Convento de N. Sra. da Porciúncula (Barbadinhos franceses)

SOBRE O EDIFÍCIO

Depois da Restauração da Independência em 1640, e demonstrando afeição que sempre caracterizara a Coroa portuguesa,  D. João IV autorizou a fundação, em Lisboa, de um hospício para alguns religiosos Capuchinhos franceses (procedentes da Província da Bretanha). Estes frades beneficiaram também dos bons ofícios da Casa de Aveiro, uma vez que a Duquesa de Aveiro, Ana Maria de Cárdenas y Manrique de Lara e seu filho D. Raimundo de Lencastre (que veio a ser o 4º Duque) cederam-lhes uns terrenos (1646) mesmo à beira da água, contíguos à sua morada em Santos, fronteiro ao Convento da Esperança. Este hospício tinha a invocação de Nossa Senhora dos Anjos, sendo a primeira missa celebrada três anos mais tarde em 1649.

Mais tarde, seria a rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (1646-1683) uma das protectoras da casa conventual, promovendo a entrada e saída de frades de Portugal para a casa que possuíam no Brasil (Pernambuco).

Chegaram a co-habitar com outros frades neste espaço, designadamente com os Capuchinhos italianos que, só mais tarde, viriam a possuir morada própria, junto do Mosteiro de Santos-o-Novo, no outro lado da cidade. Em 1712, segundo Carvalho da Costa na Corographia Portugueza, o Hospício passara a Convento e era agora dedicado a Nossa Senhora da Porciúncula, possuindo apenas onze religiosos.

A identificação deste Convento no “Grande panorama de Lisboa” não oferece grandes dúvidas. Além da localização evidente entre a propriedade dos Condes de Vila Nova de Portimão (mais tarde dos Marqueses de Abrantes) e dos Duques de Aveiro, defronte do Mosteiro da Esperança, a  extrema proximidade com as águas do Tejo asseguram o reconhecimento do complexo conventual.

No final do Antigo Regime e com a decadência das Ordens religiosas em Portugal, ordenou-se a supressão definitiva do Hospício em 1834, tendo os bens sido incorporados pelo Estado. Disfarçados hoje nos prédios do início da rua da Esperança, existem ainda vestígios arquitecturais da presença do antigo cenóbio seráfico. Em 1837, deu-se um incêndio, sendo na ocasião o templo desmanchado para dar lugar a uma escola primária. A Santa Casa da Misericórdia viria a tomar posse do edifício no final do século XIX (1898). A cedência do monumento à Junta de Freguesia de Santos-o-Velho, onde veio a instalar um balneário (1957), remata um percurso histórico atribulado. Do antigo edifício, restam apenas algumas paredes-mestras e alguns arcos (LEÃO, 1960: 146). 

Pedro Flor

Como citar: Pedro FLOR, “Convento de Nossa Senhora da Porciúncula (Barbadinhos franceses)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.


BIBLIOGRAFIA

CONCEIÇÃO; Fr. Apolinário da, Claustro Franciscano…, Lisboa, Of. António Isidoro da Fonseca, 1740.

COSTA, Pe. António Carvalho da, Corographia Portugueza …, vol. III, Lisboa, Of. real Deslandesiana, 1712.

História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, vol. II, Lisboa, CML (ed. Durval Pires de Lima), 1972.

LEÃO, Luís Ferro Ponces de, “A sepultura do Marquês de la Rosière no antigo Convento de N. Sra. da Porciúncula”. Olisipo – Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, Ano XXIII, nº 92, Lisboa, CML, 1960, pp. 143-154.

PORTUGAL, Fernando e MATOS, Alfredo de, Lisboa em 1758 – Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa, CML, 1974.

SILVA, Augusto Vieira da, Dispersos, vol. II, Lisboa, CML, 2ª ed., 1985.


LOCALIZAÇÃO