Convento do Santíssimo Sacramento de Alcântara

SOBRE O EDIFÍCIO

O cenóbio de dominicanas, consagrado ao Santíssimo Sacramento, foi fundado em 1607, em edifício na zona de São Vicente de Fora, ficando ligado aos condes de Vimioso por diversas vias. A primeira delas foi o facto de Fr. João de Portugal, irmão do conde de Vimioso, ter sido o fundador da nova casa de Alcântara, de que esta entrada trata, com apoio de Filipe II, e a segunda via prendeu-se com o mecenato de D. Maria de Mendoça, sua cunhada, que, ao professar no convento após a morte de seu marido, muito contribuiu para o seu crescimento.

Em 1611 Fr. João de Portugal adquire propriedades em Alcântara e em 1612 lança-se a primeira pedra para a construção dessa casa religiosa, facto que ocorre com a interveniência de Fr. Aleixo de Meneses, arcebispo de Braga, que fora primaz de Goa e de Espanha. Em 1616 as monjas passam a habitar o local e, entre 1620 e 1635, termina-se a obra da igreja, que ficou ligada à acção do Mestre Frei João de Vasconcelos, pregador real e deputado do Conselho Geral da Inquisição. Aliás, alguns cronistas afirmam que Frei João de Vasconcelos poderá ter sido o responsável pelo risco da igreja do cenóbio do Sacramento. Em 1652, imbuído no espírito defensivo da Restauração, ergue-se um baluarte, que, pela sua proximidade ao mosteiro do Sacramento, tomou o mesmo nome, sendo arrasado em 1876, para se proceder à construção de uma nova via. O “Grande panorama de Lisboa” constitui por isso um excelente testemunho da feição arquitectónica e urbanística do complexo do Sacramento.

Segundo diversos testemunhos, o terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou estragos pouco significativos, sendo, no entanto, o convento afectado no ano seguinte por duas medidas pombalinas: a primeira que condicionou a entrada de noviças a uma licença régia e a segunda que levou à substituição dos dotes por pensões vitalícias. Vários são os acontecimentos que sucedem o megassismo e que contribuem para uma vivência mais conturbada no seio da comunidade do convento do Santíssimo Sacramento de Alcântara. O primeiro é indubitavelmente o envolvimento das monjas em lutas políticas em torno dos jesuítas, em 1760, que culmina, em 1765, com a deposição da prioresa e a prisão das religiosas, resultado da divisão que existiu no seio da comunidade dominicana, entre partidários e opositores do conde de Oeiras (e marquês de Pombal).

Outro momento menos feliz para a história deste cenóbio prende-se com a extinção das ordens religiosas, em 1834, que resultou na sua fragmentação, através de várias portarias que foram emitidas para esse fim. Entre 1889 e 1895 várias partes desse imóvel e alguns terrenos adjacentes foram concedidas provisoriamente à Associação Protetora de Meninas Pobres (posteriormente conhecida por Associação das Irmãs Terceiras de São Domingos) e em 1895 parte de um terreno contíguo ao convento é cedido à Câmara Municipal de Lisboa, para alargamento da Rua do Sacramento a Alcântara.

A diversidade de instituições que ocupou esse edifício incluiu ainda a Academia das Ciências, que aí esteve entre 1911 e 1916, bem como o Dispensário Popular de Alcântara e a repartição da Administração e do Registo Civil. A 12 de Março de 1916 a Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas determina que o antigo mosteiro fosse provisoriamente cedido ao Ministério da Guerra, para instalação dos serviços dependentes do Depósito Central de Fardamento. Em 1936 o Depósito Geral de Material de Aquartelamento empenha-se no sentido de obter a cedência de várias dependências do cenóbio, celebrando dois contratos para esse fim. A partir de 1954 a Direcção-Geral da Fazenda Pública impõe ao Depósito Geral de Material de Aquartelamento uma renda anual a título de indemnização pela ocupação do imóvel, no valor de 36.000$00.

Maria João Pereira Coutinho

Como citar: Maria João Pereira COUTINHO, “Convento do Santíssimo Sacramento de Alcântara” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.


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LOCALIZAÇÃO