SOBRE O EDIFÍCIO
A história do noviciado da Cotovia, localizado numa antiga quinta de Campolide, designada de Quinta do Monte Olivete, esteve ligada à ação dos padres da Companhia de Jesus, radicando no ano de 1587, quando o Padre Cláudio Aquaviva, Geral desse instituto religioso, autoriza a sua fundação.
Dois anos após essa data é assinado instrumento notarial entre os jesuítas e Fernão Teles de Meneses, filho de Brás Teles de Meneses e de D. Catarina de Brito, e D. Maria de Noronha, filha de D. Francisco de Faro e de D. Mícia de Albuquerque, onde os mesmos legam 20.000 cruzados para a feitura de obras, e ficam com a patente de fundadores dessa casa religiosa.
1607 é o ano que sabemos ter estado ligado à construção do complexo o arquiteto régio Baltasar Álvares, sendo o padre João Delgado o responsável pelas obras. Em 1613 esta obra é novamente financiada, desta vez por um mercador flamengo, que dá 30.000 cruzados para a continuação da obra, e, em 1616, é finalmente levado o Santíssimo Sacramento para o templo, sendo celebrada a primeira missa.
O conjunto caracterizado por apresentar uma frontaria para Sul, com igreja central, possuía ainda dois corpos, com janelas, onde se distribuíam cubículos e a restante fábrica da casa. A igreja, que albergou na capela-mor o monumento fúnebre dos fundadores, uma arca tumular com epitáfio, assente sobre dois elefantes de mármore policromo, tinha ainda uma tribuna, na parte da Epístola, onde os noviços podiam assistir à celebração, também ficou conhecida por ostentar um painel com a representação da Assunção da Virgem, ladeado pelas imagens de Santo Inácio, São Francisco de Borja, São Francisco Xavier e São Estanislau Kostka.
O espaço, organizado em cruz latina, possuía dois altares colaterais, consagrados a Nossa Senhora da Graça e a Santo Cristo. Nos topos dos braços do transepto existiam portas de acesso ao pátio da Portaria. Na nave figuravam ainda três capelas: do lado do Evangelho as de São Luís Gonzaga, de São Francisco Xavier e dos Santos Mártires do Japão; do lado da Epístola as capelas de São João Baptista, de São Francisco Regis e de São Pedro e São Paulo.
O noviciado possuía ainda no piso térreo um dormitório perto da zona da capela-mor da igreja, um pátio com quatro lanços, um locutório e uma casa da portaria. No piso superior localizavam-se, por sua vez, vários cubículos, outro pátio, o refeitório, várias oficinas e a portaria do carro. Destacavam-se ainda duas cisternas, que supriam a falta de água que existia no local.
Um dado quase contemporâneo ao da execução do “Grande panorama de Lisboa” (1698-99) é a notícia de um incêndio que deflagrou em 1694, destruindo grande parte do interior do noviciado. O volume arquitetónico do edifício ter-se-á mantido intacto (VEIGA, 2009: 23).
O terramoto de 1 de Novembro de 1755 arruinou parte do conjunto e, com a expulsão da Companhia de Jesus de Portugal, em 1759, os bens dessa instituição religiosa foram confiscados. Na sequência destes acontecimentos, em 1761, o Noviciado da Cotovia foi destinado à instalação do Colégio dos Nobres, um estabelecimento de ensino vocacionado para a formação da aristocracia, criado por iniciativa do secretário de Estado de D. José, Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal. Nos Estatutos desta instituição destaca-se a determinação do marquês de Pombal de conservar sob o seu «inteiro domínio» o ensino até então gerido pelos jesuítas. Em 1764, o Colégio dos Nobres abriu as portas no edifício reabilitado segundo projeto de Carlos Mardel, contando com 24 alunos.
A representação do edifício na Vista da Academia Nacional de Belas Artes corresponde, portanto, a esta fase. O edifício, com igreja central e corpos laterais simétricos, emerge no perfil urbano pela sua imponência, articulando-se lateralmente com o Picadeiro Real, cujo telhado de duas águas em ângulo agudo é facilmente reconhecível. O Picadeiro, construído em 1763 e sede da escola de picaria do colégio, é, efetivamente, o único vestígio do edifício na sua versão original, destruído pelos incêndios que o atingiram, respetivamente, em 1834 e em 1978.
Em 1837, o Colégio dos Nobres foi abolido e no edifício foi instalada a Escola Politécnica, que aí permaneceu até 1911, sendo substituída, a partir desse ano, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Atualmente, o conjunto é sede do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUNHAC) e do Jardim Botânico.
Maria João Pereira Coutinho
Como citar: Maria João Pereira COUTINHO, “Noviciado da Cotovia – Colégio dos Nobres” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, (PTDC/EAT-EAT/099160/2008), 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
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Internet
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