Convento de São Francisco da Cidade

SOBRE O EDIFÍCIO

A fundação do convento de São Francisco da Cidade, também conhecido como “Cidade de São Francisco”, no local que se viria a denominar Calçada de São Francisco, dá-se no ano de 1217, no local onde se encontrava um hospício pertencente à Ordem Franciscana e que mais tarde daria lugar ao Hospital de São Francisco. Nas décadas seguintes realizam-se várias obras de ampliação, com mecenato de Fr. Zacarias, e funda-se o cenóbio em 1246. O duque de Bragança adquire aos franciscanos uma parte significativa de terrenos, junto da cerca, por volta de 1500.

Durante o reinado de D. Manuel (1469-1521) iniciam-se obras com o intuito de acrescentar o edificado, dando-se alguns conflitos com a vizinha igreja paroquial de Nossa Senhora dos Mártires, apesar dessa não ser a vontade do monarca. As obras chegam mesmo a ser interrompidas por um breve papal. Em 1518 os mestres Nuno Vaz e Álvaro Pires são nomeados pedreiros e carpinteiros do convento e dois anos depois iniciam-se obras no dormitório e no forro do claustro, por Afonso Pires e Rodrigo Álvares. Nesse mesmo ano de 1520, o medidor das obras de Lisboa, Pedro Luís, procede a medições de umas paredes feitas pelo mestre Gil Fernandes, em zona conventual não especificada, avaliações essas que foram continuadas para averiguar as obras que também tinham sido empreendidas pelo mestre carpinteiro Rodrigo Álvares e pelo mestre pedreiro Brás Martins.

Durante as décadas de 20, 30 e 40 do século XVI estão igualmente documentados vários trabalhos efectuados nas escadas de pedraria, varandas do claustro, o acabamento da capela, por Pedro de Trilho, o madeiramento da torre do armazém e obra de carpintaria do dormitório novo e do segundo claustro. Em 1521 avalia-se mais uma obra, que desta vez tivera lugar no telhado do segundo Claustro. Em 1540, os religiosos do convento ordenam a demolição da capela velha. Em 1569 as obras iniciadas no período manuelino ainda não se encontravam concluídas e durante a primeira metade do século XVII há notícia de continuarem as obras, desta vez a expensas do padre Frei Rodrigo. A igreja tinha três naves e várias capelas, entre as quais uma dedicada ao Bom Jesus de Portugal, onde estava sediada a Ordem Terceira.

A partir da Restauração dá-se um novo impulso no que às obras do cenóbio diz respeito e em 1655 reconhece-se a acção do  arquitecto João Nunes Tinoco (act. 1652-1689), ao riscar a nova Casa do Capítulo. Um levantamento efectuado em 1700 aos residentes nesse espaço, dá-nos a ideia de que residiam nessa data entre 115 a 130 religiosos. Apesar das opiniões divergirem acerca da datação do incêndio que lavrou nesse local, certo é que essa grande catástrofe terá decorrido entre 1707 e 1708, arruinando particularmente o templo, que, foi reedificado a expensas de El-rei D. João V (1689-1750), nobres, fidalgos e populares.

Em 1712 já se construíam novos retábulos para a igreja, o que nos comprova que a mesma já se encontrava reedificada, e, em 1741, o convento é novamente atingido por um incêndio, iniciado no Seminário Patriarcal, ficando completamente destruídos: o dormitório, a livraria e a casa do despacho da ordem terceira.

Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, a ruina do convento foi tão grande que levou a que a comunidade tivesse que ser transferida para outro local. Em 1757, inicia-se nova reconstrução, segundo planos atribuíveis a Custódio Vieira e Rodrigo Franco, e em 1758 o cenóbio continuava a ter uma das maires comunidades de religiosos de Lisboa. Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834 a igreja passou para a tutela da Ordem Terceira de S. Francisco, responsáveis pela conservação do culto divino, e o espaço conventual foi transformado em depósito geral do espólio livreiro dos conventos extintos, que mais tarde viria a ser denominado Biblioteca Pública.

Em 1836, com a criação da nova Academia Nacional de Belas-Artes, cujas aulas passaram a funcional no espaço conventual, o lugar onde outrora fora a igreja foi concedido à Guarda Nacional Republicana, que procedeu à transformação do local, fazendo demolições em 1839, por forma a adequá-lo às suas novas funções. Foi aliás nessa altura que as monumentais colunas do edifício foram trasladadas para o actual Teatro Nacional D. Maria II. Em 1858 construiu-se uma nova fachada no imóvel, tornando-o nas palavras da época “mais digno” para receber a Galeria de Pintura Antiga, com a colecção das obras de arte seleccionadas nos conventos extintos. O espaço recebeu também a Biblioteca Nacional, o Governo Civil e Polícia, o Ginásio Clube, a Sociedade de Geografia, com o seu Museu Etnográfico, um ferrador, uma marcenaria, uma loja de papel e várias cocheiras particulares. Com a passagem em 1881 da Galeria de Pintura para o Museu Nacional de Arte Antiga nas Janelas Verdes, dá-se a separação da Academia de Belas-Artes da Escola de Belas-Artes.

Com a criação em 1911 do Museu de Arte Contemporânea e subsequentes obras, que lhe valeram uma abertura em 1944 pela Rua Serpa Pinto e, entre 1991 e 1994, significativas obras de remodelação, segundo projecto do Arquitecto Jean Michel Wilmotte, o local foi-se metamorfoseando, sendo integrado em 2011 numa zona especial de protecção. Quanto à iconografia do local, importa destacar a representação do alçado lateral no “Grande panorama de Lisboa em azulejo”, onde se observa a torre sineira da igreja e os contrafortes da nave, que é complementada quer pela anterior perspectiva da Vista de Lisboa de Simão de Miranda (1575), quer pela representação do imóvel na obra pictórica Nossa Senhora do Porto Seguro (Igreja de São Luís dos Franceses – c. 1620). A única representação mais exacta do seu alçado principal é aquela fixada por Zuzarte, já datável do século XVIII.

Maria João Pereira Coutinho

Maria João Pereira COUTINHO, “Convento de S. Francisco da Cidade” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.


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LOCALIZAÇÃO