Convento de N. Sra. da Piedade da Esperança

SOBRE O EDIFÍCIO

Datará de 1523 a fundação de um mosteiro dedicado a acolher senhoras nobres, por iniciativa de D. Isabel de Mendanha, filha de um mercador Biscainho, casada com D. João de Meneses, o qual exercia funções de camareiro-mor do príncipe D. Afonso e de aio do príncipe D. João, futuro D. João III. Três anos depois, por Bula do papa Clemente VI, é dada autorização para a instauração de um cenóbio. Este ficaria sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade da Boa Vista. Um ano mais tarde, em 1527 dá-se início à construção do mosteiro, em um local denominado Outeiro da Boa Vista. Data de 1528, o testamento de D. Isabel de Mendanha, no qual pede explicitamente para ser sepultada no convento de S. Francisco da Cidade, dando ainda indicações para que se continue com a obra do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, usando-se para esse fim bens que deixa em legado.

Fica também estipulado que a futura abadessa do mosteiro da Esperança viria do convento de clarissas da Conceição de Beja. D. Isabel deixa ainda em testamento, para a sobrevivência do mosteiro que fundou, várias terras que possuía no Alentejo e outros bens. Em contrapartida, pede que sejam rezadas missas pela sua alma, família, e pelo rei D. Manuel e esposas. Pede ainda protecção para o mosteiro ao rei D. João III e à rainha D. Catarina. Quando D. Isabel de Mendanha falece, a 20 de agosto de 1532, a obra do mosteiro estava ainda bastante incipiente.

Só no ano de 1535, a 25 de Outubro, chegam ao mosteiro da Piedade da Esperança as primeiras religiosas que nele residirão. Nove eram provenientes do mosteiro de Santa Clara do Funchal e duas de Santa Clara de Santarém, ficando dependentes do convento de S. Francisco da Cidade. Em 1551, o número de freiras residentes no mosteiro era já de 37, este possuía duas confrarias, sendo uma delas a de Nossa Senhora da Esperança, que acolhia mareantes da carreira de São Tomé.

As obras mais relevantes neste mosteiro ocorreram durante os seguintes abassiados: Madalena do Horto (1597-1599) é executado o coro alto da igreja do mosteiro; D. Inês de São Paulo (1606-1608) manda colocar azulejos nas paredes da nave e do coro; novamente, D. Madalena do Horto (1612-1614) manda executar a obra da capela-mor e dois nichos nos altares colaterais, bem como o arco triunfal, em pedraria; D. Francisca dos Anjos (1618-1620) executa obras de requalificação no refeitório, procedendo-se ao assentamento de azulejo de brutesco e azul e branco nas paredes. Neste mesmo abassiado derrubam-se os cómodos que ainda restavam do palácio que pertencera à rainha D. Catarina; no abassiado de D. Ana de São Francisco (1623-1626) faz-se a sacristia de fora; com D. Leonor do Presépio (1638-1641) é feito o claustro pequeno com colunas de pedra, uma custódia de prata dourada e uma cruz de cristal para o Santo Lenho; por vontade de Mariana de São Francisco (1641-1644) é dourado o arco triunfal da capela-mor; D. Joana de Jesus (1644-1647) manda executar grades na igreja, em pau-santo, com marchetados de bronze e balaústres de embutidos marmóreos.

Em 1667, recolhe-se neste mosteiro a rainha D. Maria Francisca de Sabóia. Sabe-se que em 1704 residiam no mosteiro da Piedade da esperança 38 religiosas professas, uma noviça, 13 educandas e 24 serviçais da comunidade. Em 1712 já habitavam o mosteiro 70 religiosas, quase todas oriundas de famílias nobres.

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 fez ruir as abóbadas da igreja, tendo como consequência imediata a necessidade de se demolir as paredes. Para além da ruína que causou na igreja, o abalo sísmico afectou igualmente o edifício do mosteiro. No ano de 1758, D. José I ordena que o mosteiro seja reconstruído de forma a acomodar também com dignidade outras religiosas provenientes do convento do Calvário e daquele de Santa Clara, que se juntavam agora às do mosteiro da Piedade.

No ano de 1888, a Câmara Municipal de Lisboa solicita a cedência do edifício para a instalação de uma padaria. A 11 de Agosto de 1889 morre a abadessa Joaquina Cândida de Jesus, dando-se nessa data a extinção legal do mosteiro que foi de Nossa Senhora da Piedade da Esperança de religiosas clarissas. A 27 de Dezembro desse ano, a Câmara Municipal de Lisboa toma conta do edifício. Em 1891, muda-se para o local o Corpo Municipal de Bombeiros. O antigo mosteiro é demolido, aproveitando-se contudo alguns dos seus materiais, nomeadamente cantarias, na edificação do novo edifício. O projecto arquitectónico esteve a cargo do arquitecto José Luís Monteiro.   

 Sílvia Ferreira

Como citar: Sílvia FERREIRA, “Convento de Nossa Senhora da Piedade da Esperança” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.


BIBLIOGRAFIA

Fontes Manuscritas

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, “Convento de Nossa Senhora da Piedade da Esperança”, Cx. 1957, IV/I/84 (25)

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL, Secção de Reservados, Fundo Geral, mss IL 103, microfilme F 955 (Livro da Fundação, ampliação e Sítio do Convento de N.ª Sr.ª da Piedade da Esperança (…) mandou escrever a Abbadeça Soror Francisca dos Anjos, no anno de 1620)

Estudos

COSTA, António Carvalho da, Corografia Portuguesa, vol. III, Lisboa, Valentim da Costa Deslandes, 1712.

“ESPERANÇA (Convento de N. S. da)”, SANTANA, Francisco,  SUCENA, Eduardo (dir. de), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, Carlos Quintas & Associados, 1994.

LIMA, Durval Pires de (ed. crítica), História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, Tomo II, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1972.

PEREIRA, Luís Gonzaga, Monumentos Sacros de Lisboa em 1833, Lisboa, Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1927, p. 301-303.

SILVA, Augusto Vieira da, “O Mosteiro da Esperança” (separata dos n.ºs 45 e 46 da Revista Municipal), Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1959. 

Internet

Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade da Esperança / Mosteiro da Esperança, Ficha de inventário do IHRU, N.º IPA 00034033, em www.monumentos.pt, consultada em Dezembro de 2013.


LOCALIZAÇÃO