SOBRE O EDIFÍCIO
O grupo de casas dos fabricantes da seda representado na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes constitui um importante testemunho da iniciativa pombalina de reformulação do bairro fabril e habitacional associado à existência da Fábrica das Sedas.
A Fábrica das Sedas foi construída entre 1734 e 1741 em terrenos aforados à Quinta dos Soares da Cotovia, no local correspondente ao gaveto da atual Rua da Escola Politécnica com o Largo do Rato. Em 1734, o rei D. João V tinha aprovado, por alvará de 13 de dezembro, o plano para o estabelecimento de uma fábrica de sedas em Lisboa, proposto pelo empresário francês Robert Godin. A zona do Rato foi escolhida para a edificação da unidade e o edifício, da autoria de Carlos Mardel (Rossa, 1998, p. 111), foi concluído em 1741, embora a fábrica tenha iniciado a sua atividade já em 1738, em instalações provisórias.
Após o terramoto de 1755, com a Fábrica das Sedas já sob direção do Estado, foi criado o Real Colégio das Manufaturas do Rato, um vasto conjunto de unidades fabris diversificadas implantado na área do Rato, resultante da iniciativa pombalina de implementação do desenvolvimento industrial. Neste contexto, a reativação da Real Fábrica das Sedas tinha como objetivo a renovação dos processos de fabrico e da gestão dos recursos materiais e humanos. De acordo com esta reforma, os fabricantes passaram a ser considerados empresários em dependência exclusiva da Fábrica Real, tendo direito à casa, oficina e equipamentos próprios, construídos nas adjacências da fábrica. Este modelo social e económico reflete-se na matriz urbana do bairro, cuja planta resulta de um plano geral de maiores dimensões, desenhado em 1756[1].
A construção do bairro foi lançada em 1759, após a terraplanagem da área escolhida para o efeito, delimitada pela zona entre a Mãe d’Água, a atual rua Artilharia 1, o Rato e Campolide. O projeto, da autoria de Carlos Mardel, articula-se com o complexo monumental do Aqueduto das Águas Livres, do Arco das Amoreiras e da Mãe d’Água – também da mão de Mardel – através de uma malha quadrada uniforme que dá origem à implantação do bairro fabril.
Durante o governo pombalino, surgiram nesta área outros estabelecimentos, nomeadamente fábricas de pentes, de caixas e cartões, de lacre, de botões e de tapeçarias, entre outras, mantendo-se o modelo habitacional de unidades modulares de dois pisos e espaço para oficina, destinadas aos artífices. Contudo, do conjunto de sessenta casas previstas, foram edificados apenas os quatro quarterões que rodeiam a praça, concluídos em 1769, sem que a iniciativa alcançasse a dimensão desejada (Rossa, 1998, p.128).
Enraizada na mesma ideologia, em 1765, foi lançada, por iniciativa do Tesoureiro-Mor José Francisco da Cruz Alagoa, uma operação semelhante que resultou na construção de um conjunto de casas destinadas à instalação de teares (Rossa, 1998, p. 127): é este o grupo de edifícios representado na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes. Nesse ano, José Francisco da Cruz Alagoa[2], figura relevante do governo pombalino, aforou um lote de terreno contíguo ao seu palácio, implantado na Cotovia, em local correspondente às atuais Rua da Escola Politécnica e Rua Maestro de Freitas Branco.
As casas, construídas na continuação da ala do palácio que inflete para esta última artéria, são edifícios singelos, constituídos por rés-do-chão, primeiro andar e sótão, aproveitando o espaço da cobertura de duas águas, disposta perpendicularmente à rua. A tipologia, bastante semelhante à das casas das Amoreiras, reflete o mesmo objetivo de normalização e estandardização construtiva.
Dos seis edifícios representados na Vista, apenas um subsiste atualmente, nomeadamente o situado no gaveto entre as ruas Maestro de Freitas Branco e Tenente Raul Cascais, conservando o seu aspeto original. O grupo de casas construídas por Francisco da Cruz Alagoa foi captado, em finais do século XIX, pelo fotógrafo Joshua Benoliel, constituindo um importante testemunho iconográfico que se junta ao mais antigo, o da Vista Academia Nacional das Belas Artes.
Michela Degortes
[1] O plano era da autoria de Eugénio dos Santos, Elias Poppe, Carlos Andreis e Carlos Mardel (Rossa, 1998, p.120).
[2] José Francisco da Cruz Alagoa (1717 – 1768), exerceu, entre outros, os cargos de Tesoureiro-mor do Erário Régio (1761), administrador da Real Fábrica das Sedas (1757), administrador da Alfândega Grande e presidente de todas as Alfândegas do Reino, conselheiro da Real Fazenda. Fidalgo da Casa Real (1763) acumulou numerosas mercês e doações, vindo a morrer em 16 de maio de 1768. Sobre esta figura veja-se Lisboa, 2007 e Figueiroa-Rego, 2016.
BIBLIOGRAFIA
Fontes
Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa (AML), Joshua Benoliel (fotografia), Cota: JBN001259 Instalações dos trabalhadores da fábrica das Sedas (2026-05-07).
Referência Bibliográficas
ARAÚJO, Norberto de – Peregrinações em Lisboa, Lisboa, s.d., vol. III, livro XI, p. 99.
FIGUEIROA-REGO, João de – “Aqui foi a “Floresta Egípcia”. Vivências e moradores das Casas Nobres Cruz Alagoa na antiga rua Direita das Fábricas das Sedas, depois rua da Escola Politecnica, em Lisboa (1757 – 1967)”, em Cadernos do Arquivo Municipal, 2ª Série, Nº 6/2016, p. 47-83.
FRANÇA, José-Augusto (coord) – A Setima Colina. Roteiro Histórico – Artístico, Lisboa, 1994, pp. 134-137.
FRANÇA, José-Augusto – Lisboa Pombalina e o Iluminismo, Lisboa: Bertrand, 1987.
LISBOA, Mário Eurico – O Solar do Morgado da Alagoa. Os irmãos Cruz e os significados de um património construído (segunda metade do século XVIII), Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta de Lisboa, 2007.
RODRIGUES, Maria João Madeira – “Amoreiras (Séc. XVIII)”, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa: s.n, 1994, pp. 64-65
ROSSA, Walter – Além da Baixa. Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa, 1998.
SEQUEIRA, Gustavo de Matos – Depois do terramoto. Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Lisboa: Academia das Ciências, 1933, Vol. IV, p. 161 e ss.