SOBRE O EDIFÍCIO
Corria o ano de 1653, quando frei Vivardo de Vasconcelos, abade do convento de Nossa Senhora do Desterro, único cenóbio cisterciense até então existente em Lisboa, tomou conhecimento de que na freguesia de Santos-o-Velho “havia um recolhimento de algumas mulheres devotas que desejavam servir a Deos” (1), chamado da Magdalena, regido por “uma molher de virtude”, de seu nome Maria da Crux que tinha vindo de Roma. No dia seguinte, 1 de Setembro, foi-lhe falar e, segundo palavras do próprio, “de tal modo me prendeu a conversação daquella creatura, que eu a buscaria em mais dos dias para falarmos de Deos, e eu lhe cobrar tanto respeito e veneração que lhe falava de joelhos, e quando a hia buscar, hia resando canticos e himnos ao Senhor (…).” (2) A tal ponto chegou a veneração que a má língua espalhou que ele a procurava “com mao fim” e que ela o traria enfeitiçado, o que fez com que frei Vivardo agisse ainda com mais veneração, pois que “andavamos tratando de fundar naquelle recolhimento hum mosteiro, mas não determinavamos de que ordem fosse porem desejava eu muito que fosse de nosso padre S. Bernardo.” (3)
Em 18 de Janeiro do ano seguinte, um clérigo chamado José Rolão, que fora capelão de D. Diogo Lobo, antigo prior-mor do convento de Palmela, da Ordem Militar de Santiago de Espada, terá dito a frei Vivardo que “o ditto D. Prior seo amo dezejava muyto fundar hum mosteyro de monjas cistersiences de observancia reformada e que elle mesmo ordenara huns statutos e os deyxara já confirmados pella Sé Apostolica, com licença para fundaçam do mosteyro.” (4). Agradado com a notícia de que havia uns estatutos confirmados por Clemente VIII para a fundação de uma recoleta de Cister que não chegou a fazer-se, Frei Vivardo foi falar com Maria da Cruz “e tendo entendido a vontade que as recolhidas mostraram de serem Religiosas sogeytandose aos statutos e regras que pera a ditta reforma tinha feyto o D. Prior,” (5) tratou de obter a licença necessária junto de D. João IV. O rei levantou grandes dificuldades à fundação de mais um mosteiro. Pelo contrário, a rainha D.Luísa de Gusmão mostrou-se inclinada a apoiá-la. Também as autoridades eclesiásticas puseram alguns entraves.
Dez meses se passaram sem que o monarca assinasse a licença, até que no Domingo, dia 2 de Novembro de 1654, frei Vivardo, já desesperado, decidiu ir ao Paço fazer mais uma tentativa junto do rei, que continuava inflexível pelo que lhe disse “Deus hade castigar V. Magestade senão conceder esta licença, e esta he a última lembrança que faço a V. Magestade porque não tenho ordem para tornar mais a seus pés. Tenho feito as diligencias necessárias, Deos o fará agora com as divinas como for mais glória sua.” (6) O rei terá ficado perturbado e nada respondeu. Dito isto saiu.
Pouco depois o rei despachava favoravelmente a fundação da recoleta graças à intervenção da rainha. No Sábado seguinte foi frei Vivardo à audiência pública falar com o rei que lhe disse “Domingo quando me falaste, logo se me virou o coração, e logo determinei de vos despachar, mas não volo quis dizer. (…) duas vezes fuy para dizer não, e não foi que se me atravessou no coração, que nunca o pude pronunciar. E mais quero vos contar hum milagre que Deos fez em mim. Eu tinha hum braço com hum formigueiro, e quasi esquecido, e com grande temor de ficar aleijado, e no ponto em que assinei este despacho fiquei são como nunca tivera nada.” (7)
Vencida também a oposição das autoridades eclesiásticas, tratou frei Vivardo de eleger as fundadoras para o novo convento que foram escolhidas no mosteiro de S. Bento, de Évora. Foram três as fundadoras: D. Antónia Moniz, que mudou o nome para Soror Antónia do Espírito Santo, e ocupou, durante doze anos o cargo de abadessa, D. Francisca de Vasconcelos que se veio a chamar Soror Francisca das Chagas, e, por último, D. Maria de Almeida, que passou a Maria do Sacramento.
Na festa da Epifania, de 6 de Janeiro de 1655, fechou-se a clausura do convento, que foi dedicado à Virgem Nossa Senhora da Nazaré. A data de 1651 e a frase «Esta obra he de Deos» inscritas na base do cruzeiro de pedra que encima o portal da Travessa do Convento das Bernardas parecem indiciar a fundação do recolhimento primitivo. Por baixo deste existiu um azulejo setecentista de alminhas ou das almas do Purgatório, com as iniciais de Padre Nosso Ave Maria (PNAM). Desaparecido entre 1998-2000.
Foi necessário comprar as casas onde viviam as recolhidas, pelo valor de cinco mil cruzados. Dado o convento não ter padroeiro, nem rendas próprias, acabaram por ser compradas com as esmolas dos fiéis.
Em 10 de Junho de 1670, a Câmara de Lisboa consulta el-rei D. Pedro II, sobre aprovação de uma petição da abadessa e demais religiosas do convento das Bernardas «(…) a este senado, dizendo que a respeito do grande aperto em que vivem, lhes fôra necessário alargar mais aquella obra, e que, para se haver de continuar a da egreja, precisamente necessitam de uma travessa que fica n’este mesmo sítio, onde estão uns pardieiros que compraram para formar o pateo d’ella. § Fazendo o senado vistoria e mandando medir pelo mestre das obras da cidade, se achou que a travessa tinha de comprido cento e quinze palmos e de largura vinte; entendendo o senado que não só se devia conceder ás supplicantes, pela necessidade que têem de alargar a egreja, mas que, além de não causar prejuízo algum ao publico, que fica tendo serventia por outra parte, seria mui conveniente, porque com isso se ficava evitando o servir de despejo a toda aquella vizinhança, com grande indecencia do serviço de Deus e do culto divino, em razão dos maus vapores que se communicam á egreja e a todo o convento; mas, porque a licença concedida não póde ter logar sem a approvação de V. Alteza, recorre o senado a dar conta do que tem procedido. – V. Alteza mandará o que fôr mais conveniente.» (8)
Tendo sido o pedido concedido, deu-se continuidade à obra. O conjunto terá ficado concluído por volta de 1708. Um registo iconográfico importante desse período, como é o Panorama de Lisboa em azulejo, mostra já a fachada do cenóbio concluída. No ano de 1706 o convento contava com 47 monjas e 8 conversas, e crescia o número das que requeriam o estatuto. Graças aos dotes das religiosas foi possível continuar as obras.
Como convento de clausura, a vida da comunidade religiosa processava-se toda dentro dos limites do edifício, que, dado não possuir cerca, dependia totalmente do exterior para adquirir os bens necessários à sua alimentação e manutenção. O abastecimento de água era feito graças à existência de duas cisternas no claustro. Uma pincelada do quotidiano desta casa é-nos dada no capítulo XIV das Noticias dos Mosteyros das Religiosas da Cidade de Lisboa, na obra História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, (…), Tomo II, escrito em 1706: «A vida que se professa neste convento nam deyxa de ser aspera, porque os alimentos sam sempre os da Quaresma, sem se dispensar em comer carne, de que só usam as enfermas que no tempo da doença sam trattadas com toda charidade, e as que tem saude jejuam oyto meses no anno. Andam descalças com alparcatas abertas. Nam se permitte o uso de roupa de linho. O tempo das Matinas he as duas horas depoys da meya noyte, sem dispensaçam. Alem da reza d’officio divino, que he muyto larga, ha mays duas horas de oraçam mental, todos os dias em communidade, fora outros exercicios spirituaes.
A pobreza se observa com grande perfeyçam, porque na cella nam ha mays que uma barra com humas taboas de pao, e em cima hum enxergam de palha, mantas d’estamenha, huma cruz de pao sancto, huma pia de agua benta de barro vidrado, hum escabelo de madeyra tosca, alguns livros spirituaes e huns instrumentos de penitência, e este he todo o movel da cella. O vestido he hum habito de burel branco e hum escapulario preto, com uma cogula de estamenha branca por cima. O toucado he de panno de linho caseyro, assim a toalha como o veo. Nam se permitte communicação pera fora, mays que com pay, mãy, irmãos e parentes muy chegados, e estando sempre com escuta. A mortificaçãm da vontade propria he muy frequente, porque tudo he regulado pella Prellada, da qual ha dependencia ainda nas couzas minimas.»
Os enterramentos das religiosas eram feitos sob as arcadas do claustro.
O edifício primevo, em termos espaciais, pouco diferiria da actual construção. A topografia do terreno, desde sempre, obrigou à construção de dois pisos abobadados que, à semelhança de um criptopórtico, permitia vencer a acentuada diferença de cotas. Assim, em relação à rua da Esperança, para onde abre a fachada principal, a igreja e o claustro estão ao nível do 3º piso. Mais uma vez, socorremo-nos do testemunho único que é a obra História dos Mosteiros (…) para o conhecer: «Pera chegar à porta da igreja (…) se sobe (…) por uma escada de pedra muyto boa, e entrando pella porta da igreja se acham no corpo della tres capellas de cada parte, com seos retabolos dourados, de huma columna por banda, e a parede que fica entre capella e capella he revestida de um azolejo adamascado. E logo por cima dos arcos das capellas corre huma cimalha de marmore vermelho que corre toda a igreja à roda, até sambrar com o retabolo da capella mor. E por cima da ditta cimalha assenta hum andar de payneis quadrados, proporcionados à igreja, e entre elles tres janelas de cada parte, das quaes só as direyta dam luz à igreja, porque as da esquerda só servem de fazer apparente correspondência. Por cima dos dittos payneis e janelas se estende por todo o corpo da igreja huma boa cimalha de pedra, e por bayxo della fica o arco da capella mor, cujo tecto he em volta de meya laranja, com hum brutesco de ramos grandes e largos, com figuras e anjos, ocupando o meyo hum ovado que guarnecem pella borda varias quartellas e revirados, e dentro do ditto ovado se deyxa ver o melliflo Bernardo, ao qual acompanham os anjos pera o Ceo. Por cima do arco da capella mor e de sua cimalha se deyxa ver hum vam que vay do arco da capella mor pera o tecto da igreja, e neste grande paynel se representam as divinas pessoas da Sanctissima Trindade com S. Bento de huma parte e Sam Bernardo da outra.
Nos lados da capella mor há dous payneis de cada banda, fronteyros hum ao outro, com suas molduras de talha douradas, e no meyo dos payneis tem lugar huma janella de cada parte. O retabolo da capella mor he de duas collunas por banda, e entre ellas tem lugar a imagem de hum sancto. O retabolo he bem dourado e do mesmo modo a tribuna, com dous anjos que acompanham em cima a custodia. O tecto da capella he de abobeda, pintada com um brutesco ao moderno, de mininos, serafins e flores. No meyo se deyxa ver hum seistavado e dentro delle o anjo embayxador anunciando à Virgem o mystério da Encarnaçãm.
(…) Tem o primeyro lugar no edificio do mosteyro o coro, (…) com sincoenta e sete cadeyras lavradas com muyto primor, em madeira de angelim. O tecto he todo pintado muyto bem; há dentro delle duas capellas. Na que fica da parte do Evangelho logram as Religiosas deste mosteyro a consolaçam de lhe assistir o Divinissimo Sacramento, de que sam devotissimas, assim se esmeram no ornato e no asseyo da ditta capella. No outro lado, que he o da Epistola, corresponde à capella do Senhor outra em que inclui em si o Sanctuario, em que se veneram muytas e grandes reliquias bem ornadas. Alem das dittas duas capellas há mays no antecoro outra com grande asseyo, dedicada a Jesus Maria Joseph.
A casa do Capitulo sobre ser grande (…) com huma capella, grande obra de talha, com hum paynel muy devoto que representa o Senhor atado à columna. Tem uma imagem grande do Senhor Crucificado, obra de marfim, lavrado na India.
Consta o mosteyro de seys dormitorios com bastante grandesa, azolejado todo em bastante altura, e as cellas todas que há nos dittos dormitorios sam pera mayor asseyo todas azolejadas à roda, couza que se nam acha em todas as cellas de convento algum de que tenhamos noticia.
Há no interior deste convento grande numero de capellas, porque em cada hum dos seys dormitorios tem huma capella muyto asseada. E no claustro que tem este mosteyro, que fica no meyo de quatro dormitorios, e no fim de cada lanço há huma capella e no meyo outra com que vem a ser todas oyto as capellas todas de Passos da Payxam, a que acrescentaram mays outra de Nossa Senhora da Soledade, com as imagens de Sancto Ignacio e Sam Francisco Xavier. E por cima dos quatro lanços do claustro correm quatro varandas, sobre as quaes caem as janellas das cellas das Religiosas, que tem a sua habitaçam nos quatro dormitorios. (…)».
O mosteiro foi quase completamente destruído pelo Terramoto de 1755, não havendo, contudo, mortes a registar. Segundo frei João Raposo «seriam quase três quartos depois das nove horas da manhã [quando as monjas] sentiram o estrondoso tremor (…). As paredes caiam para fora. Saindo com muito custo sobre todas as ruinas para a rua acharam derribado o muro da cerca do conde de Vila Nova, que lhes ficava defronte do mosteiro, por onde entraram e donde estiveram cinco dias e quatro noites sem abrigo e com muita aflição. No quinto dia, por ordem de sua magestade, o sr. D. José o primeiro, foram para a cerca das religiosas da Esperança, onde estiveram seis meses e vinte dias debaixo de uma lona.» (9).
O monarca comprou-lhes depois uma quinta no Campo Pequeno por 20 cruzados para onde foram as freiras em 25 de Maio de 1756.
Nas folhas de rendimentos e despesas do Convento, no triénio de Maio de 1756 a Abril de 1759, verificamos que «despendeose na quinta que se comprou no sítio do Campo pequeno que consta de pomar, terras e casa p(ar)a acommodação das Religiosas oyto contos de reis. Despendeose na forma que se deu às d(it)as casas p(ar)a servirem de Most(ei)ro, asseio da Capella, e com hu(m) tanque que se fez de novo, e mais preparos p(ar)a a ditta acommodação Religiosa doys contos quatro centos e nove mil reis».
Entre as diversas despesas feitas nesse triénio destaca-se ainda as da construção de «nove moradas de cazas que se fizerão no Mocambo na rua direita de Santos e na rua da palha e com outra morada de casas nobres que ficão principiadas na d(it)a rua direita de Santos» no valor de «sette contos quinhentos noventa e quatro mil quinhentos oytenta e doys r(eis)». A construção das casas na rua de Santos levou a um litígio com o Conde de Vila Nova, cujo palácio lhes ficava fronteiro, e que lhes moveu um embargo.
Em Carta de 19 de Setembro de 1769, «D. José fez doacção perpetua e irrevogável à comunidade das Religiosas (…) do Collegio [de S. Francisco Xavier] com sua cêrca que tinha sido dos Padres da Companhia de Jezus». (10). Um decreto do abade geral D. Frei Manuel de Mendonça, obrigou à sua transferência para o referido Colégio, que ficava em Setúbal, e de que as freiras tomaram posse em 14 de Outubro desse mesmo ano. Nova Carta régia, datada de 1776, faz doação de mais um terreno, também em Setúbal, onde podiam edificar. São, pois de doação régia os prazos da vila sadina, não se conhecendo, porém, as origens dos prazos ou foros em Lisboa, sendo provável que proviessem de doacções de fiéis.
Na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, o convento surge ainda representado em estado de ruínas, antes da sua reconstrução, promovida durante o reinado de D. Maria I. Com efeito, em 1786, dá-se o regresso das religiosas ao Convento do Mocambo. «Está edificado de novo, para o que, com pia e Real magnificencia, concorreu, e concorre a nossa Augusta Soberana, e o Snr. Rei D. Pedro 3º, que Deos levou, e só falta concluir-se a igreja e habitação dos P(adr)es no que se trabalha actualmente. § Tem casa de capitulo, que prezentemente serve de igreja, sancristia, refeitório, enfermaria, cozinha, e as mais officinas precizas, todas muito commodas, e decentes; e duas cisternas. § Tem quarenta cellas preparadas, e ornadas, segundo o instituto das religiosas que as habitão. O numero que prescrevem os seus estatutos é de vinte e quatro religiosas, e tres leigas, ouve tempos em que chegarão a ser cincoenta; prezentemente, tem trinta e tres, e huma leiga.» (11). Segundo Leroux, o projecto será da autoria do arquitecto e cenógrafo de origem italiana, Giacomo Azzolini (1723–1791). Este terá sido também encarregado de realizar o levantamento do edifício, que se encontrava em estado de ruína após o terramoto, antes do início das obras. Uma doação da rainha Mariana Vitória, efectuada durante o decorrer das obras, em 1781, poderá igualmente relacionar-se com a presença de Azzolini, atendendo às suas sólidas relações com a soberana.
A igreja, de nave única, quando finalmente ficou concluída, era de grande simplicidade. Segundo Gonzaga Pereira podia «acomodar 400 fieis». A planta, «em forma de caixa, (…) he deferente de todas as Igrejas de Lisboa; a escada he dentro da primeira porta, e depois de grande numero de degráos, fica na frente a portaria, e na esquerda o templo, que é formado em pavimento nobre; e por baixo fica hum andar de cazas e lojas (..) he o unico templo da cidade construido por esta forma (…)». No interior «possue (…) 3 capellas com a primaria, em que se acha collocada a milagroza Imagem de N. Senhora da Nazareth; e 2 capellas lateraes, tendo a capella mór 2 nixos com os santos fundadores, (…)». Nas paredes brancas, «de lizo estuque», ressaltavam os silhares pombalinos tardios, com repetição linear de almofadas marmoreadas, a amarelo, com florões azuis, ao centro, que envolviam a nave e que, felizmente, chegaram em grande parte até aos nossos dias. O tecto era «ornado de hum quadro da mesma invocação de N. Senhora, pintado pelo pincel [de] Pedro Alexandrino de Carvalho». Tinha a igreja poucas imagens. Para além da referida do orago, «a mais inrrequecida de belleza de bellas artes», possuía «outra imagem de N. Senhora, do lado da Eppistola, na sua capella, que he muito sofrivel escultura». Informa ainda Pereira que «nesta Igreja não há chapa alguma de author; por occazião de festividade, dãosse simples estampas aos fieis do culto divino». Outra particularidade que distingue este convento dos demais, são as pinturas constituídas pela repetição intercalada de elementos arquitectónicos e gradeamentos de varanda, em trompe l’oeil, decorando as guardas das varandas que correm sobre as arcarias do claustro que era ajardinado.
O rendimento do convento consistia, nesse período, «em padrões, aluguer de cazas e alguns foros em Setuval, Sintra, e Corte de Lisboa, de algumas ordinarias que lhe dão por esmola na mesma corte, e em Alcobaça, e de tenças vitalicias; o que tudo virá a constituir o total de dois contos, quatro centos, trinta, e cinco mil reis, poco mais, ou menos» havendo a descontar 145 mil réis, por morte de três religiosas, e 470 mil réis de despesas com ordenados, «satisfacção de hum legado, tres creados, quatro creadas, lavandeiras, e mais gastos ordinários». (12)
No edifício conventual, para além do arrendamento comercial dos espaços abertos à rua da Esperança, nas folhas de rendimentos e despesas do Convento, no triénio de 1813-1816, aparece-nos uma despesa referente a obras num armazém, de forma a adaptá-lo a habitação para arrendamento a inquilinos.
«D(espendeu-se) em obbra das cazas novas por baixo da Feitoria, q(ue), quase nada rendendo, desde q(ue) se fez o Most(ei)ro athe o prezente, por estar m(ui)to tempo sem ter alugador, por ser hu(m) armazem sem acomodação algu(m)a, nelle se fizerão acomodacoes p(ar)a hum, dois, tres, ou quatro moradores, com suas quatro cozinhas, e mais acomodacoes precizas, podendo alugarse tudo a hum só inclino, ou mais, por ter portas interiores de comunicação, p(ar)a o que foi nec(essári)o abrir hu(m)a porta nova, e larga p(ar)a o armazem, e outra, logo junto desta, para a escada das cazas q(ue) ficam sobre o m(es)mo armazém, abrir cinco janellas e hu(m)a porta p(ar)a a Calçada de Castello Picão, oito portas nas paredes interiores, e fazer janelas de sacada com suas grades de ferro, as duas q(ue) havia de peitos; o q(u)e foi tudo precizo p(ar)a dar lus ás cazas, e boas serventias aos inclinos, tendose também aproveitado o grande xaguão q(u)e servia de cloaca, no qual se fes hua morada de quatro andares, e tudo se acha arrend(ad)o pella p(rimei)ra ves, a quatro moradores pella quantia de quarenta moedas e meia, sendo a maior p(ar)te em metal, não obstante terem sido arrend(ad)as fora do tempo em q(u)e costuma haver mais pertendentes».
A extinção das ordens religiosas do sexo masculino, em 30 de Maio de 1834, impunha a imediata incorporação de todos os bens daquelas ordens na Fazenda Nacional. Esta medida, da responsabilidade do regente D. Pedro e do ministro Joaquim António de Aguiar, conhecido por «o Mata-frades», tornara-se inadiável. Não implicou, no entanto, o encerramento dos conventos do sexo feminino, que se manteriam até à morte da última freira.
«Desde Pombal que o poder civil exercia já um controlo efectivo sobre a esfera espiritual, mas só a ruptura com o absolutismo, depois da Revolução de 1820, e, sobretudo, após a vitória liberal, em 1834, viria a permitir a reforma da instituição eclesiástica de Antigo Regime. Ao extinguir as ordens religiosas e ao nacionalizar os seus bens, os liberais retiravam grande parte do poder económico à Igreja, aumentando assim a sua dependência em relação ao Estado e diminuindo a sua influência política.
No caso específico do Convento de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo, este seria desocupado em 1850, em razão do seu estado de ruína, e do Decreto de 9 de Agosto de 1833 que, para além de proibir novas admissões à profissão de freira, determinava que os conventos, mosteiros, casas seculares e hospícios com menos de 12 religiosas seriam extintos e as suas propriedades incorporadas nos bens nacionais, dado restarem apenas três religiosas no edifício, D. Carolina Augusta de Castro e Silva, D. Anacleta Justa do Carmo Semedo e D. Maria Matilde dos Anjos.
D. Carolina, filha legítima de Romão José da Silva e de Francisca Maria dos Santos (…) tinha professado em 1831, com 16 anos de idade (…) será então mandada, na companhia das restantes para o vizinho Convento das Trinas do Mocambo. Aí ficam pouco tempo, pois pedem para ser “incorporadas no Real Mosteiro de S. Dionísio de Odivelas”, ou de S. Dinis, da mesma ordem, “com a condição expressa de administrarem as suas rendas, e de se não confundirem os bens da sua casa com os do mesmo Real Mosteiro”, excepto D. Maria Matilde dos Anjos que obteve licença para ser incorporada no Convento de S. Bernardo de Portalegre.
(…) A supressão do Convento de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo acabaria por se concretizar em 1859. Subsequentemente, o processo implicou a elaboração do inventário dos bens do referido convento, pelo que, no dia 30 de Setembro desse ano, o desembargador da Relação Eclesiástica, cónego João de Deus Antunes Pinto, e o oficial da Repartição da Fazenda, Joaquim António Gonçalves, se reuniram no “Real Mosteiro de S. Dionizio de Odivelas, e às grades (…) compareceu da parte de dentro (…) D. Carolina Augusta de Castro e Silva”, em representação da comunidade de religiosas do extinto convento.» (13).
D. Carolina viria a falecer em 16 de Abril de 1909, pelas cinco horas da tarde, com 93 anos de idade, vindo a ser sepultada no cemitério paroquial da freguesia de Odivelas.
O edifício foi comprado pelo professor Joaquim Lopes Carreira de Melo que fundou no edifício o Colégio de Nossa Senhora da Conceição. Um anúncio publicado no Jornal do Comércio, de 6 de Dezembro de 1855, publicita a transferência, no fim desse mês, do Colégio, «que desde o anno de 1848 tem estado no palácio da Calçada da Estrella, nº8, (…) para o bello e grande edifício que foi mosteiro das religiosas da Nazareth do Mocambo. (…) Ali, todos os alumnos ficarão separados; até aos 10 annos n’um dormitorio de camaratas, e dos 10 annos para cima, cada um ficará no seu quarto particular; mas ainda assim separados n’outros dormitorios com escadas independentes, e pelas seguintes divisões por idades de 10 a 12 annos, de 12 a 14, de 14 a 16, e de 16 para cima».
O dístico deste estabelecimento de ensino, onde foram alunos o dramaturgo D. João da Câmara e o célebre médico dr. Sousa Martins, sobrepõe ainda o portal da fachada.
Em novo anúncio publicado em 13 de Janeiro de 1857, no mesmo jornal, dá o colégio conta de que «váe ter logar n’este estabelecimento a abertura de dois cursos nocturnos, nos quaes se hão de tratar as materias compreendidas na cadeira de mathematica do lyceu nacional, e da cadeira d’introdução á história natural da escola polytecnica. (…) A hora das lições será das 6 ás 8 horas da tarde, e o preço de 800 rs. Mensais para cada curso. (…)».
Segundo Júlio de Castilho, em 1893, aí funciona “o afamado Colégio Académico Lisbonense” do seu amigo Frederico Vilar. Houve ainda um colégio do professor Ferreira e o Liceu Politécnico de Luís Rodrigues.
No início de Novecentos, desaparecidos os estabelecimentos de ensino, o edifício era adquirido por novo proprietário que o converteu em habitação de numerosas famílias de fracos recursos económicos, enquanto no piso térreo se mantinham estabelecimentos comerciais que, à data, eram tabernas e carvoarias.
Na igreja do antigo edifício conventual, o empresário Santos Malafaia instalou um cinema cuja inauguração, marcada para Maio de 1924, acabaria por se concretizar no mês seguinte. Baptizado de «Cine Esperança» era conhecido comummente como «Cinema Malafaia». A fraca aderência do público levou ao encerramento precoce da sala que, contudo, continuou com actividades ligadas ao espectáculo.
A laicização da igreja só foi definitivamente assumida na década seguinte, com a execução de pinturas murais de gosto art déco, atribuíveis ao cenógrafo Mário Costa, que se sobrepuseram às pinturas de falsos marmoreados de uma redecoração oitocentista que, conjuntamente com os lambris de azulejos, ainda estava demasiado agarrada à memória do espaço religioso. As pinturas apresentam uma composição de motivos paisagísticos e vegetalistas muito estilizados e geometrizados, numa paleta de negro e vários tons de cinzento, remetendo para o espectáculo da «fotografia animada» que acontecia na pantalha. Estritamente decorativas, as qualidades técnicas e artísticas destas pinturas não serão as melhores, nem outra coisa seria de esperar num cinema de reprise, de bairro popular, todavia, constituem um raro documento, não sendo conhecida em Portugal a existência de um único exemplar de decoração mural daquele período com tal dimensão.
A sala serviu ainda para teatro de amadores – lá actuou Hermínia Silva no princípio da sua carreira – e sede de uma filarmónica. A primeira marcha organizada, em 1932, aí teve ensaio, com registo fotográfico para a posteridade.
Uma tentativa de transformação da igreja em habitação, nos anos de 1950, foi impedida pela autarquia, vindo o espaço a dar lugar a um armazém de mobílias usadas e marcenaria. Até ao início das obras de reabilitação do edifício, junto da porta da entrada da igreja existiu o guichet que correspondia à bilheteira do cinema e a cabine de projecção.
O edifício, entretanto, degradava-se cada vez mais, tendo mesmo em Abril de 1928 desabado parcialmente a cobertura da ala poente, devido ao mau estado de conservação das madeiras. O município intima os proprietários, “Carvalho e Dias, Lda.”, a fazer obras de conservação sob pena de demolição do prédio. Em Abril de 1933, a falta de condições era tanta que, num depoimento da junta de freguesia de Santos-o-Velho ao Diário de Notícias, se alerta para a miséria e porcaria «que chega à promiscuidade, que mete medo (…) que se alberga ali no Convento das Bernardas». Diz o presidente, «(…) é preciso acabar com aquilo. É um foco infeccioso. Há lá lepra! Os proprietários compraram aquilo para demolir, mas foi tal a algazarra e os empenhos dos pobres moradores, que, apesar da ordem judicial de despejo, eles não sairam. E, coitados! para onde haviam de ir? Mas até o Governo resolver, ao menos, que se lave, que se areje, que se ilumine aquele pardieiro medieval, que causa arrepios contemplar.»
Em Fevereiro do ano seguinte um ofício do Batalhão de Sapadores Bombeiros dá conta da situação, onde se lê: «Vivem ali na mais degradante promiscuidade, (…) sem ar e sem luz, cerca de 700 pessoas [por] interiormente se ter feito uma compartimentação que a transformou num verdadeiro labirinto, tornando péssimas as condições de alojamento e horríveis as de segurança. Há escadas que dão acesso ao claustro que nem degraus tem. Nem todos os compartimentos tem chaminé o que leva a fazer lume em qualquer ponto (…) O meio criado pela compartimentação feita além de anti-higiénico é insalubre. As pias estão entupidas e exalam um cheiro pestilencial.»
Em Abril de 1934, o edifício é adquirido por Manuel Amaral Marques, mantendo-se na família até 1998. Um ano depois, a Inspecção Geral de Saúde de Lisboa, de acordo com vistoria efectuada, considera o imóvel passível de funcionar como habitação «se o número de inquilinos fôr reduzido, permitindo melhor acomodação, e realisar as beneficiações indispensáveis. Para a efectivação dessas obras seria necessário a desocupação das habitações, tornando-se porêm impossível remover em conjunto os inquilinos, sem lhes garantir novo domicílio», sendo ainda «de opinião que á medida que fôssem vagando, as diversas dependências, não se consentisse o aluguer, sem que se realise uma vistoria para impôr os melhoramentos indispensáveis».
Por ter reconhecido o excessivo número de moradores, nesse mesmo ano, Amaral Marques tomou a iniciativa de reduzir o seu número, pondo alguns fora, retardando, contudo, a realização de obras de fundo, apesar das sucessivas intimações, alegando não possuir capacidade financeira para o fazer.
Com o advento da II Guerra Mundial e a crise económica e social então registada, com a falta de materiais de construção, o proprietário vai-se excusando de cumprir o exigido. Todavia, em 1942, em requerimento à câmara, informa ter posto o prédio à venda, não tendo compradores, pelo que requer autorização para demolir o edifício para construir prédios de 4 andares. Por o projecto não parecer «viável economicamente», é mantida a intimação para obras que vão ficando apenas nas pequenas reparações.
Na década de 70 ainda aí habitam 250 pessoas e funcionam 7 estabelecimentos comerciais. Com o intuito de resolver as carências mais prementes daquele pardieiro, como sejam a electrificação dos corredores e o depósito para o lixo, em 1975 é criada uma comissão de moradores.
A degradação do edifício continuou. Em 1994, a Direcção Municipal de Reabilitação Urbana cria o Projecto Integrado do Convento das Bernardas que visa a recuperação do velho edifício conventual com o objectivo de nele instalar equipamentos, mantendo a valência habitação nos pisos superiores, acabando o imóvel por ser adquirido pela autarquia em 1998 dando-se, em Dezembro do ano seguinte, início às obras de recuperação. Escavações arqueológicas (1996-97) revelaram a presença do cemitério das monjas sob as arcadas do claustro e a existência de duas cisternas no mesmo: uma ao centro e outra no ângulo frente à entrada da antiga cozinha.
Em Novembro de 2001, em parte do piso do claustro, incluindo o espaço da antiga igreja, instala-se o Museu da Marioneta. Neste mesmo piso, onde foram a cozinha e o refeitório conventuais instala-se o estabelecimento de restauração A Travessa.
António Miranda
Como citar: António MIRANDA, “Convento de Nossa Senhora da Nazaré (ou das Bernardas)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017; atualizado por Michela DEGORTES, in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.)site do Projecto de Investigação, (PTDC/ART-HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
NOTAS:
(1) – História dos Mosteiros (…) , pág. 444
(2) – Cód. Alcobacences, CDXXXIII/307.
(3) – Idem.
(4) – História dos Mosteiros (…) , pág. 444
(5) – Ibidem.
(6) – Cód. Alcobacences, CDXXXIII/307.
(7) – Idem.
(8) – In Oliveira, Tomo VI, pág.216-217
(9) – In Santos.
(10) – Conv. N. Sra. Da Nazaré do Mocambo. AHMF, ANTT
(11) – Cód. 1493-96
(12) – Idem. Ver também Folhas de rendimento e despesa do Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo.
(13) – Miranda – A última freira (…)
BIBLIOGRAFIA
Fontes
ASSENTO DE ÓBITO de Carolina Augusta de Castro e Silva – Conservatória do Registo Civil de Loures.
COD.1493-96, p.27 e 27 vº. BN, Reservados.
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CONVENTO DE N. SRA. DA NAZARÉ DE MOCAMBO: Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, ANTT.
CONVENTO DE S. DIONÍSIO DE ODIVELAS: Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, ANTT.
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