Palácio Alcáçovas

SOBRE O EDIFÍCIO

Localizado na antiga Rua da Cruz, renomeada em rua da Cruz dos Poiais, pelo edital de 1 de Setembro de 1859, dado existirem várias outras vias com a mesma denominação, o actual Palácio dos Condes das Alcáçovas é uma construção áulica atarracada, de grande simplicidade formal e decorativa, dentro da arquitectura chã nacional seiscentista. Apresenta uma longa e monótona fachada assimétrica, enquadrada por cunhais de cantaria aparelhada, composta apenas por um piso térreo que, dada a inclinação, terá sido concebido como um embasamento semi-enterrado onde se rasgam alguns vãos de porta e janelas de áreas de serviço e oficinas, e andar nobre, claramente marcado pela presença de 13 vãos de sacada, com lintéis coroados por cornija rectilínea e varandas com guardas de ferro forjado de nós, cujas bacias se integram no friso de cantaria que destaca o piso e em cujo alinhamento se rasgou, já no século XX, um portal armoriado. Cornija e beirado de telha de canudo rematam a composição. Na fachada sul, repetem-se sete janelas do andar nobre que abrem sobre um edifício de rendimento, mais baixo, que em tempos esteve anexado ao palácio.

Na fachada norte, aberta para o antigo pátio lateral, rasgam-se, concentrados à direita, dois níveis de janelas e uma porta de serviço, dado ter sido entaipado, em 1944, o vão primitivo de acesso à portaria do edifício. Para além do pátio lateral mantém ainda jardim a tardoz, o que resta da antiga quinta que descia até junto do Convento de S. Bento da Saúde, para onde abre uma fachada escalonada, rasgada a poente, com 16 janelas de sacada.

Ao nível do interior, subsistem ainda em algumas salas silhares de azulejos de finais do século XVII ou inícios do seguinte, e paredes pintadas com paisagens oitocentistas, entre outros elementos decorativos de várias épocas.

O núcleo primitivo remontará ao final do século XVI. Segundo Norberto Araújo, “em 1605 Luísa Franca, casada com Mateus Ferreira, comprou neste sítio, do lado da «Rua da Rochela» – assim se denominava – uma morada de casas quinhentistas; em 1622, Cristóvão Ferreira, talvez filho de Mateus, adquiriu a Mateus Jorge e sua mulher Andreza Pinheira outra morada antiga de casas, contígua à primeira citada. Mais tarde Diogo Passanha Falcão (que foi pai de D. Sebastião de Andrade Pessanha, arcebispo de Goa) tornou-se senhor das duas moradas, do lado Sul, do actual Palácio dos Condes das Alcáçovas.

A Norte daquelas casas referidas existia um assento de outras casas nobres que pertenciam, em 1648, a Garcia Roiz de Távora, com frente a Nascente para a Rua da Portaria de Jesus – pois assim se denominava a, depois, chamada Rua da Cruz -, casas que confinavam com terras do Morgado da Cotovia, Francisco Soares. Em situação correspondiam as casas nobres de Roiz de Távora à metade Norte do actual Palácio (…).

Em 1681 a casa nobre, citada acima em primeiro lugar, e então ainda não acabada, foi vendida pelo dito Diogo Passanha Falcão a Aires de Saldanha Meneses e Sousa, fidalgo e militar do conselho de El-Rei, que exerceu os cargos de governador do Algarve, da Madeira e de Angola, (p. 31) filho de Luís Saldanha e de D. Violante de Mendonça, 4º neto de Diogo Lopes de Saldanha, fundador no reinado de D. Afonso V do ramo português dos Saldanhas, e casado com D. Luísa Inês de Távora, filha dos Morgados de Oliveira.

O mesmo Aires de Saldanha, logo em 1684, comprou ao citado Garcia Roiz de Távora a casa nobre que este possuía contígua à que fora de Passanha Falcão, e nesse mesmo ano institui o Morgado dos Saldanhas, de Jesus, cuja cabeça do vínculo ficou sendo o palácio unificado, para o que Aires Saldanha fez derrubar as duas casas nobres adquiridas, reconstruindo um único e enorme edifício. Disfrutava o palácio de terrenos de pomar e olival (…)”. (1)

Estes terrenos rústicos constituíram, com os jardins, a «Quintinha do Saldanha» e foram sendo aforados, loteados e edificados ao longo dos tempos, sobrando apenas parte do pátio lateral, a norte, e um jardim a tardoz. A actual Rua da Quintinha, ainda em 1817 e 1820 se chamava da Quintinha do Saldanha. (2) Chamada anteriormente a “quinta defronte dos frades” [de S. Bento da Saúde], foi um antigo prazo que se denominava, nos séculos XVI e XVII, “das Donas” ou «Vale das Donas».

Com origem, então, nas duas casas nobres adquiridas por Aires de Saldanha Meneses e Sousa, o palácio torna-se cabeça do morgado dos Saldanhas de Jesus, que este fidalgo e sua mulher, D. Luísa Inês de Távora, instituíram em 8 de Fevereiro de 1684, por escritura dotal “na nota de Domingos de Barros e depois declarada por outra em 13 de Fevereiro de 1687 na nota de Pedro de Andrade Maciel” (3). Instituíram, assim, um morgado de todos os seus bens, fazendo cabeça do dito o Palácio da Rua da Cruz, defronte da portaria velha do Convento de Nossa Senhora de Jesus, com obrigação do apelido de Saldanha no representante e possuidor do dito morgado.

Por morte dos instituidores este passou ao filho primogénito José de Saldanha de Menezes e Sousa (1685 – ?) e deste a seu neto e bisneto. Todavia, tendo este último, José António Bento de Menezes de Saldanha e Sousa (1738-?), casado com Leonor Josefa Francisca Antónia de Saldanha, 5ª condessa da Ponte (1745 – ?), morrido sem filhos, o morgado foi herdado por outro neto dos instituidores, D. José de Lancastre Saldanha (1717 – 1793), filho de Inês Josefa de Távora. Este casaria com D. Leonor Henriques de Faria Pereira, 11ª senhora das Alcáçovas (1723 – ?). Por ter a sua residência, na Rua de Santa Catarina, ruído com o Terramoto de 1755, D. José de Lancastre e Saldanha foi habitar o palácio da Rua da Cruz onde só desabou um terraço, “então em construção, que deitava para o jardim e que matou uma escrava preta.” (4)

Será o seu trineto, D. Francisco de Sales Henriques Faria Saldanha Vasconcelos e Lancastre (1811 – 1840), que, por decreto de D. Maria II, datado de 01-12-1834, receberá o título de 1º conde das Alcáçovas. Sem descendência, será seu irmão D. Caetano de Sales Henriques Pereira de Faria Saldanha Vasconcelos de Lancastre (1819 – 1894), o 2º conde das Alcáçovas. Abolidos os morgados, com a morte deste último, o palácio ficou na posse de seu filho D. Alexandre Henriques Pereira de Faria Saldanha e Lancastre (1853 – 1917), 1º conde de Cuba, que legou em testamento a propriedade a seu sobrinho e representante dos instituidores, D. Caetano Henriques Pereira de Faria Saldanha e Lancastre (1877 – 1960), 4º conde das Alcáçovas.

Um incêndio em 1921, que destrói uma pequena parte no interior do imóvel, leva a um pedido do 4º conde das Alcáçovas, morador na Rua Eugénio dos Santos, a pedir licença para reconstruir a parte afectada. Este incêndio, todavia, deixou em risco a estrutura abobadada do piso térreo, ocupada por uma oficina de tipografia, com entrada pelo nº 103, por causa dos entulhos deixados e obras sequentes, só concluídas em 1943. Propriedade de D. Caetano Henriques de Mendia Saldanha de Lancastre (1936), 6º conde das Alcáçovas, que aí à data não habita, sendo sua tia, D. Maria Francisca Borges Coutinho de Medeiros Sousa Dias da Câmara (1860-1945), condessa de Cuba, usufrutuária da parte norte do palácio, e na parte sul Manuel de Saldanha da Gama Ferrão de Castelo-Branco (1874-1945), 9º conde da Ponte e oficial da Marinha.

D. Caetano Henriques de Lencastre, em 1944 então a residir na casa da família, apresenta um projecto de reintegração da porta [nº 111] no local primitivo (sic), sendo suprimido o vão aberto que dava acesso à portaria, em arco alteado, que, durante séculos, rasgado no alçado lateral norte dentro do pátio nobre foi a entrada do palácio, substituído nessa data por pequena janela. O novo portal armoriado pretende reproduzir um vão maneirista rematado por frontão interrompido onde se insere a pedra de armas dos Henriques de Lancastre. Apresenta escudo partido, a primeira de Lancastre e a segunda dos Henriques com dois leões afrontados, sobre uma alcáçova com um torreão central, sobrepujado por coroa de duque e pelo timbre de Lancastre com pelicano que alimenta os filhos. Ao fundo do pátio, cuja actual entrada, muro e portão com o nº 111A, datam de 1953, erguera-se uma garagem e moradia para o motorista, construída em 1949.

Em 1983, Valentim de Carvalho, Comércio e Indústria SARL, e EMI, Ltd, constituem uma sociedade denominada Valentim de Carvalho Emimúsica Discos Lda, e adquirem a fracção norte do Palácio das Alcáçovas para aí a instalarem. Em parte desse espaço, o editor discográfico Rui Manuel Valentim Barbosa de Carvalho (1931 – 2013) com sua mulher, a galerista Maria Nobre Franco, fundaram a Galeria Valentim de Carvalho, que funcionou de 1984 até 1995, um dos poucos espaços da capital então dedicados à arte contemporânea. A outra ala do edifício manteve-se como residência da família que lhe deu nome.

António Miranda

Como citar: António MIRANDA, “Palácio Alcáçovas” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026. 

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(1)  ARAÚJO, Norberto de – Inventario de Lisboa. Fascículo 9. Palácio Alcáçovas, pp. 31-32

(2)  in Gazeta de Lisboa, nº 118, de 19 de Maio de 1820. Gazeta nº 27, de 31 de Janeiro de 1817. Nota de Matos Sequeira de CASTILHO, Júlio de – Lisboa Antiga: O Bairro Alto. Lisboa: vol, 3. p. 311

(3)  MARTINS, Rocha – Lisboa de ontem e de hoje: As colinas de Lisboa. 1ª parte, p. 168

(4)  Idem, p. 169 


BIBLIOGRAFIA

Fontes

PROCESSO OBRA nº 18492. Arquivo Municipal de Lisboa. Arquivo Intermédio. Câmara Municipal de Lisboa.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Norberto de – Inventario de Lisboa. Fascículo 9. Palácio Alcáçovas. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1944 – 1956, pp. 31 – 34

 – Peregrinações em Lisboa. Vol. 5. Lisboa: Veja, 1992, p. 44

CASTILHO, Júlio de – Lisboa Antiga: O Bairro Alto. Lisboa: vol, 3. 3ª edição revista e anotada por Gustavo de Matos Sequeira. Lisboa: Oficinas Gráficas da CML, 1956, pp. 314-315

MARTINS, Rocha – Lisboa de ontem e de hoje: As colinas de Lisboa. 1ª parte. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1945, p. 167-170

Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa. Tomo 2. Lisboa: Junta Distrital de Lisboa, 1975, p. 68.

Morreu o empresário e editor discográfico Rui Valentim de Carvalho. Jornal de Negócios [em linha]. 11 Novembro 2013. [Consult. 5 Janeiro 2015]. Disponível em https://www.jornaldenegocios.pt/economia/cultura/detalhe/morreu_o_empresario_e_editor_discografico_rui_valentim_de_carvalho


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