SOBRE O EDIFÍCIO
Este antigo convento pertence à ordem dos Carmelitas Descalços de Santo Alberto, reformada por Santa Teresa de Jesus, e fica localizado na rua que vai para as Janelas Verdes. Incumbido por Santa Teresa de Avila, sabe-se que o padre napolitano Frei Ambrósio Mariano veio para Portugal, com mais sete frades, tomando sobre si a empresa de fundar a primeira casa da Ordem dos Carmelitas Descalços.
A 1 de Outubro de 1581 chegam a Lisboa e implementam, sob a invocação de São Filipe, o primeiro cenóbio. Note-se que essa invocação se encontra relacionada com o facto de Filipe II de Espanha se encontrar em Lisboa e ter recebido o padre Mariano. Em 1604 dá-se a transferência desse primeiro convento para um local mais amplo, para São Crispim, na Costa do Castelo, tendo o cenóbio tomando a invocação da Madre de Deus.
A 27 de Setembro de 1606 dá-se o lançamento da primeira pedra do novo convento, em terrenos adquiridos a foreiros das Comendadeiras de Santos, do lado direito da “estrada para Alcântara”. As obras de ampliação da igreja e instalação da ordem no edifício sob a invocação de Nossa Senhora dos Remédios, nome de uma ermida que ficava perto, consagram-se a 3 de Maio de 1611. A 27 de Outubro do mesmo ano realiza-se a primeira reunião do Capítulo da Província de São Filipe, entretanto separada da Província da Andaluzia.
No dia de Páscoa de 1613 é aberta a nova igreja, continuando a fazer outras obras de beneficiação nas dependências envolventes. Em 1641 o padre provincial obtém do rei autorização para sepultar no convento quatro conspiradores executados por crimes de lesa-majestade: o marquês de Vila Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar e D. Agostinho Manuel de Vasconcelos. Nesse mesmo ano o benfeitor Luís Cesar de Menezes é responsável pela doação de uma terra denominada de Cerca Nova. A este patrono podem ainda acrescentar-se outros, por quem, tal como ao anterior, a comunidade rezou com regularidade. Tiveram sepultura neste local, o Dr. Inácio Ferreira, D. Bernarda Ferreira de Lacerda e sua filha D. Maria Clara de Meneses.
Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755 uma parte significativa do edifício conventual é destruída e o Capítulo passa a reunir-se numa capela do claustro. Nas Memórias Paroquiais de 27 Abril de 1758, o padre Gonçalo Nobre da Silveira, refere curiosamente que o convento não tinha padroeiro. Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, os bens dessa casa religiosa passam para a Fazenda Nacional, tendo a Condessa de Murça acolhido 33 religiosos e obtido do estado a cedência de parte da igreja para capela do seu palácio que lhe ficava contíguo.
Outras partes do imóvel adquirem novos usos (em 1835 o edifício é requisitado pelo Batalhão 17º da Guarda Nacional, em 1836 uma parte da cerca é arrendada, e posteriormente comprada, pela Companhia Fabril de Loiça, entre 1837 e 1844 funciona no imóvel o Conservatório de Artes e Ofícios que mais tarde será integrado na Escola Politécnica). Como parte importante da história do edifício, deve-se ainda mencionar que entre 1856 e 1857, durante a epidemia de Febre Amarela, serviu de hospital militar e que em 1872 é vendido em hasta pública, sendo adquirido pela Presbyterian Free Chrurch of Scotland.
Em 1898 o imóvel é adquirido pela Sociedade Protestante Irlandesa Pulvertaft & Co., para instalação da Igreja Católica Apostólica Evangélica Lusitana, e, em Junho de 1993, a Direcção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais apresenta uma proposta de classificação. Quanto à fachada, onde se inscreve a frontaria da igreja, elemento distinto do restante casario, importa salientar que esta apresenta um corpo central rasgado por um portal, que, por sua vez, é encimado por uma monumental janela. O mesmo alçado exibe ainda um corpo adjacente do lado esquerdo e uma torre sineira do lado direito.
O desnível existente entre o local implantação da igreja e a via pública, bem visível no painel de azulejos, originou a que o acesso ao edifício fosse feito através de uma escada de dois lances, antecedida por um muro e um portal. Este tipo de solução é similar àquela realizada quer para o convento de São Pedro de Alcântara, quer para o colégio de São Pedro e de São Paulo (Inglesinhos). O “Grande panorama de Lisboa”, além da “Vista de Lisboa” da Academia Nacional de Belas-Artes (c. 1767-69) constituem raros exemplos da iconografia deste cenóbio carmelita.
Maria João Pereira Coutinho
Como citar: Maria João Pereira COUTINHO, “Convento de Nossa Senhora dos Remédios (Marianos)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.
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