Convento de São João de Deus

SOBRE O EDIFÍCIO

A Ordem Hospitaleira de S. João de Deus entrou pela primeira vez no território nacional em consequência da invasão de Portugal pelas tropas castelhanas que, em 1580, conseguiram elevar D. Filipe II ao trono da monarquia dual. Tinham como missão principal o tratamento dos feridos causados pelas batalhas. Apesar desta entrada em território português, em data recuada, a efectiva fundação de casas da Ordem só ocorreria em 1625 em Montemor-o-Novo e em Lisboa em 1629.

O convento hospital de Lisboa surge da vontade de D. António Mascarenhas, homem de ascendência nobre e detentor de vários cargos e títulos. Doutor em Teologia, era igualmente membro do Conselho Régio, deão da Capela Real e deputado da Mesa da Consciência e Ordens. Outro cargo de grande prestígio que acumulava era o de Comissário Geral da Bula da Cruzada. A Bula da Cruzada representava, em termos práticos, o apoio expresso da Igreja Católica às actividades dos portugueses na luta contra os mouros, quer na metrópole, quer nas colónias. O Comissário da Bula da Cruzada em Portugal, D. António Mascarenhas, detentor do poder que os seus cargos e títulos lhe conferiam, decidiu, pois, agraciar a Ordem de S. João de Deus, dotando a mesma de representação na corte.

Uma iniciativa de D. António de Mascarenhas ajuda a compreender o homem e os seus objectivos de consolidação pública da sua ascensão social. No dia 7 de Fevereiro de 1621 assiste-se à publicação solene da bula na Sé de Lisboa. A cerimónia contou, como era hábito, com um sermão proferido por frei Pedro Calvo, pregador do rei. Por vontade de D. António de Mascarenhas, o sermão foi editado pelo impressor Pedro Crasbeeck, com uma tiragem de cerca de 1500 exemplares, dos quais cem seriam entregues a D. António: Sermão feito na Sé desta cidade de Lisboa, na publicação solene da santa Bula da Cruzada a 7 de fevereiro de 1621 quando o mui ilustre senhor D. António Mascarenhas daião da Capela Real de Sua Majestade entrou por Comissário Geral. D. António Mascarenhas era filho de D. Pedro Mascarenhas e bisneto do capitão dos Ginetes de D. João II, Fernão Martins Mascarenhas. Sabe-se que em 1629 residia à Tanoaria. 

D. António de Mascarenhas comprou os terrenos situados no sítio denominado da Pampulha, em local onde, desde 1581, habitava uma comunidade de Carmelitas Descalços. O nobre tinha como objectivo a fundação de um convento e hospital da Ordem, que tivesse capacidade para acolher e tratar religiosos pobres. Inicialmente, o hospital contava com treze camas que, no caso de não serem preenchidas com religiosos doentes, poderiam também acolher leigos oriundos da nobreza. 

O processo de doação das casas e terrenos pertencentes a D. António passou obrigatoriamente pela obtenção do assentimento da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, sediada em Madrid. A escritura de doação, em depósito no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, elucida o processo e revela os intervenientes. Em Lisboa encontrava-se o representante da Ordem, detentor da procuração passada pelo Geral da Ordem, Padre Frei João de São Marín, do definidor Padre Frei Pedro Egipcíaco, do padre frei Pedro de São Josefe e do prior Padre Frei Francisco Roma. O assento notarial de doação data de 3 de Maio de 1629 e revela que o doador reservou para si o padroado. Em 1630, D. António doou à mesma Ordem uma quinta denominada Poço dos Trapos, na Portela, actualmente pertencente à freguesia dos Olivais em Lisboa, com o intuito de facultar à Ordem recursos financeiros para a sua subsistência e manutenção.

Uma data importante na história da Ordem em Portugal e, possivelmente indicadora de campanhas concertadas entre a casa de Montemor-o-Novo e a de Lisboa, é a de 1676 quando é lançada a primeira pedra do complexo residencial e hospital do convento de Montemor-o-Novo, cuja primeira fundação remontava a 1625. Conhece-se o nome do arquitecto chamado para intervir na obra, João Rodrigues Mouro, natural de Olivença e com vasta obra, nomeadamente em fortificações militares, e do mestre pedreiro Manuel Francisco, o Pombo, residente à Pampulha, vizinho do convento de S. João de Deus de Lisboa. 

Do currículo profissional do arquitecto João Rodrigues Mouro constam intervenção, debaixo da supervisão do engenheiro militar João Gilot, na edificação dos muros da sua cidade Natal, colaboração nas obras de fortificação da cidade de Setúbal, cidade onde residiu depois de 1653, a par do mesmo Gilot, Luís Serrão Pimentel, Mateus do Couto, João Cosmander e Nicolau de Langres. Em 1666 alcança o posto de sargento-mor, com a inerente responsabilidade da praça de Setúbal.  Reconhecem-se intervenções suas na mesma cidade em arquitectura militar no forte de São Filipe, no da Arrábida e do Outão, na fortaleza de Sesimbra, no forte do Cavalo, no castelo de Palmela e ainda nas fortificações de Sines, da Ilha do Pessegueiro e de Vila Nova de Milfontes. Para além da sua incursão profissional em fortificações militares estendeu a sua acção a projetos de arquitetura civil, de que é exemplo a Alfândega de Setúbal. 

A escolha deste arquitecto para delinear a traça do novo complexo residencial e hospital da ordem de S. João de Deus, em Montemor-o-Novo, terá cabido a D. João Mascarenhas, 2º. Conde da Torre e futuro Marquês de Fronteira, que foi governador militar do Alentejo e um dos mais destacados heróis da Restauração.

O facto de D. António de Mascarenhas ter-se predisposto a fundar um convento da Ordem Hospitaleira em Lisboa poderá também denotar e reforçar a ligação desta família à mesma instituição e fundamentar melhor a hipótese de intervenção deste arquitecto, preferido de D. João de Mascarenhas, como autor da traça do edifício de Lisboa. 

De facto, não é inédita a circulação de artistas em obras de casas religiosas da mesma Ordem. Neste caso, também a circunstância do mestre de obras do convento de Montemor-o-Novo, Manuel Francisco, ser residente à Pampulha e, portanto, vizinho do convento hospital da Ordem em Lisboa, poderá indiciar a sua participação nas obras do convento de Lisboa.

Determinante para a sobrevivência e engrandecimento da casa dos Hospitaleiros em Lisboa foi a edificação, em meados da centúria de Seiscentos, em terreno adjacente, do palácio de D. Vasco Mascarenhas, 1.º Conde de Óbidos, primo de D. António, e prosseguido pelo seu filho e herdeiro, o 2.º Conde de Óbidos e Conde de Sabugal, D. Fernando Martins Mascarenhas. Sabe-se que D. António de Mascarenhas não legou no seu único herdeiro directo, o seu irmão, D. Luís de Mascarenhas, a herança do convento dos Hospitaleiros. D. Luís residia em Goa, e por lá continuou, justificando-se esta opção de D. António, possivelmente pela ausência do irmão na metrópole. Certo é que, seja por herança, seja por compra, foi ao primeiro e segundo condes de Óbidos que coube, em parte, custear e supervisionar as obras de edificação do convento e hospital da Ordem de S. João de Deus, à Pampulha. Como homens influentes do reino que eram e detentores de fortuna considerável coube-lhes a tarefa de prosseguirem a obra que D. António iniciou. D. Vasco de Mascarenhas foi governador do Algarve, vice-rei da Índia e do Brasil, ao passo que seu filho, D. Fernando foi Meirinho-mor, membro do Conselho de Estado e Guerra de D. João V e ainda aio dos infantes D. António e D. Manuel. Pelos cargos que ocuparam e pela influência que detinham na corte compreende-se melhor a sua disponibilidade económica para engrandecerem como patronos o convento vizinho do seu palácio, dispondo na igreja de tribuna privativa e, na capela-mor, de cripta familiar.

Dissertando sobre a localização do convento e a sua relação com os edifícios circundantes, o padre António Carvalho da Costa, autor da Corografia Portugueza, no tomo datado de 1712, refere: “O convento de S. Joaõ de Deos fica logo adiante do Mosteyro das religiosas de Santo Alberto, & da mesma banda he de huma só nave com a porta para o Norte, & sobre ella a Imagem do Santo”. O referido padre adianta ainda o nome da Condessa de Atouguia como uma das benfeitoras do convento. Por esta altura, o título pertencia a D. Clara de Assis Mascarenhas, filha de D. Fernando Martins Mascarenhas, 2º conde de Óbidos e de D. Beatriz Mascarenhas Castelo-Branco da Costa, 3ª condessa de Palma e 4ª condessa de Sabugal. D. Clara Assis Mascarenhas, torna-se condessa da Atouguia por casamento com D. Luís Pedro Peregrino de Carvalho e Menezes de Ataíde, 10º conde de Atouguia. 

O filho de D. Clara e D. Fernando, e herdeiro do título, D. Jerónimo de Carvalho e Menezes de Ataíde, 11º conde de Atouguia, casado com Mariana Raimunda Bernarda de Távora, desempenhou um papel infeliz na história do Portugal de Setecentos, ao ser acusado, no processo dos Távora, e, posteriormente sentenciado à morte, conjuntamente com a sua mulher e demais membros daquela família. 

A casa dos Atouguia extingue-se em consequência do referido processo dos Távora, revertendo todos os seus bens para a Fazenda Real. O testemunho de Fevereiro de 1758, do pároco da freguesia de Santos-o-Velho, respondendo aos inquéritos que D. José I ordenou no pós-terramoto de 1755, reitera a ausência de padroeiros da igreja de S. João de Deus. Esta situação, embora já vivida em época anterior ao atentado a D. José, (Setembro de 1758) tornou-se provavelmente definitiva com a queda em desgraça da família Atouguia, que terá deixado a igreja dos religiosos hospitaleiros sem mecenas. 

Outra figura de relevo da nobreza portuguesa, a ser mencionada como frequentadora da igreja do convento de S. João de Deus, foi o 1.º marquês de Alegrete, D. Manuel Teles da Silva.

Segundo o autor do Santuário Mariano, este homem de confiança de D. Pedro II, ao deslocar-se em 1686 a Heidelberg para buscar a princesa D. Maria Sofia de Neuburgo, futura rainha de Portugal, levou consigo o manto da Senhora do Mar e das Ondas, imagem muito venerada na igreja do convento dos Hospitaleiros de S. João de Deus: “Quando o Marquez de Alegrete Manoel Telles da Silva foy ao Imperio, para conduzir a sereníssima Rainha D. Maria Sophia, com grande fé que tinha na Senhora do Mar & das Ondas, foy encomendarse a ella áquelle Convento, & pedio aos Religiosos lhe dessem hum dos seus mantos, para o levar por Reliquia defensiva de todos os perigos da viagem, & com elle o livrou a Senhora de todos, & o Marquez em acção de graças pelos benefícios que da Senhora recebèra, lhe deu huma peanha de prata, sobre que está colocada, que terá quasi hum palmo de alto”.

Do paradeiro da imagem da Senhora do Mar e das Ondas e da sua peanha de prata, não chegou até hoje notícia, contrariamente às duas imagens sobreviventes, S. João de Deus Patriarca e S. Rafael, expostas actualmente na Casa de Saúde do Telhal, em Sintra.

Ainda sobre a feição dos interiores da igreja nos alvores de Setecentos, o cronista da História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa adianta: “Na igreja, que he de uma nave, com largura, comprimento e altura proporcionada, o tecto (da igreja) he de abobeda muyto bem pintada. Tem o corpo da igreja de cada parte três capellas, e nos topos do cruzeyro duas. A capella mór tem boa proporção com a igreja, com muy boa pintura na sua abobeda. Tem retabolo de talha dourada, com seo sacrário e com sua tribuna conforme ao uzo do tempo. A capella mor e a igreja tem muyta luz, que a faz clara e alegre”. 

Também o padre Carvalho da Costa, descreve a igreja, corroborando e completando outros testemunhos coevos: O tecto da Igreja he de brutesco, cousa singular; tem nove capellas, àlem da mayor, aonde està o Santissimo Sacramento com S. Joaõ de Deos da banda do Evangelho, & Santo Antonio da banda da Epistola, Imagem perfeyta; & no meyo do altar està N. Senhora da Conceyçaõ. As outras Capellas, que ficão da banda da Epistola, são a de S. João de Deos, a de S. Carlos Borromeo com S. João Bautista, & o Anjo S. Rafael, a de N. Senhora do Bom Sucesso, & a de N. Senhora das Ondas do mar, Imagem milagrosa, que se achou na praya dentro de huma cayxa, donde a trouxeram os Religiosos para esta Igreja. As outras Capellas da banda do Euangelho são a de S. Miguel, a de S. Joseph, a de Jesus, Maria, Joseph, & a do Santissimo Sacramento, onde està N. Senhora de Belèm, Imagem de pincel, & de muytos milagres, a qual festejão com grandeza todos os anos (…)”.

Sabendo que estes relatos se situam nos alvores de Setecentos, podemos inferir que as campanhas de obras mais significativas em termos de dotação de equipamentos artísticos na igreja, ter-se-ão situado em finais de Seiscentos, hipótese reiterada pelo contrato de douramento do altar-mor datado de 23 de Abril de 1694, o qual pressupunha já a existência de um retábulo-mor entalhado certamente em ano aproximado.

Obras no convento de S. João de Deus, datadas do ano de 1747 estão documentadas nos livros de Cordeamentos da Câmara Municipal de Lisboa. Nesse ano, a 3 de Julho, o prior e mais religiosos do convento de S. João de Deus enviam petição à Câmara, no sentido de esta lhes conceder autorização para abrir dez portas em várias moradas de casas, que possuíam no piso térreo do seu convento, colocando em cada uma delas dois degraus. As casas destinavam-se a ser alugadas pelos frades.

A necessidade de prover ao sustento do seu convento, amparando os religiosos e mantendo o hospital em funcionamento direcionava os frades hospitaleiros para a obtenção de rendimentos. Assim se explica as obras de 1747, bem como a cedência em 1801, de instalações no convento para aí se estabelecer um aquartelamento da Guarda Real da Polícia, que lá terá permanecido até 1834. Desses anos datará o encerramento do claustro destinado a albergar as casernas do 5.º e 6.º quartéis, com utilização da mesma parada (claustro) e dos dois calabouços (um para cada quartel), portas que ainda hoje se conservam, gradeadas. Entre 1807-1808, as tropas francesas comandadas pelo general Junot acomodaram-se também em várias dependências do convento. 

A notícia seguinte referente aos padres hospitaleiros data de 1834 e refere-se ao inventário ds bens do convento, elaborado no convento de Santo-Antão-o-Velho, local para onde se retiraram os escassos religiosos de S. João de Deus. 

A partir de 1834 várias foram as instituições militares que tiveram passagem pelas instalações do antigo convento, entre elas contam-se a Brigada Real da Marinha, o Tribunal da Corte, a Guarda de Linha, o Regimento de Infantaria, n.º 2, o Depósito de Adidos e, finalmente, a GNR, que lá permanece até hoje.

Sílvia Ferreira

Como citar: Sílvia FERREIRA, “Convento de S. João de Deus” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.


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