SOBRE O EDIFÍCIO
No local designado por Alto de Santa Catarina, Monte ou Pico do Belver, foi fundada uma igreja, a 27 de Maio de 1557, consagrada a Santa Catarina, cuja invocação tinha o nome da rainha D. Catarina de Áustria (1507-1578), mulher de D. João III (1502-1557), sua mecenas. O templo terá sido iniciado em 1559, com traça do arquitecto Afonso Álvares, em chão cedido por herdeiros de Bartolomeu de Andrade, e foi tutelado pela irmandade de Livreiros, instituída em 1480 numa capela da igreja do convento da Trindade, que tinha Santa Catarina por sua padroeira, que o fez crescer ao sabor da devoção dessa confraria e em virtude das esmolas que iam angariando para empreender melhoramentos e modernizar o seu aspecto.
A paróquia foi fundada por escritura a 9 de Outubro de 1557 e as suas funções paroquiais terão começado em 1560. Apesar de desconhecermos a sua aparência com pormenor, sabe-se que no limiar do século XVII foram operadas algumas transformações ao seu aspecto exterior. Segundo pesquisas recentes apurou-se a cronologia de intervenções a nível arquitectónico na igreja supra referida que apontam para finais da centúria de Seiscentos ou inícios de Setecentos.
Documentação do antigo arquivo paroquial da igreja de Santa Catarina revela intervenções na torre sineira datadas de cerca de 1699, pois nesse mesmo ano a 30 de Maio, a irmandade dos livreiros contrata-se com o mestre pedreiro Francisco Gomes para este executar uma torre, segundo o aspecto da que já se encontrava feita.
Se observarmos com atenção a representação da igreja de Santa Catarina de Monte Sinai no “Grande panorama de Lisboa” em azulejos, reparamos que a mesma é desenhada com a referida segunda torre sineira em construção, tal como a documentação do arquivo da igreja confirma para o ano de 1699. Outro documento fundamental para esta questão é o recibo passado pelo mesmo mestre pedreiro com data de 17 de Fevereiro de 1701 à irmandade dos livreiros, no qual se dá por pago da obra que fez na igreja nomeadamente no telhado, nas naves, na torre e cimalha no frontispício.
Podemos, assim, concluir através das informações que esta documentação nos faculta que a intervenção do mestre pedreiro Francisco Gomes na segunda torre sineira da igreja de Santa Catarina de Monte Sinai estaria concluída em Fevereiro de 1701. O desenho que acompanha a descrição de Luís Gonzaga Pereira apresenta curiosamente a marcação de duas torres, estando só a do lado direito completa.
A igreja de Santa Catarina ficou substancialmente arruinada aquando do terramoto de 1 de Novembro de 1755, sendo reconstruída por volta de 1757. O edificio então reedificado, de aspeto mais singelo em comparação com a igreja original, surge claramente representado na Vista de Lisboa da Academia das Belas Artes, onde se destaca a existência de uma única torre sineira completamente construída. No Desenho do Museu Nacional de Arte Antiga, de datação anterior, a torre sineira parece estar apenas parcialmente edificada, podendo eventualmente ter sido representada durante a fase da reconstrução da igreja, que neste desenho é identificada com o número 14.
Em 1835 voltou a ser assolada, desta vez por um incêndio, e a freguesia foi novamente transferida para o convento do Santíssimo Sacramento dos Religiosos Paulistas da Serra de Ossa. Em 1840, apesar das ruinas da igreja estarem incluídas numa lista de bens nacionais para venda, a irmandade de Santa Catarina consegue, por via de uma Portaria do Ministério da Fazenda, que estas lhe sejam devolvidas.
Alguns tempos depois, a mesma irmandade pede uma licença para poder vender o que restava desse templo, acabando por se concretizar essa transacção com José Pedro Collares Pereira, industrial da fundição de metais e serralheria, que mandou terraplanar o terreno no ano de 1861. O palacete alí erigido por José Pedro Collares Pereira foi adquirido, mais tarde, por Alfredo da Silva, proprietário e fundador da Companhia União Fabril. Desde 1990 o edifício pertence a Associação das Farmácias Portuguesas e é atualmente sede do Museu da Farmácia.
Maria João Pereira Coutinho
Como citar: Maria João Pereira COUTINHO, “Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai (ou dos Livreiros)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
Fontes manuscritas e iconográficas:
ARQUIVO HISTÓRICO DO PATRIARCADO, Inventário da Irmandade do Santíssimo Sacramento (1729); Irmandade de Santa Catarina, Mç. 5; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1658 a 1659; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1665; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1665-1666; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1667; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1670-1671; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1684-1685; Livro de Receitas e Despesas da Irmandade dos Livreiros de 1689-1690; Rois e recibos diversos das casas pertencentes às irmandades, e despesas feitas com a Igreja (1661-1799), Mç. 6, avulsos.
Fontes impressas:
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Livro V, Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1938
CALADO, Maria, FERREIRA, Vítor Matias, Lisboa. Freguesia de Santa Catarina (Bairro Alto), Lisboa, Contexto Editora, 1992
CORTEZ, Maria do Carmo, “ALTO DE ST.ª CATARINA”, in Francisco SANTANA e Eduardo SUCENA, (dir. de), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, Carlos Quintas & Associados, 1994
COUTINHO, Maria João Pereira, A Produção Portuguesa de Obras de Embutidos de Pedraria Policroma (1670-1720), (Tese de Doutoramento em História (Especialidade em Arte, Património e Restauro) apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Lisboa, 2010 (Texto Policopiado)
FLOR, Pedro, COUTINHO, Maria João Pereira, FERREIRA, Sílvia e FLOR, Susana Varela, “Grande panorama de Lisboa em azulejo – novos contributos para a fixação da data, encomenda e autoria”, in Revista de História da Arte, nº 11, Lisboa, Instituto de História da Arte / FCSH-NOVA, 2014, pp. 87-107.
MARTINS, Rocha – Lisboa de ontem e de hoje: As colinas de Lisboa. 1ª parte. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1945, p. 89-91.
PEREIRA, Luís Gonzaga, Monumentos Sacros de Lisboa, Lisboa, Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1927.
Internet:
“Palacete de Santa Catarina” em https://osultimospalaciosdelisboa.weebly.com/palacete-de-santa-catarina.html (Consultado 2025-10-7)