDIFÍCIO
Na frente ribeirinha, situada no actual Largo do Conde Barão, 48-57, tornejando para a Rua das Gaivotas, 1-3, observa-se uma grande construção ameada que corresponde ao Palácio Almada-Carvalhais. A sua génese remonta a cerca de 1545 e sofreu sucessivas transformações, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, que lhe conferiram o semblante que hoje conhecemos. A fachada principal do palácio, que abria directamente para a praia e para o rio, composta por três corpos diferenciados, apresenta uma curiosa assimetria, produto das sucessivas transformações que o edifício original quinhentista foi conhecendo ao longo dos séculos.
Foi mandado construir, cerca de 1545, por Rui Fernandes de Almada (datas desconhecidas), banqueiro e feitor da Flandres ao tempo de D. Manuel e embaixador de D. João III em França. Este monarca, em 1533, mandou passar Brazão de Armas de Almadas, embora com diferença destes no timbre que no lugar da águia passa a ter uma cruzeta. Seu filho Fernão Rodrigues de Almada (c.1550 – ?) será Provedor da Casa da Índia. E seu neto, Cristovão de Almada (c. 1570 – ?), será senhor da vila de Carvalhais, Ílhavo e Verdemilho. Mais tarde, em 1826, a um seu descendente, D. José Maria de Almada Castro Noronha da Silveira Lobo, (1779 + 1854) será concedido o título de 1º conde de Carvalhais cuja filha, D. Joaquina José de Almada (1798 – 1833) casa com o 8º conde de São Vicente, Manuel José Carlos da Cunha da Silveira e Lorena (1807 – 1835).
Da construção primitiva quinhentista subsistem vários elementos arquitectónicos, destacando-se ao nível da fachada, entre dois corpos mais recentes, uma torre de cantaria que terá sido ameada com os merlões coroados por pirâmides, patente na sua representação sobredimensionada no Grande Panorama de Lisboa em Azulejos. Nela se rasga um grande portal que leva ao interior do imóvel. Rematado por um arco de volta perfeita, cuja parte redonda terá sido entaipada de cantaria, em obras pós-terramoto, recebendo vão de janela de sacada, encontra-se sobrepujado pela pedra de armas dos Almadas, com escudo apresentando duas aguietas separadas por banda carregada de duas cruzes florenciadas e vazias com diferença no canto superior, indicando transmissão por via materna. Na sua frente deverá ter existido um cais e por aqui se faria o acesso ao palácio para quem vinha pelo rio.
A poente, um corpo avançado trifacetado de três pisos, encosta, unindo, ao palácio dos Condes-Barões de Alvito. Foi construído no século XVII, ao que tudo indica por Cristóvão de Almada, senhor de Carvalhais (1632 – 1713), cuja filha Inês Margarida José de Lancastre (c.1670 – 1748) casou em 1692, na freguesia de Santos-o-Velho, com o vizinho herdeiro Alvito, D. Vasco Lobo, 2º conde de Oriola e 9º barão do Alvito (c. 1640 – 1705). A tardoz deste corpo e prolongando-se para dentro da propriedade vizinha dos Alvito foi construída uma curiosa estrutura paralelepipédica, autónoma, que terá funcionado como casa de fresco e espelho de água no topo, à cota do 1º andar. Aqui se recolhiam as águas pluviais. Parte da metade correspondente à propriedade em análise foi ocupada com um barracão da oficina da empresa Fotomecânica instalada no edifício.
A nascente, um corpo regular igualmente de três pisos, em cujos 2º e 3º andares se rasgam janelas de sacada com varandas gradeadas de ferro forjado, sendo o desenho do último – o andar nobre – mais rico, para onde abrem os dois grandes salões de aparato. Parte da edificação primitiva, este corpo sofreu sucessivas transformações, sobretudo na segunda metade do século XVIII, não porque o Terramoto de 1755 o tivesse danificado grandemente, mas ao favorecer a sua renovação. Na origem o piso térreo não teria existido enquanto tal, até porque, frente ao rio, ficaria na zona facilmente inundável por eventuais cheias, pelo que deverá ter sido apenas um paredão de cantaria, sem qualquer vão, sobre o qual se erguia a habitação nobre.
Atravessando, em rampa, um túnel com três abóbadas de aresta nervuradas com pedras de fecho (a primeira encontra-se escondida por construção posterior), sem qualquer função estrutural e separadas por arcos de cantaria de volta perfeita, acedia-se, à direita, através de um arco abatido, enquadrado por dois arcos de volta perfeita, ao pátio quinhentista. Este espaço aberto rectangular, em torno do qual a casa se organiza, seguindo o modelo dos palácios italianos, apresenta um requintado piso térreo formado por uma sucessão de arcos abatidos – à excepção dos dois arcos de volta perfeita referidos – que repousam sobre colunas de delicados capitéis lavrados com simbólica ligada à Morte e a aparições demoníacas – caveiras, cabeças, anjos de asas deformadas – entre elementos fitomórficos. Infelizmente a galeria norte encontra-se tapada pelo que resta da empresa Casa dos Asfaltos. Sobre este piso, mais dois andares fenestrados se elevam – sendo que o primeiro apresenta janelas de soleira com guardas de ferro forjado contidas no plano da fachada.
No lado oposto da entrada, a nascente, a partir da parte interna da galeria, sobe a escadaria nobre do palácio, de cantaria, que bifurca num primeiro patamar. As paredes, de há décadas pintadas de branco, apresentavam-se decoradas por pinturas murais em trompe l’oeil de que é possível ver uma parte no topo do 1º lanço à direita que leva à ala sul. Aqui, uma nova galeria, que poderá ter sido originalmente aberta ao pátio, dá acesso às melhores câmaras de aparato do palácio, um grande salão e uma sala de música, onde restam dois tectos de masseira estucados e pintados com motivos rococó. No piso inferior, também virados a sul, outros salões de aparato com tectos de madeira, planos, decorados por pintura. Tudo fruto da campanha de obras e restauro pós-Terramoto.
O alçado tardoz, aberto ao jardim, hoje pouco legível dada a sobreposição da estrutura metálica de uma garagem, esconde salões e câmaras de grande pé direito, actualmente despidos de ornamentos, abandonados e em rápido processo de degradação. Nessa fachada sobressai um portal maneirista cujo desenho se repete no muro nascente, ao qual encosta o quarteirão oitocentista a poente da rua das Gaivotas que se ergueu sobre as estruturas abobadadas do século XVI – XVII, ainda hoje visíveis, de uma correnteza de anexos (armazéns e/ou cavalariças) do palácio. Também nas fachadas tardoz de dois dos edifícios que abrem para a Rua do Poço dos Negros se encontram portais maneiristas idênticos, revelando outros anexos do palácio. Seria por aqui que, possivelmente, em Quinhentos se acedia por via terrestre ao edifício, dado que a entrada pela cenográfica fachada principal para o rio se faria por barco.
Ao longo dos séculos sucessivos, o Palácio Almada Carvalhais foi alvo de transformações que se encontram patentes nas suas representações pós-terramoto. No Desenho do Museu Nacional de Arte Antiga, o palácio surge parcialmente oculto pelo edifício do armazém da Casa da Índia, estando identificado com o número 5. Já na Vista da Academia Nacional de Belas-Artes observa-se uma clara correspondência com o edifício no seu estado atual. Em 1767, data próxima da realização destes desenhos, o imóvel surge registado nas décimas da cidade como o «palácio em que está a Tribuna da Caza da Índia, e suas pertenças, arrendado tudo em dois contos e quatrocentos mil réis». Em 1782, estaria arrendado «em quinhentos mil reis ao Ministro de Nápoles» — possivelmente Salvatore Monteperto, príncipe de Raffadali.
Em meados do século XIX, então propriedade dos Condes de S. Vicente, familiares dos Almada-Carvalhais, o palácio foi arrendado a estabelecimentos de ensino, com destaque para o internato Colégio Europeu, já aí a funcionar em 1866, enquanto que estabelecimentos de comércio vário se instalavam no piso térreo virado ao largo e à Rua das Gaivotas.
Com o aterro da Boavista e a desregrada industrialização e proletarização subsequente, a área perde o seu carácter nobre, assumindo progressivamente a imagem de decadência que ainda hoje persiste. Estabelecida no edifício em 1884, onde desde 1870 tinha funcionado a casa editorial de David Corazzi, a nova proprietária do imóvel, a Companhia Nacional Editora, começava seis anos depois, a ocupar o jardim com barracões, hangares para oficinas, construídos ao longo do muro que separava os jardins dos dois palácios. Entretanto outros equipamentos instalam-se no edifício, caso do animatógrafo Salão Edison que, aberto nos começos de 1919, teve uma breve existência, ou, por exemplo, uma tipografia, a Ottosgráfica Lda., que vai ocupar, desde 1923, com um barracão toda a banda direita do pátio renascentista. Entretanto, um ano antes, em 1922, a rampa de acesso pelo vão principal sofreu grandes alterações, tendo sido prolongada, através da cozinha do palácio, cujas paredes são rasgadas por dois amplos vãos de volta perfeita, formando uma passagem com duas abóbadas de aresta revestidas pelos azulejos setecentistas da cozinha. Também o declive do pavimento é atenuado para facilitar o acesso aos automóveis que passariam a recolher à Garagem Conde Barão, uma estrutura de ferro construída então no jardim (desde a década de 50 do século XX, ocupado pela Garagem Lucas). Sobre o primeiro vão, antecedendo a passagem através da desparecida cozinha, é colocado um registo de azulejos neo-rococó representando S. Cristóvão, padroeiro dos automobilistas.
No 2º andar instala-se, entre 1939 e 2005, o Casa Pia Atlético Clube (Ateneu Casapiano) que no ano da sua instalação mandou demolir a parede, (substituída por uma viga de ferro) que separava os salões nobre e de música, concebendo, assim, um amplo espaço aberto, mantendo, contudo, os tectos de masseira originais. Na ala oposta, a norte, num piso superior junto à cobertura, instalou-se a Biblioteca-Museu Luz Soriano legada àquela instituição. A Casa Pia subalugou o salão duplo em 1995 ao então novel clube de música e dança cabo-verdianas B’leza, que aí funcionou até 2007.
Entretanto, no piso térreo sob essa ala, onde existiram estabelecimentos comerciais, em 1959 surge um grande café, aberto para o Largo do Conde Barão nº 51-55, com esplanada, cuja vivência foi destruída nos anos 80 do século passado quando aí se instalou uma sucursal do Banco Totta & Açores (actual Banco Santander Totta). No corpo oposto, Largo Conde Barão, 49, em 1987 instalou-se a Loja do Banho.
António Miranda
Atualização: Michela Degortes
Como citar: António MIRANDA, “Palácio Almada Carvalhais” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017. Atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
FONTES
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