SOBRE O EDIFÍCIO
O local de devoção consagrado aos mártires Máxima, Veríssimo e Júlia, três irmãos que foram perseguidos pelo imperador Diocleciano em 303, e cujos corpos foram dar à denominada “praia de Santos”, onde foram sepultados, terá surgido algum tempo depois desse episódio. O facto de terem sido flagelados pela sua crença religiosa, bem como a particularidade dos seus restos mortais exalarem um perfume particular, levou à sua veneração no local em questão, bem como à fixação do topónimo de Santos.
Em 1192 funda-se um recolhimento para os cavaleiros da Ordem de Santiago e dois anos depois D. Sancho I faz uma doação perpétua do local à Ordem de Santiago para se poder acolher as comendadeiras (viúvas de membros e parentes femininas em regime de clausura). A 5 de Setembro de 1490, essa comunidade abandona o local para passar a residir num novo edifício que se construía na zona oriental da cidade, mais tarde designado por mosteiro de “Santos-o-Novo”, por oposição a “Santos-o-Velho”.
Com essa alteração, o cardeal-rei D. Henrique (1512-1580) institui paróquia nesse local de devoção, reedificando-se o templo durante o reinado de D. Sebastião (1554-1578), que ordena que se faça uma visitação ao local a expensas dos fregueses em 1574. Em alvará régio de 2 de Março de 1602, declara-se a necessidade de empreender uma nova igreja, e nos anos subsequentes D. Luís de Lencastre, 2.º Comendador-mor de Avis, toma sobre si a responsabilidade de ser o “juiz das obras de Santos”, com o claro intuito de adquirir os terrenos e palácio de Santos, pertença das recém-deslocadas comendadeiras.
Em 1609 a parte estrutural do edifício já se encontrava concluída, segundo o traçado do arquitecto régio e mestre-de-obras da cidade Teodósio de Frias, e lançava-se nessa data concurso para alguns dos seus acabamentos internos. Em 1646, os mestres pedreiro António Dias, e carpinteiro Pedro Luís, eram remunerados pela feitura da sacristia, e no ano de 1672 eram rasgadas seis frestas na nave que completariam o processo de remodelação iniciado no princípio do século. O ano de 1695 é um dos mais significativos no que à feição exterior do local diz respeito, pois é nessa data que se considera fazer um número significativo de arranjos interiores (como a obra do púlpito que ainda hoje se observa no local), bem como as torres sineiras, com desenho adjudicado ao arquitecto régio João Antunes (1642-1712) e possivelmente concretizadas pelo mestre pedreiro Gonçalo da Costa. Essa campanha de obras, que previu ainda no ano de 1705 o rasgamento de uma porta, impunha a feição barroca que esse templo apresentou.
Este enquadramento permite-nos compreender que a representação da igreja de Santos no painel do “Grande panorama de Lisboa” é anterior a esta campanha de obras, não querendo no entanto com isto dizer que a execução do painel tenha sido anterior a 1696. Todavia, o que encontramos numa observação atenta da representação do templo é a justaposição de dois corpos paralelepipédicos com orientação poente-nascente, apresentando o mais pequeno (a oriente) um escalonamento correspondente à zona da capela-mor. Campanário a norte e demarcação da torreão a sul, possivelmente indicador do arranque da torre que ainda hoje se observa. Quanto a essa marcação do torreão sul, nada nos indica que tenha a ver com a campanha de obras de Antunes, pois é plausível a existência dessa marcação de torreões, desde a obra de Teodósio de Frias, sobretudo por se tratar de uma igreja pertencente a uma ordem militar.
Desconhecendo se a representação desta igreja no “Grande panorama de Lisboa” em azulejos resulta nesta zona de uma qualquer fonte gráfica, caso seja, esta é seguramente anterior à campanha de obras descrita. Cotejando esta representação com aquela sobremaneira conhecida pertencente ao Museu Nacional de Arte Antiga, outrora do espólio do Noviciado da Cotovia, da autoria de Pinhão de Matos, deparamo-nos curiosamente com a representação da igreja de Santos, quase encostada ao palácio homónimo com seu jardim, ao modo setecentista, como se verifica pela presença de uma torre a Sul. Essa característica, que corrobora a teoria de vários especialistas sobre o facto da obra pictórica ter sido realizada no séc. XVIII, apesar de retratar a Partida de S. Francisco Xavier para a Índia, denota uma Lisboa parcialmente mimetizada da de finais de Seiscentos e inícios de Setecentos fundida com aquela idealizada à data de tal partida.
A ausência da representação de edificações nessa parte da cidade justifica a nossa afirmação. O terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou danos substanciais, nomeadamente a queda da abóbada do coro. O que restava do cenóbio, que nas palavras de Gonzaga Pereira era grandioso, foi totalmente destruído pelo anterior sismo. Nas décadas subsequentes gastam-se cerca de 900.000 réis em obras de reconstrução. Em 1821 edifica-se a capela dos Santos Mártires, na galilé, no local onde já existira uma outra e se crê estar a sepultura dos três mártires.
Em 1840 reedifica-se a capela-mor da igreja, em terreno cedido pelos marqueses de Abrantes, que ficam com acesso às tribunas laterais da mesma através do seu palácio (contíguo à igreja). Nas décadas de sessenta, setenta e oitenta de Oitocentos, são empreendidas novas campanhas de obras.
Maria João Pereira Coutinho
BIBLIOGRAFIA
Fontes manuscritas e iconográficas:
ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Cartório Notarial de Lisboa, N.º 11 (actual n.º 3), Cx. 91, L.º 364, fls. 45-46, Cx. 95, L.º 393, fls. 14 v.º-16 v.º; ARQUIVO DA IGREJA PAROQUIAL DE SANTOS-O-VELHO, Cartório da Paróquia de Santos-o-Velho, Tombo, 1694-1696.
Fontes impressas:
ATAÍDE, M. Maia (dir. de), Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Tomo III, Lisboa, Junta Distrital de Lisboa, 1988.
CAEIRO, Baltazar Matos, Os Conventos de Lisboa, [Sacavém], Distri,1989.
CARVALHO, Ayres de, D. João V e a Arte do Seu Tempo, Vol. II, Lisboa, Edição do Autor 1962.
CORTEZ, Maria do Carmo, “Mosteiro de Santos-o-Novo”, in Francisco SANTANA e Eduardo SUCENA, (dir. de), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, Carlos Quintas & Associados, 1994.
COUTINHO, Maria João Pereira, A Produção Portuguesa de Obras de Embutidos de Pedraria Policroma (1670-1720), (Tese de Doutoramento em História (Especialidade em Arte, Património e Restauro) apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Lisboa, 2010, (Texto Policopiado)
Igreja Paroquial de Santos-o-Velho / Igreja Santos Veríssimo[…], (Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106370253), Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (http://www.monumentos.pt, consultada em Julho de 2014)
LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho, Portugal Antigo e Moderno, Vol. II, Lisboa, Mattos Moreira & Companhia, 1874.
MANGUCCI, António Celso, História da Igreja de Santos-o-Novo, Lisboa (Texto Policopiado);
MATOS, Alfredo, PORTUGAL, Fernando, Lisboa em 1758. Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1974.
PEREIRA, Luís Gonzaga, Monumentos Sacros de Lisboa, Lisboa, Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1927.
SERRÃO, Vítor, O Barroco, História da Arte em Portugal, Lisboa, Editorial Presença, 2003.
VITERBO, Sousa, Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portuguezes ou a serviço de Portugal, Vol. III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1904.