SOBRE O EDIFÍCIO
A antiga igreja de Nossa Senhora dos Mártires, outrora localizada junto ao convento de São Francisco da Cidade, encontra-se relacionada com a data de 1147 e foi erigida para se colocar uma imagem de Nossa Senhora.
O templo foi restaurado diversas vezes: em 1598, depois em 1710, em 1750 e por fim em 1755, depois de ter sido bastante destruída pelo megassismo de 1 de Novembro de 1755. Nessa altura foi criada uma basílica com a mesma invocação no lugar que ficou conhecido como “Largo das Duas Igrejas”.
Todavia, o templo que importa aqui focar é aquele que figura no “Grande panorama de Lisboa”, ao lado do “Convento de São Francisco da Cidade”, e não o actual, que se encontra implantado junto à Rua Garrett.
Da igreja primitiva, sabe-se que, segundo a vontade da mesa da irmandade do Santíssimo Sacramento, foi reformada nas décadas de sessenta e de oitenta do século XVII, sendo, na última dezena de anos dessa centúria, adornada de finos mármores que, nas palavras de Fr. Apolinário da Conceição, tornaram especialíssimo este templo quer pelo facto de ter sido o primeiro consagrado a esta invocação da Mãe de Deus, quer pelo facto de ter sido o primeiro que se viu guarnecido de mármores embutidos de lavores de distintas cores.
A primeira iniciativa associada a essa intenção de o reformar no século XVII foi aquela que se encontra explicitada no contrato lavrado a 27 de Junho de 1684, onde se agencia o mestre pedreiro Jerónimo Nunes para fazer de novo a capela-mor da dita igreja. O instrumento, extremamente descritivo, refere que este tinha por obrigação, como aliás era prática da época, remover todo o entulho dos desmanchos, bem como edificar telhado mourisco, abóbada guarnecida, arcos com pedraria, obra de frisos e arquitraves, degraus, pavimento de xadrez e aplicar pedraria vermelha e branca no presbitério, bem como ornamentar o conjunto com capitéis da ordem coríntia, conforme o rascunho por ele aprovado.
Fr. Apolinário da Conceição refere ainda que, no ano de 1686, estando no local o mestre canteiro Domingos Gomes, para efectuar medições ao arco da capela-mor, este terá caído de uma altura superior a quarenta e três palmos, ficando de pé com seu compasso na mão, milagre muito aplaudido. O mesmo autor testemunha ainda que foi no dia 13 de Maio de 1692, dia de Nossa Senhora dos Mártires, que a nova capela-mor terá sido inaugurada, deslocando-se ao templo para esse acontecimento D. Pedro II (1648-1706) e D. Maria Sofia de Neuburgo (1666-1699), para o qual contribuíram com uma esmola de 19 mil cruzados.
Entre esta data e o ano de 1710 foram concluídas algumas das capelas laterais, onde se incluía aquela dedicada a S. Miguel e às Almas. A igreja, à data, era de nave única e tinha onze altares. Do lado da Epístola, eram consagrados: o primeiro a São Marçal, o segundo a Nossa Senhora da Graça, o terceiro a São Gonçalo, o quarto a Nossa Senhora da Piedade e o quinto, colateral, a Santa Catarina. Do lado do Evangelho, eram dedicados: o primeiro a Santo António, o segundo a São Brás, o terceiro ao Menino Jesus, o quarto a São Miguel e às Almas e o quinto, também colateral, a Santo Cristo. O décimo-primeiro, o altar-mor, era naturalmente onde se encontrava o orago do templo, Nossa Senhora dos Mártires. Uma extensa descrição do espaço dá-nos ainda importantes contributos, onde se fica a saber que António do Couto (act. 1682-1686) e João Antunes (1643-1712) foram os artífices dessa obra, bem como inúmeros pormenores do interior do espaço.
Uma planta do local, que hoje se conserva na Academia Nacional de Belas-Artes, é outro dos registos que remanescem. O templo foi ainda engrandecido e reformado por outros monarcas, como ocorreu com as campanhas de obras empreendidas em 1749, com o mecenato de D. João V (1689-1750). Durante esta reforma, a terceira, nas palavras de Fr. Apolinário da Conceição, alguns embutidos foram retirados para dar lugar a novas composições de apainelados de pedra, mais modernas e ao gosto do monarca.
A nova obra não iria resistir muito tempo, pois, com o sismo de 1 de Novembro de 1755, o templo padeceu significativamente, como corroboram as Memórias Paroquiais de 1758 e o testemunho do padre Manuel do Portal, referido por Francisco Luís de Sousa, que já menciona a nova obra de pedraria.
Maria João Pereira Coutinho
BIBLIOGRAFIA
Fontes manuscritas e iconográficas:ACADEMIA NACIONAL DE BELAS-ARTES, Cx. 85 A, Gav. 2, Pasta 20, Des. N.º 574; ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Cartório Notarial de Lisboa., N.º 11 (actual n.º 3), Cx. 86, L.º 333, fls. 55 a 56 v.º e L.º 336, fls. 39-40 v.º, 93-95.
Fontes impressas:
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