SOBRE O EDIFÍCIO
O Convento das Trinas do Mocambo foi fundado em 1657 na sequência da doação de uma quinta para esse efeito por Cornélio Vandali e Marta de Boz, um casal flamengo radicado em Lisboa. As obras começaram nesse ano, mas a autorização régia para a fundação só foi emitida em 1660 pois a Coroa recusava-se a autorizar novos mosteiros por questões económicas, situação ultrapassada pela devoção particular da própria Rainha D. Luísa de Gusmão. No ano seguinte, as freiras ocuparam o mosteiro sendo a igreja dedica a Nossa Senhora da Soledade.
O edifício era pobre, pequeno e precário sendo referido assim em 1708. A situação alterou-se pouco depois, pois foi este o local escolhido pela Condessa de Redondo, D.ª Maria Madalena de Távora, para terminar os seus dias. Perante a falta de acomodações, a benemérita mandou construir, a suas expensas, um novo corpo para sua residência, aquele que vemos no painel: um corpo longitudinal, voltado a sul para beneficiar da exposição solar, perpendicular à Rua das Trinas, que implicou a abertura de uma nova rua, a atual Rua Garcia da Orta. Após a morte da doadora, em 1711, este corpo foi convertido em dormitório da comunidade. Com a herança da mesma senhora, iniciou-se a construção da nova igreja, concluída em 1713.
Desta época sobrevivem parte do retábulo do altar-mor em estilo “Barroco Nacional” e quatro pinturas da vida da Virgem da autoria desconhecida, expostos na Igreja de São Francisco de Tomar e alguns retábulos laterais, expostos na Igreja do Castelo de Pombal.
Em 1745, procedeu-se à construção de um novo mosteiro. A primeira pedra foi lançada a 8 de Março e a obra foi assumida em 1746 pela associação de duas equipas de mestres-de-obra: Jorge Abreu e seu companheiro Caetano Jerónimo e Manuel Francisco de Sousa e seu companheiro Manuel Antunes Feio. A obra terminou em 22 de Junho de 1754.
No âmbito desta campanha, foram executados dois extraordinários ciclos pictóricos por André Gonçalves e seu filho Manuel José Gonçalves, pintor tecnicamente superior a seu pai mas que morreu prematuramente durante a execução da campanha. O primeiro ciclo foi feito para a nave da igreja e era composto por 36 telas, das quais 22 eram dedicadas à vida dos santos fundadores da Ordem da Santíssima Trindade – São João da Mata e São Felix de Valois – , 8 aos Santos Doutores da Igreja Católica Romana e da Igreja Católica Oriental, 2 a São João Baptista e a São João Evangelista e 4 com festões de flores. Apenas sobrevivem 15 telas dedicadas à vida dos santos fundadores e a tela de São João Evangelista. Todas estão no Convento de Cristo de Tomar, exceto a grandiosa tela semi-circular que representa São João da Mata perante a Virgem no coro dos anjos, que se encontra no Museu do Palácio Nacional de Mafra.
O conjunto dedicado aos santos fundadores merece alguma atenção. Baseou-se no conjunto de 24 telas com o mesmo tema pintadas pelo pintor Theodor van Thulden para a igreja do Mosteiro de Saint Mathurin de Paris, em 1632, por ocasião da canonização dos mesmos santos fundadores. Estas telas foram copiadas para gravura pelo mesmo pintor em 1633, as quais foram utilizadas para as 12 telas que Vicente Carducho pintou para a Igreja do mosteiro dos Trinitários de Madrid, hoje guardadas no Museu do Prado. Estas foram as fontes iconográficas para as telas das Trinas. Merece destaque a já referida tela semi-circular onde comparece um retrato póstumo de Manuel José Gonçalves, filho do pintor André Gonçalves, que colaborou com este na campanha das Trinas.
O segundo conjunto é o do coro baixo, dedicado a episódios da vida da Virgem, composto por 20 telas da autoria da mesma equipa de pintores. Destas, 16 estão no Convento de Cristo de Tomar, 2 nas reservas do Museu do Palácio Nacional de Mafra e 2 no Museu de Arte Sacra de Fátima. É um conjunto de extraordinária qualidade baseado em composições de Rubens passadas para gravura pelo seu gravador oficial Schelte de Bolswert.
Finalmente, deste mesmo período, foi executada para o altar-mor uma nova pintura fundeira para uma escultura de Nossa Senhora, obra também da mesma autoria e que se preserva também no Convento de Cristo de Tomar.
O terramoto de 1755 provocou estragos, obrigando as freiras a residirem em barracas na cerca do seu convento e em quintais vizinhos. A situação foi sendo ultrapassada graças à urbanização da cerca, construindo-se aí o Bairro da Lapa, e pela contração de empréstimos a juros. Em 1823, o Convento estava profundamente endividado resultado dos juros destes empréstimos, do despesismo das freiras e das doações com encargos pios desvantajosos para o Convento a longo prazo. Em 1864, o convento foi extinto ainda antes da morte da última freira, mas o mosteiro manteve a sua funcionalidade original pela permanência das “irmãs de caridade” e por questões jurídicas envolvendo o Estado e a Casa de Cadaval que reivindicava a reversão do património doado duzentos anos antes. O edifício chegou a ser vendido em hasta pública, mas o leilão foi anulado por influência do Bispo do Porto sobre o Ministro da Fazenda, tendo as irmãs de caridade ficado até 1910. Durante este período ocorreram nas Trinas dois escândalos que foram mediáticos na época e utilizados pela luta ideológica entre os sectores anti-clericais republicanos e os sectores monárquicos conservadores. Em 1891, uma pupila de 14 anos, Sara de Matos, foi envenenada dentro do convento. A autópsia revelou que a pupila mantinha atividade sexual apesar da idade e de estar fechada num convento. A investigação revelou um assassinato por motivos passionais, executado por uma freira mais velha, a irmã Coleta. Outro escândalo, em 1914, foi quando se descobriu que os títulos de dívida pública apreendidos às irmãs de caridade desapareceram dos cofres do Estado, onde estavam arrecadados, e apareceram em casas de câmbio em Lisboa, suspeitando-se de corrupção dentro do aparelho do Estado.
A partir de 1912, o edifício foi tendo várias funções que levaram à sua degradação e dispersão do património móvel que estava, até aí, bem preservado. As mais marcantes foram como Arquivo de Identificação que permaneceu até 1947, Tribunal dos Conspiradores contra a República órgão efémero mas que obrigou a obras que destruíram as celas do dormitório, Hospital de doentes de Tifo, Federação Nacional das Associações de Socorros Mútuos, Escola Rodrigues Sampaio, Escola Ferreira Borges, Arquivo do Ministério das Obras Públicas e Minas, 1.º Grupo e Companhias de Saúde do Ministério da Guerra, etc.
Por volta de 1926, partes do convento são ocupadas por famílias pobres levando a que as pinturas da igreja e coro sejam retiradas e dispersas por Tomar, a pedido pela União dos Amigos do Convento de Cristo de Tomar. Em 1931, a Inspeção Superior de Bibliotecas armazenou diversos códices e manuscritos que não cabiam na Torre do Tombo, Biblioteca Nacional de Lisboa e Biblioteca da Ajuda, onde ficaram esquecidos.
A 29 de Março de 1939, Manuel Santos Estevens localizou nas esta documentação abandonada, com mais de mil códices, vinte pastas com plantas, dez mil processos com 1510 desenhos onde se incluíam documentos importantes como o plantas do restauro da Sé de Lisboa, plantas da obra do Convento de Mafra, etc.. Com o apoio do Diretor Geral da Fazenda Pública, António Luís Gomes, Manuel Santos Estevens conseguiu convencer António de Oliveira Salazar a criar nas Trinas o “Arquivo Central das Secretarias de Estado”, arquivo intermédio que reuniria a documentação desnecessária ao normal funcionamento do Estado, mas que ainda não era suficientemente antiga para ingressar a Torre do Tombo e que, pela pratica comum da época, era armazenada em depósitos onde se degradava e perdia.
Desligado da DGEMN, Manuel Santos Estevens procedeu a um trabalho de restauro revivalista, reunindo também nas Trinas, para ornamentar as suas paredes, diversos painéis de azulejos provenientes de edifícios demolidos pelo Estado. Porém, este trabalho de restauro teve pouca viabilidade prática por não ter o apoio dos engenheiros civis e arquitetos do MOP, levando a que não tenha sido feito mais do que pequenas intervenções pontuais. Manuel Santos Estevens abandonou as Trinas em 1951 e o edifício voltou ao estado ao abandono com múltiplas utilizações.
Entre Dezembro de 1962 e Junho de 1965, o Engenheiro João Miguel dos Santos Simões recolheu o enorme espólio azulejar reunido por Manuel Santos Estevens nas Trinas, e integrou-os no recém-criado Museu Nacional do Azulejo. A 18 de Fevereiro de 1968, um incêndio destruiu as instalações do Instituto Hidrográfico no Arsenal da Marinha, e, no âmbito do esforço da Guerra Colonial, foi este serviço instalado nas Trinas um ano depois, a 26 de Fevereiro de 1969, utilização que ainda hoje se verifica e que tem contribuído para a preservação e divulgação da história deste mosteiro.
João Miguel Simões
Como citar: João Miguel SIMÕES, “Convento das Trinas do Mocambo” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.
BIBLIOGRAFIA
SIMÕES, João Miguel, O Convento das Trinas do Mocambo, Estudo Histórico-Artístico, Lisboa, Instituto Hidrográfico, 2004.
SIMÕES, João Miguel, “O Convento das Trinas do Mocambo e o nascimento do Museu Nacional do Azulejo”, in Olissipo, Boletim do Grupo “Amigos de Lisboa”, II Série, n.º20/21, Janeiro/Dezembro 2004, pp. 106 a 113.