SOBRE O EDIFÍCIO
A história da igreja de Nossa Senhora do Loreto inicia-se em 1518, quando a comunidade italiana residente em Lisboa diligencia no sentido de se fundar uma igreja com protecção papal, adstrita à basílica de São João de Latrão. Esse intento viu-se concretizado em poucos anos, em 1522, quando o templo abriu as suas portas à comunidade.
Nos anos que se seguiram a irmandade tuteladora da igreja vai adquirindo terrenos contíguos, com vista ao seu engrandecimento e, em 1551, institui-se a paróquia com a invocação de Nossa Senhora do Loreto, no local que à data ainda era referido como uma “capela”, embora já tivesse várias confrarias sediadas no seu interior: de Nossa Senhora do Loreto, do Santíssimo Sacramento, de Santa Catarina e de Santo António.
As grandes obras de remodelação que vão então transformar a capela num templo digno da sua condição vão decorrer a partir de 1577, segundo projecto do arquitecto Filipe Terzi (1520-1597), e vão ser complementadas durante o século XVII com várias peças (umas concebidas e realizadas em Portugal e outras em Itália). Destacam-se aquelas de natureza escultórica encomendadas aos escultores Filippo Parodi e Gian Battista Jacovo, ao pedreiro Giovanni Battista Castello e ao pintor Giovanni Domenico Ponte. Merece igualmente menção um busto da Virgem, atribuível a François Duquesnoy (1594-1643).
No que à arquitectura concerne, sabe-se ainda que interveio no templo o mestre pedreiro Leonardo Jorge, realizando lajeado da igreja, conforme risco de Pedro Nunes Tinoco, por volta de 1630. A 29 de Março de 1651 um incêndio de grandes proporções destrói completamente a igreja, vendo-se a comunidade italiana obrigada a reunir rapidamente meios para a sua reconstrução. Essa significativa campanha de obras, operada entre 1651 e 1661, dirigida pelo arquitecto Marcos de Magalhães envolve artistas portugueses, como Mateus do Couto, que surge a vistoriar as obras da igreja, o pedreiro Gregório Luís, o entalhador Manuel João da Fonseca e João Nunes Tinoco (act. 1652-1689), que, a 9 de Agosto de 1668, risca o retábulo-mor, como se pode constatar, uma vez que no acervo do arquivo da igreja existe uma nota de pagamento a este autor.
O templo é adornado com colunas salomónicas, capitéis e estátuas vindas de Génova, durante toda a década de Setenta de Seiscentos, encontrando-se praticamente pronto na data da sua sagração, em 1676. Uma descrição da igreja dá-nos conta de que esta tinha 64 palmos de altura até à zona da pintura, tendo desta até ao tecto 25 palmos. Tinha de comprido 138 palmos e de largo 76,5, a capela-mor tinha 67 palmos de alto com tribuna onde se expunha o Santíssimo Sacramento e o fundo da capela principal, e capelas colaterais, tinham colunas de mármore verde. Na nave, a cimalha ostentava nichos com estátuas de Apóstolos e Evangelistas em mármore e tinha painéis com molduras de talha dourada com temática mariana.
Entre 1703 e 1706 realiza-se a construção da sacristia e em 1735 são realizadas as imagens de São Pedro e São Paulo pelo escultor italiano Alessandro Tanzi. Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, a igreja é consumida pelas chamas, propagadas a partir de um palácio vizinho. Dessa catástrofe, só sobreviveu a sacristia. A igreja só volta a ser reaberta em 1785, após reconstrução, com projecto atribuído a Joaquim António dos Reis Zuzarte, depois substituído na direcção das obras por José da Costa e Silva e sendo da responsabilidade de Manuel Caetano de Sousa a capela-mor; Em 1860 a Câmara Municipal de Lisboa procede à demolição do adro da igreja e à construção das escadarias que ainda hoje se observam.
Maria João Pereira Coutinho
BIBLIOGRAFIA
Bibliografia
Fontes manuscritas e iconográficas: ARQUIVO ITALIANO DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DO LORETO (LISBOA), L.º 13 de Receitas e Despesas (1667-1668)
Fontes impressas:
ALESSANDRINI, Nunziatella, FLOR, Pedro, ” Indícios, sinais e moradas dos Italianos “estantes” em Lisboa (séc. XVI)”, in ALESSANDRINI, Nunziatella, FLOR, Pedro, RUSSO, Mariagrazia, SABATINI, Gaetano (orgs.), Le nove son tanto buone, che dir non se pò, Lisboa dos Italianos: História e Arte (sécs. XIV-XVIII), Lisboa, Cátedra A. Benveniste, 2013, pp. 103-121.
ALMEIDA, D. Fernando de (dir. de), Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Tomo II, Lisboa, Junta Distrital de Lisboa, 1975.
ATAÍDE, Maia, MECO, José, A Igreja de Nossa Senhora do Loreto, Lisboa, Embaixada de Itália / Instituto Italiano de Cultura, 1986.
CARVALHO, A. Ayres de , D. João V e a Arte do seu Tempo, Vol. II, Lisboa, Edição do Autor, 1962.
COUTINHO, Maria João Pereira, A Produção Portuguesa de Obras de Embutidos de Pedraria Policroma (1670-1720), (Tese de Doutoramento em História (Especialidade em Arte, Património e Restauro) apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Lisboa, 2010 (Texto Policopiado).
FERREIRA, Sílvia, COUTINHO, Maria João Pereira , “Com toda a perfeição na forma que pede a arte: a capela do Santíssimo Sacramento da igreja de São Roque em Lisboa: a obra e os artistas”, in ARTIS n.º 3, Lisboa, Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, 2004, pp. 267-295.
FILIPI, Sergio, La Chiesa Degli Italiani, Cinque secoli di presenza italiana a Lisbona negli archivi della chiesa di Nostra Signora di Loreto, Lisboa, Fábrica da Igreja Italiana Nossa Senhora do Loreto, 2013.
Igreja de Nossa Senhora do Loreto, (Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106270325), Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (http://www.monumentos.pt, consultada em Julho de 2014)
Notícia do Apparato, e Magnificas Disposiçoens, com que forão celebradas as solemnes Exequias de Sua Magestade Fidelissima o muito Augusto Rey de Portugal D. João V na Igreja de Nossa Senhora do Loreto em 14 de Janeiro de 1751 pela Naçam italiana Residente em Lisboa, Lisboa, s. ed., s. d.
SANTA MARIA,Fr. Agostinho de, Santuário Mariano e Historia das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora, Tomo I, Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrão, 1707, pp. 88-89.
SEQUEIRA, Gustavo de Matos, O Carmo e a Trindade, Vol. II, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1939.
SERRÃO, Vítor, A Cripto-História de Arte, Lisboa, Livros Horizonte, 2001; SERRÃO, Vítor “Marcos de Magalhães. Arquitecto e Entalhador do Ciclo da Restauração (1647-1664)”, in Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, N.º 89, Tomo I, 1983, pp. 287-290.
SERRÃO, Vítor, O Barroco, Lisboa, Editorial Presença, 2003.
VALE, Teresa Leonor M., A Importação de Escultura Italiana no Contexto das Relações Artístico-Culturais entre Portugal e Itália no Século XVII, (Dissertação de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto), Porto, 1999, (Texto Policopiado)
VITERBO, Sousa, Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portuguezes ou a serviço de Portugal, Vols. I e II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1904.