SOBRE O EDIFÍCIO
A escolha do local de implantação da Igreja das Chagas em sítio desafogado e com vista para o rio Tejo não terá sido aleatória. A irmandade do Senhor das Chagas era composta por homens do mar, tanto aqueles que navegavam na prestigiada carreira da Índia como daqueles que navegavam em outras carreiras com destino às possessões ultramarinas da época.
O impulsionador desta obra foi o mesmo Frei Diogo de Lisboa, que tinha sido o responsável pela fundação da referida irmandade no convento da Santíssima Trindade. Esta irmandade era constituída exclusivamente por homens do mar da Carreira da Índia e das outras possessões ultramarinas de Portugal à época. Talvez devido ao seu grande prestígio e número de irmãos que detinha, as relações com os frades trinos começaram a degradar-se e surgiu a ideia de se construir uma igreja só dedicada à devoção das Chagas de Cristo. O local mais apetecível para a implantação deste templo foi uma zona sobranceira ao rio Tejo, junto de outro promontório designado do Belver ou Belvedere, local que mais tarde, em 1557, a rainha Dona Catarina, mulher de D. João III, escolheria para erigir a igreja dedicada a Santa Catarina de Monte Sinai.
Em 1542 a igreja estava terminada e a 30 de Novembro desse mesmo ano foi celebrada a 1.ª missa. Frei Diogo de Jesus, continuamente empenhado em conquistar mercês e aprovação eclesiástica para o novo templo, conseguiu que o papa Paulo III emitisse bula confirmando funções paroquiais para a sua igreja, bem como a possibilidade de administrar os sacramentos aos irmãos mareantes, conferindo à igreja o estatuto de paróquia pessoal. Para além destes privilégios concedidos por Paulo III, o mesmo sumo pontífice autoriza também a irmandade a nomear um capelão e a construir junto da igreja, um hospital destinado ao tratamento dos homens feridos e doentes da armada portuguesa.
Segundo os testemunhos históricos, a igreja das Chagas de Cristo não era um edifício monumental, nem apresentava características arquitectónicas que a fizessem sobressair na malha urbana, contudo conta-se que detinha uma enorme riqueza no seu recheio artístico, nomeadamente em alfaias litúrgicas e paramentos.
A confraria detinha uma imagem de Nossa Senhora da Piedade das Chagas de Cristo, a qual era venerada com especial devoção. Esta teria sido trazida por um dos mareantes e irmãos da confraria, de terras da Índia.
Todo o edifício e as suas riquezas interiores desapareceram quase completamente com o megassismo de 1 de Novembro de 1755. Sabe-se que se salvaram apenas algumas peças de prata e umas imagens de santos. Em face da calamidade que assolou a sua igreja e destruiu todo o seu espólio, a irmandade viu-se obrigada a encontrar refúgio e espaço de culto provisório na Quinta Nova, a Sete Rios. Lá terá permanecido até ao mês de Julho de 1756, passando depois para uma capela provisória feita de madeira, a qual mandaram erigir no sítio dos Cardais.
Alguns anos depois, concluída a nova igreja, a irmandade das Chagas de Cristo instalou-se no novo espaço. Com o passar dos anos, o culto das Chagas de Cristo foi perdendo vigor e a irmandade foi decaindo de importância e número de irmãos, sendo que os fracos rendimentos que auferia como consequência desse desinteresse contribuiu igualmente para o fecho de um ciclo.
A igreja das Chagas de Cristo integra o núcleo arquitectónico da Lisboa Pombalina, classificado como Conjunto de Interesse Público.
Sílvia Ferreira
Como citar: Sílvia FERREIRA, “Igreja das Chagas” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.
BIBLIOGRAFIA
Estudos
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Internet
Igreja das Chagas de Cristo, Ficha de inventário do IHRU, N.º de IPA 00015288, em www.monumentos.pt, c