Forte de S. Paulo (ou da Tenência)

SOBRE O EDIFÍCIO

O “Forte de S. Paulo (ou da Tenência)” situava-se justamente perto da igreja de S. Paulo, junto ao rio Tejo, em terrenos onde outrora D. Manuel I mandara fazer umas tercenas. Segundo uma descrição do Arquivo Municipal de Lisboa (em 1864 por ocasião de medições oficiais feitas na venda de um terreno) diz-se que pelo norte confrontava com a rua da Ribeira Nova; pelo sul com terrenos da Câmara; pelo nascente, com casas de Francisco António Vieira, e da Câmara; pelo poente com a Praça de D. Luís. (CASTILHO, 1964: 110-112 e 226).

Apoiado em Castilho, Durval Pires de Lima aceita a datação seiscentista do forte: “Comparticipava da cintura fluvial, construída por ordem de D. Afonso VI, a conselhos do General alemão Conde de Schonnenberg.”. Indica também a ordem dos fortes: o de S. Paulo a nascente da actual Praça de D. Luis, portanto ao sul da Igreja moderna de S. Paulo, onde é o Mercado de 24 de Julho; o dos Remolares, no terreno ao norte da Estação da Sociedade Estoril, no lado ocidental do largo do Cais do Sodré; e o de S. João no próprio Terreiro (LIMA, 1951). Pires de Lima julga que o Forte de S. Paulo entraria no plano de defesa costeira elaborado pelo Eng.º francês Gillot, apresentado ao Príncipe D. Teodósio (1652). O baluarte ou forte de São Paulo (ou da “Tenência”, como também foi conhecido) poderá estar representado a sul da igreja de São Paulo, a qual surge na sua posição anterior ao terramoto de 1755, que corresponde sensivelmente ao local onde está agora a Praça de São Paulo. Esse baluarte ou forte de São Paulo poderá ser ainda do tempo da Restauração, como fica documentado pelas gravuras da cidade de Lisboa de Dirk Stoop (1662).

De acordo com a investigação conduzida por Sara Cruz Ferreira, o Forte de S. Paulo terá conhecido o apogeu (e maior regularidade de uso) entre os anos de 1650-1725, o que testemunha bem a sua relevância militar e marítima para a cidade de Lisboa (FERREIRA, 2015: 215-346 ss). Em 1701, sofreu algumas obras de reestruturação e melhoramento, junto da igreja de S. Paulo, conforme o seguinte documento: “Fiz presente a S. Magestade, que Deus guarde, a carta de V. S. sobre as duvidas que se offereciam a se lançar nas terras que se semeiam, a lama d’esta cidade, e, mandanda S. Magestade ouvir aos engenheiros, lhes pareceu que, andando-se desentulhando as praias, com tanto custo da fazenda real, não era conveniente se tornassem a entulhar, deitando-se-lhe novamente as immundicias, nem que estas se deitassem na corrente do rio, porque seriam de maior prejuizo ; mas que as immundicias do bairro de S. Paulo até à Boa Vista se podem por ora lançar detrás da egreja de S. Paulo, em um meio baluarte que ali se faz de novo.(…)” (OLIVEIRA, 1898: 88).

Este forte surge após o terramoto de 1755 com a designação de “Parque de Artilharia” (1776) e anos mais tarde (1795) ficou na posse dos Serviços da Marinha, voltando mais tarde (1834) a ser novamente parque militar (CASTILHO, 1964: 280) Quando a ideia de construir o Mercado da Ribeira Nova surgiu em 1876, sendo inaugurado em 1882, foi o lugar onde se erguera o Forte de S. Paulo o eleito, uma vez que estava desactivado, desde 1858, por ocasião das obras do aterro da Boavista.

José Manuel Garcia e Pedro Flor

Como citar: José Manuel GARCIA e Pedro FLOR “Forte de S. Paulo ou da Tenência” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017. 


BIBLIOGRAFIA

Fortalezas.org – Roberto Tonera (coord.)

Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil

CASTILHO, Júlio, A Ribeira de Lisboa, vols. IV e V, Lisboa, CML, 3ª ed., 1964.

FERREIRA, Sara Cruz, O Sítio do Forte de S. Paulo: estudo arqueológico da Ribeira Ocidental de Lisboa na época moderna, tese de mestrado apresentada à FCSH/NOVA, 2015.

GARCIA, José Manuel – Lisboa do século XVII “a mais deliciosa terra do Mundo”: imagens e textos nos quatrocentos anos do nascimento do padre António Viera, Catálogo da Exposição, Lisboa, Gabinete de Estudos Olisiponenses / Câmara Municipal de Lisboa, 2008.

LIMA, Durval Pires de,“O Forte de S. Paulo ou da Tenência em 1793”, Revista Olisipo, nº 53, 1951, pp. 12-18.

MOITA, Irisalva – «Marinha de Lisboa: planta topográfica de 1727», Olisipo: boletim do Grupo Amigos de Lisboa, série 2, nº 1, Lisboa, 1994, p. 115-128.

OLIVEIRA, Eduardo Freire de, Elementos Para a História do Município de Lisboa, vol. X, Lisboa, 1898.

PINHA, Luís, Os projectos da defesa de Lisboa: do Maneirismo à Restauração, tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1997.

SANTOS, Cristina Coimbra Próspero, Fortificações da Foz do Tejo, tese de Mestrado apresentada à Universidade Lusíada de Lisboa, 2012.

SILVA, Augusto Vieira da, “Panorama de Lisboa em azulejos existente no Museu Nacional de Arte Antiga” [1932], Dispersos, vol II, Lisboa, 1960, pp. 243-265.


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