Convento do Santíssimo Sacramento (S. Paulo da Serra d’Ossa)

SOBRE O EDIFÍCIO

Os padres Paulistas, cuja sede da ordem em Portugal se situava na Serra de Ossa, ao Redondo, província do Alentejo, desde há muito que desejavam fundar um novo convento em Lisboa. A expansão da influência da ordem era primordial e a instalação de uma casa na capital do reino apresentava-se decisiva para esse intento. As diligências para efectivar a fundação de um convento em Lisboa datam de 1646, quando os frades começam a comprar algumas casas no sítio por eles eleito, a Calçada do Combro. A ideia inicial seria construir um edifício de carácter monumental que se impusesse na malha urbana. Para tal, os padres além de adquirem várias casas na zona, dedicaram-se igualmente à compra dos terrenos circundantes. Conseguiram comprar os terrenos necessários a Pedro Álvares Caldas, fidalgo da corte de D. Pedro II, o qual tinha um filho que professava nesse convento, de nome Pedro Álvares Caldas. Este religioso veio a beneficiar mais tarde dos lucros da venda das terras do seu pai, tornando-se, anos volvidos, grande mecenas das obras de recheio artístico desta igreja, nomeadamente do seu altar-mor. A homenagem prestada pela ordem onde professou está fixada no chão da capela-mor na sua sepultura, em cuja inscrição se pode ler: “SEPULTURA QUE A NOSSA RELIGIÃO MANDOU FAZER PARA O NOSSO REVERENDISSIMO PADRE PREGADOR PREZADO FREY PEDRO DA SOLEDADE EX DEFINIDOR DA ORDEM. EM GRATIFICAÇÃO DA OBRA DESTA CAPELLA-MOR QUE FES, ORNOU, E DOUTOU”.

Paralelamente à construção da nova igreja, os religiosos não descuraram o bom andamento da edificação do seu convento. O conjunto edificado, que compreende o edifício conventual e a igreja, fazia jus ao intento primeiro dos padres paulistas e projectava-se na Calçada do Combro com monumentalidade e grandeza.

A autoria do projecto arquitectónico da igreja continua envolta em mistério, avançando alguns historiadores da arquitectura portuguesa, com a possibilidade do projecto ter pertencido a Mateus do Couto, arquitecto régio ao tempo de D. João IV, que era simpatizante desta ordem sua vizinha em Vila Viçosa, ou de João Nunes Tinoco, pois efectivamente participou nas obras de S. Vicente de Fora, a partir de 1641, modelo inspirador, como já referido, da fachada da igreja dos Paulistas.

A atestar o relevo do convento dos padres paulistas no local, a Calçada terá tido, durante um período de tempo, o nome de Rua dos Paulistas.

Sabe-se que o cronista anónimo da História dos Mosteiros conventos e casas religiosas de Lisboa, escrevia, cerca de 1707, que a fachada da igreja dos Paulistas não estava acabada, faltando-lhe, nas suas palavras “o frontispício”, sendo aliás deste modo que está representada na Vista de Lisboa em Azulejo.

Uma das datas determinantes na história dos destinos deste edifício conventual e igreja foi 1834, pois o decreto liberal que determinou a exclaustração e extinção das ordens religiosas e que teve como consequência imediata o abandono do convento, desertificando-o e deixando os seus interiores sem vigilância condigna, concedendo-se apenas que ficassem quatro capelães com vista a assegurarem o culto diário na igreja.

O edifício conventual conheceu diversos usos e diversas instituições ao longo dos anos que decorreram depois da supressão das ordens religiosas. Entre as instituições que nele tiveram acolhimento, destacam-se a Sociedade Promotora de Agricultura, os Sapadores, o Juízo de Direito do 5º Distrito, o Batalhão 16º da Guarda Nacional e a Tropa, estes últimos por Portaria da Fazenda de 21 de Agosto de 1834.

Na documentação pertencente ao processo de extinção do convento, localizam-se várias referências a projectos de arquitectura que visavam a alteração do edifício com a finalidade de ali se estabelecer o liceu de Lisboa. A sua cerca também não escapou às atenções de várias instituições. O projecto mais conhecido é aquele que pretendia a unificação desta cerca com a antiga dos padres da Ordem Terceira de Jesus, a fim de criar nesse espaço um jardim botânico. O pedido chegou a ser aceite pela rainha D. Maria II que, em portaria de 17 de Setembro de 1836, dá o seu aval ao início do projecto.

Apesar da anuência régia em dotar aquele espaço de um jardim botânico, que funcionaria também como espaço de estudo de biologia, o projecto não passou do papel, pois através de documentação oriunda da Academia das Ciências de Lisboa, sabe-se que o espaço das ditas cercas foi, nos anos seguintes, sucessivamente arrendado a pessoas particulares.

Depois de anos de hesitações, o destino desses terrenos foi selado pela aprovação do projecto de construção do Liceu Passos Manuel.

Quanto ao edifício da igreja, este teve um destino mais linear, já que o culto se manteve, provendo assim uma determinada continuidade de funções e cuidados com o seu acervo artístico. A atestar esse mesmo cuidado, a igreja foi encerrada intermitentemente entre os anos de 1837-1876 e 1922-1930 para intervenções de restauro.

Em 1835 e, como já referido, a igreja que outrora fora dedicada ao Santíssimo Sacramento muda de orago e adopta o de Santa Catarina de Monte Sinai, devido ao incêndio que destruiu a igreja paroquial de Santa Catarina de Monte Sinai, que não mais seria reconstruída. Para além de acolher o orago, incorporou igualmente as irmandades da igreja desaparecida. Entre aquelas que vieram ocupar o novo espaço destaca-se a mais célebre de todas, a dos Livreiros.

Embora tivesse tido um destino menos atribulado que as dependências conventuais, ou mesmo a igreja, a sumptuosa sala da antiga biblioteca conventual não terá sido tratada da forma mais condigna. Em 1835 é transformada em depósito de documentação judicial proveniente do Juízo de Direito do 5.º Distrito, o qual já se encontrava instalado em dependências do mesmo convento. O inquilino seguinte foi a Sociedade Portuguesa de Estudos Históricos que, em 1919 cedeu o espaço ao Ministério do Exército. Actualmente, a antiga biblioteca conventual dos padres paulistas da Serra de Ossa está a cargo da paróquia de Santa Catarina, a qual tem aberto as suas portas, utilizando-a por vezes como espaço de exposições. Conserva ainda e integralmente as características arquitectónicas originais e, a par daquela do convento-palácio de Mafra, é uma das mais significativas bibliotecas construídas durante o reinado joanino.

Sílvia Ferreira

Como citar: Sílvia FERREIRA, “Convento do Santíssimo Sacramento (S. Paulo da Serra d’Ossa)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.


BIBLIOGRAFIA

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ANTT, Ministério do Reino – Plantas – Convento dos Paulistas, IV/C/114 (19), Nº 5270,

ANTT, Ministério do Reino – Plantas – Convento dos Paulistas, IV/C/114 (20), Nº 5270

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Internet

 Igreja do Convento dos Paulistas / Igreja Paroquial de Santa Catarina / Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, Ficha de inventário do IHRU, N.º IPA 00003140, em www.monumentos.pt, consultado em Dezembro de 2013


LOCALIZAÇÃO