SOBRE O EDIFÍCIO
O Convento do Santo Crucifixo ou das Francesinhas como ficou conhecido, foi fundado em 1667, pela rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia. A sua edificação situa-se entre 1667 e 1690 numa época crucial para a afirmação de uma nova dinastia, saída dos confrontos da Guerra da Restauração. As principais campanhas de obras do complexo conventual decorreram durante o reinado de D. Pedro II. A sua primeira mulher e, fundadora do convento, com ligações ao monarca Luís XIV, juntamente com as primeiras freiras de origem francesa, são portadoras de novas influências ao nível do gosto artístico e estético, que marcarão o panorama artístico e cultural dos tempos seguintes, contribuindo para o eclodir do movimento barroco em terras portuguesas de que este complexo era um exemplo.
Na sua construção estiveram envolvidos personagens das mais prestigiadas famílias de arquitetos da época: os arquitetos Mateus do Couto (Sobrinho), o Padre Francisco Tinoco da Silva, e possivelmente João Antunes, a que se juntou um destacado mestre pedreiro Lourenço Gonçalves, todos eles envolvidos nas mais marcantes obras edificadas sob a égide real de então. A este grupo juntaram-se outras figuras das artes da época, nomeadamente o pintor Bento Coelho da Silveira, autor, de entre outras, de um vasto núcleo de pinturas que ornamentavam a igreja conventual e, António de Oliveira Bernardes, autor dos retratos da rainha fundadora e da primeira abadessa do convento Soror Maria de Santo Aleixo.
No século XIX, com a extinção das ordens religiosas inicia-se um período conturbado, sendo parte do edifício destinado a asilo para educação de costureiras e criadas de servir. Após o falecimento da última freira em 1890, o convento entra na posse definitiva do Estado, sendo elaborado o inventário de todos os seus bens. A demolição inicia-se em 1910, prolongando-se até 1935, data em que é reconstituído no local, um bairro da Lisboa Antiga. Em 1949 é implantado o Jardim que ainda hoje observamos no local.
As denominações de Capuchinhas Francesas ou Francesinhas ficaram definitivamente associadas ao Convento do Santo Crucifixo (denominação oficial do cenóbio) e adveio unicamente da origem das freiras fundadoras, não constituindo qualquer ramo ou variação do instituto de religiosas denominado Capuchinhas, ao qual pertenciam as monjas do convento. A primeira pedra da construção da igreja foi lançada a 3 de Maio de 1667. Esta possuía duas entradas, uma que se abria sobre o Caminho Novo, a atual Rua das Francesinhas, mais grandiosa e elaborada. O acesso era feito por uma escadaria de pedra e o vão abria-se em galilé, com pórtico emoldurado de cantaria, inscrito em arco. A porta, encimada e ladeada por pequenas janelas envidraçadas com malheiros em ferro, era sobrepujada com tímpano de cantaria lavrada representando São Francisco dando a regra a Santa Clara, baixo-relevo recolhido no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, apôs a demolição do edifício. A entrada lateral da Igreja, na fachada sobre a Calçada da Estrela, destinava-se ao acesso dos fiéis ao interior do templo, como era costume nos conventos de freiras. O portal de verga reta era coroado por frontão com pináculos e volutas ladeando um pequeno nicho central ou edícula, e encimado por um crucifixo. A igreja, de planta longitudinal e nave única, com cobertura em abóbada de berço, separada por cornija de cantaria, apresentava quatro capelas laterais, integradas em arcos emoldurados a cantaria, com retábulos de talha dourada com as respetivas esculturas sobre peanhas. Possuía frente a frente, de ambos os lados da igreja, dois púlpitos, com base de pedra e balaustrada de ébano, madeira utilizada igualmente na teia, com os balaústres torneados, intercalado com outros, de mármore amarelo com embutidos. Nas paredes laterais abriam-se janelas com os habituais malheiros de ferro, intervaladas por grandes telas emolduradas a magnifica talha dourada. O teto era decorado com pinturas de brutesco, enquanto a parede na qual se inseria o arco triunfal apresentava um revestimento a painéis de azulejos historiados e, ladeando as impostas que suportavam o arco triunfal, nichos, com retábulo de talha com imagens de vulto.
A igreja das Francesinhas inseria-se no modelo típico dos templos femininos da sua época, que Nelson Correia Borges denomina «igreja-caixa, sem transepto e com capelas à face». O claustro era constituído por quatro alas por piso, sustentado por vinte arcos de volta inteira, em estilo dórico, ao nível do piso térreo, sendo as arcadas superiores com arcos de volta abatida e gradeamento em ferro. Na iconografia do Convento das Francesinhas a sua torre / mirante é uma constante, representada por vezes de forma algo exagerada, como no painel da Vista de Lisboa em azulejo.
Uma visão real do conjunto surge na magnifica vista da cidade existente na Academia de Belas Artes e no conjunto de fotografias datadas de cerca de 1910 (do Arquivo Municipal de Lisboa, Arquivo de Fotografia de Lisboa e Biblioteca Nacional), onde observamos uma composição de volumes compactos, com os seus janelões retangulares e pilastras, que conferem ao edifício uma unidade composta por vários panos, uma construção proporcional e lisa. O demolido convento apresentava-se como um exemplar de arquitetura austera, vernácula e típica do modo monacal do tempo Protobarroco, onde aliado a uma arquitetura sem ornamentos murários, se contrapunha um forte impacto cenográfico ao nível dos seus interiores.
Álvaro Parreira Tição
Como citar: Álvaro Parreira TIÇÃO, “Convento do Santo Crucifixo (Francesinhas)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.
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