Igreja de Santa Isabel

SOBRE O EDIFÍCIO

A freguesia de Santa Isabel foi criada em 1741, no contexto da expansão da área urbana da capital para além da Cerca Fernandina, registando-se um aumento da população na zona do Rato como consequência da instalação da Fábrica das Sedas (1738). Esta nova circunscrição paroquial resultou da absorção de territórios pertencentes às freguesias de Santos‑o‑Velho, Santa Catarina, S. José e S. Sebastião da Pedreira, abrangendo uma vasta área geográfica que incluía Campolide, as Amoreiras e a Cotovia, estendendo‑se até às Necessidades. A igreja paroquial da freguesia de Santa Isabel foi criada no mesmo ano por iniciativa do Cardeal‑Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, e ficou inicialmente instalada na desaparecida ermida de Santo Ambrósio, então localizada na atual rua de D. Diniz.

Em 1742 teve início a construção da Igreja de Santa Isabel, sob o patrocínio de D. Tomás de Almeida e segundo risco do capitão Rodrigo Franco, arquiteto da Mitra Patriarcal. Contudo, a 6 de janeiro de 1754, a mesa da Irmandade de Santa Isabel, «ávida de seguir novos gostos» (Serrão, 2020), abandonou a traça arquitetónica de linguagem tardo‑barroca proposta por Franco, confiando o projeto da igreja ao arquiteto Carlos Mardel (1695–1763). Um dos grandes protagonistas da reconstrução da Baixa após o terramoto de 1755, e já então envolvido nas obras do Aqueduto das Águas Livres e do complexo monumental do reservatório da Mãe d’Água, Mardel era igualmente morador da nova freguesia: a sua habitação ficava adjacente à futura igreja, estando localizada ao número 2 da atual rua Saraiva Carvalho (Rossa, 1998, p. 57).  

A obra da paróquia prolongou-se vários anos, embora o edifício em construção não tenha sofrido danos com o terramoto de 1755. Com efeito, nas Memórias Paroquiais redigidas em março de 1758, o pároco Felisberto Leitão de Carvalho referia que a paróquia continuava a funcionar na Ermida de Santo Ambrósio, enquanto a nova igreja estava ainda em construção, com as paredes edificadas até a “primeira simalha”. Apenas em 1763 se registam os primeiros batizados realizados na nova igreja. Nesse mesmo ano falecia Carlos Mardel, que viria a ser sepultado na Igreja de Santa Isabel. Na Planta da Freguesia de 1764 são assinalados os edifícios de culto existentes no território de Santa Isabel, incluindo a própria igreja, bem como as ermidas de Santo Ambrósio e de Nossa Senhora dos Prazeres e os conventos das Trinas ao Rato, de Nossa Senhora da Estrela e de S. Bento da Saúde.

Data igualmente de 1764 aquela que é considerada «a primeira grande empreitada de pintura sacra realizada na cidade a seguir ao terramoto» (Serrão, 2020), juntando na nova igreja os mais importantes pintores então ativos em Lisboa: Inácio de Oliveira Bernardes, Domingos Rosa, Bruno José do Vale, Roque Vicente, Bernard Foît e Pellegrino Parodi, a par dos emergentes Manuel Joaquim da Rocha e Pedro Alexandrino. Este conjunto de artistas veio definir o aparato decorativo da Igreja de Santa Isabel de acordo com as tendências estéticas mais relevantes do reinado de D. José I, desde a vertente tardo barroca de Roque Vicente e Domingos Rosa, ao gosto italiano de Pellegrino Parodi e Inácio Oliveira Bernardes, passando pelo rococó do francês Bernard Foît.

São dessa época dois importantes testemunhos iconográficos da Igreja de Santa Isabel: o Desenho do Museu Nacional de Arte Antiga (segunda metade sec. XVIII), onde o templo é visível na margem esquerda da folha, identificado com o número 1, e a Vista da Academia Nacional de Belas‑Artes (c. 1769). Em ambos os desenhos, a fachada da igreja surge inacabada, faltando‑lhe a torre oriental, situação que se mantinha ainda em 1840, como atesta o desenho de Luís Gonzaga Pereira na Descripção dos Monumentos Sacros de Lisboa…,. Com efeito, a construção da torre oriental terá ocorrido posteriormente a esta data, sendo que a fachada da igreja estaria concluída apenas em 1875. Já no século XX, a igreja foi objeto de obras de remodelação conduzidas pelos arquitetos António Ferreira Leal e Diogo Lino Pimentel.

Em 2013, a igreja foi alvo de importantes obras de restauro, encomendadas pelo padre José Manuel de Almeida ao ateliê de João Appleton (Appleton e Domingos arquitetos). O projeto visava a reabilitação funcional do edifício, a resolução de problemas estruturais, o restauro das pinturas existentes nas paredes da nave e das capelas, bem como a execução de uma nova pintura para o teto – pintado a cinzento em 1960 -, encomendada ao artista Michael Biberstein (1948-2013). A concretização desta obra envolveu diversas personalidades e contou com a consultoria artística de Julião Sarmento e Delfim Sardo. Biberstein ocultou o «sufocante manto cinzento» do teto com um céu aberto de 800 metros quadrados, pintado sobre a nave única da igreja. Executada sobre um teto suspenso a partir da abóbada pré-existente, a pintura foi realizada com tinta acrílica, aplicada com recurso a compressores e uso pontual de pincel. 

A Igreja de Santa Isabel, incluindo o adro, as dependências anexas e o património móvel integrado, encontra-se atualmente em vias de classificação nacional, na sequência do requerimento apresentado em novembro de 2025.

Michela Degortes

Como citar: Michela DEGORTES, “Igreja de Santa Isabel” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.


BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Norberto de – Peregrinações em Lisboa, Lisboa, s.d., vol. III, livro XI, p. 64-65.

MARQUES, João Luís – “Modernity and contemporaneity in dialogue with the heritage. The life of two worshipspaces in Lisbon Santa Isabel’s church and Rato’s chapel”, Actas de Arquitectura Religiosa Contemporánea 7/2020, p. 158-169.

MATOS, Alfredo, PORTUGAL, Fernando – Lisboa em 1758. Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1974.

PEREIRA, Luís Gonzaga – Monumentos Sacros de Lisboa em 1833, Lisboa: Biblioteca Nacional, 1927.

ROSSA, Walter – Além da Baixa – Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa, 1998.

SEQUEIRA, Gustavo de Matos – Depois do terramoto. Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Lisboa: Academia das Ciências, 1933.

SERRÃO Vítor – “As telas da igreja de Santa Isabel, joia artística da Lisboa de setecentos”, Público 21 de setembro de 2020.

SILVA, Manuel Ferreira – Igreja de Santa Isabel, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa:s.n, 1994, p. 843-845.

“Um céu para Santa Isabel”. L+arte 77/2010, pp. 26-27.

Internet

Igreja Paroquial de Santa Isabel – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106300652, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=10524 (consultado a 2026-03-03).

Igreja de Santa Isabel, em Appleton Domingos Arquitectos, ficha do projeto arquitetonico, https://appletondomingos.pt/rehabilitation/igreja-de-santa-isabel/


LOCALIZAÇÃO