SOBRE O EDIFÍCIO
O regresso a Portugal da ordem religiosa dos Mínimos, fundada no século XV por São Francisco de Paula, deve-se à chegada a Lisboa, em 1710, do frade espanhol Ascênsio Vaqueiro. Em 1717, D. João V autorizou-o a fundar um hospício na cidade, ordenando que fossem cedidos para a sua construção uns terrenos na Pampulha, em frente do Convento de São João de Deus. Do edificado inicial, de 1719, não restam vestígios, tendo o conjunto, a partir de 1743, sido alvo de obras, que incluíram a demolição da ermida original. Em 1752, a aquisição de casas contíguas ao edifício permitiu a ampliação do hospício, sendo este elevado a convento no ano seguinte, a 30 de junho de 1753, graças à intercessão da rainha D. Mariana Vitória (1718-1781). Com efeito, a partir desse ano, a soberana passou a estar diretamente envolvida na vida da comunidade religiosa, promovendo a realização de obras e a construção do novo templo.
Apesar de surgir em zona relativamente periférica – o eixo urbano entre a Madragoa e o Calvário, onde a presença significativa de edifícios religiosos remonta à Idade Média –, o convento de São Francisco de Paula «seguiu o modo de implantação da maioria das casas religiosas do casco antigo da cidade, sucessivamente feito à custa da compra, absorção e transformação de edifícios pré-existentes» (Lourenço et al., ano, p. 297). Assim, ao longo do processo de obras, e face ao crescimento da ordem dos Mínimos no país, o convento veio a ser ampliado através da aquisição de casas e terrenos, pelo que o conjunto composto pelo hospício, igreja, noviciado e casas anexas chegou a ocupar um inteiro quarteirão. As obras foram iniciadas em 1754 e concluídas bastante rapidamente, em cerca de uma década – tendo sofrido uma interrupção na sequência do terramoto de 1755 e retomado o seu andamento em agosto de 1756 –, contando com a presença de artistas e arquitetos entre os mais relevantes então ativos no contexto português, como Inácio de Oliveira Bernardes, Vieira Lusitano, Giovanni Berardi e Gian Giacomo Azzolini.
A Igreja de São Francisco de Paula, bem visível na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, foi benzida em julho de 1765, encontrando-se as obras próximas da conclusão e os trabalhos da fachada ainda in fieri. As duas esbeltas torres laterais e o frontão têm o risco do cenógrafo italiano Gian Giacomo Azzolini, que terá liderado as obras a partir de 1766 – ano em que regressou a Lisboa, vindo de Coimbra, onde dirigira as obras do Seminário –, intervindo na fachada severa, delimitada por três corpos verticais, idealizada por Oliveira Bernardes (Serrão, 1994, p.800). O interior da igreja é de uma nave única, com coro adjacente e seis capelas laterais decoradas com talha dourada e painéis pintados sobre tela, seguindo o esquema pombalino. Destaca-se, na capela-mor, o túmulo da rainha D. Mariana Vitória, da escola de Machado de Castro.
Na Vista ANBA, a fachada da Igreja de São Francisco de Paula, um dos mais interessantes exemplos de edifícios sacros construídos durante o reinado de D. José, surge finalizada, com as duas torres já construídas, apontando para que as obras lideradas por Azzolini tenham sido concluídas entre 1767 e 1769, data da realização da vista panorâmica.
Michela Degortes
Como citar: Michela DEGORTES, “Igreja do Convento de São Francisco de Paula” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
LOURENÇO, Tiago Borges, MÉGRE, Rita, SILVA, Hélia – “Obras mais Palacianas que Sacras. História, arquitetura e (nova) imagem urbana do Convento de São Francisco de Paula de Lisboa nos séculos XVIII e XIX”. In RHA – 05 (2008), pp. 294 – 307.
SANTOS, M Teresa Sequeira – A igreja de São Francisco de Paula: o encomendante, os artistas e a obra (dissertação de Mestrado em História da Arte), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1996.
SERRÃO, Vítor – “S. Francisco de Paula”, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa: s.n, 1994, p. 800.
Internet
Convento e Igreja de São Francisco de Paula – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106460721, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, disponível em http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2621 (consultado 2026-03-15)