Casas de Salvador Correia de Sá e Benevides

SOBRE O EDIFÍCIO

Um dos logros do texto seminal de Vieira da Silva sobre o “Grande panorama de Lisboa”, publicado em 1932, era o de datar este magnífico painel de azulejos de c. 1734, uma vez que julgava ver a representação do Largo de S. João Nepomuceno e o respectivo hospício, à esquerda da imponente Igreja de Santa Catarina (SILVA, 1985: 258). Com efeito, as edificações que se encontram nesta zona do painel são antes as Casas de Salvador Correia de Sá e Benevides (1602-1688), Governador do Rio de Janeiro e de Angola e figura destacada da Restauração portuguesa (FLOR, 2016).

A presença às Portas do Pó da família Correia de Sá, ou seja entre o fim da rua de S. Paulo e o princípio da rua da Boavista, acabou por baptizar a calçada que por ali subia até Santa Catarina, pelo menos desde 1712 (CASTILHO, 1964: 284-285). Nos terrenos dessas casas entretanto devolutas, ou perto delas, veio a instalar-se o Hospício de S. João Nepomuceno (1723), cuja fundação se ficou a dever à vontade de três carmelitas descalços, vindos da Ermida de S. Pedro no Largo do Corpo Santo e da Ermida da Ascensão de Cristo. Estes religiosos pertenciam à entourage de D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V. O hospício e a igreja de S. João Nepomuceno e de Santa Ana foram pois fundados em 1723, embora em 1737 tenha sofrido obras de reconstrução feitas sobre projecto de Carlos Mardel (CASTILHO, 1964: 287). Em 1754, a rainha D. Maria Ana de Áustria viria a ser sepultada na igreja, em mausoléu próprio, tendo os seus restos mortais sido trasladados para o panteão da Casa Real dos Bragança, no convento de São Vicente de fora, em 1780. O hospício e a igreja de São João Nepomuceno não sofreram danos relevantes durante o terramoto de 1755, vindo a acolher temporareamente a paróquia de São Paulo, que tinha ficado quase totalmente destruida nas mesmas circunstâncias.

Depois da amortização dos bens do Clero (1834), verificou-se a ocupação dos espaços por parte da Ordem Terceira de S. Francisco, da Sociedade Farmacêutica Lusitana, o Asilo dos Órfãos Desvalidos de Santa Catarina (mais tarde o Internato Feminino de Santa Catarina) e, recentemente, o Centro de Educação e Desenvolvimento da Casa Pia (RAPOSO, 1962: 65-66). A imagem do hospício de São João Nepomuceno representada na Vista da Academia Nacional de Belas-Artes, constitui um raro testemunho iconográfico do aspeto original do conjunto, que foi alvo de obras de remodelação e reconstrução nos séculos XIX e XX.

Pedro Flor

Atualização: Michela Degortes


BIBLIOGRAFIA

CASTILHO, Júlio, A Ribeira de Lisboa, vol. IV, 3ª ed., revista e ampliada pelo autor e com anotações de Luís Pastor de Macedo, Lisboa, CML, 1964.

FLOR, Susana Varela, “Portraits by Feliciano de Almeida (1635-1694) in Cosimo III de’ Medici’s Gallery”, in RIHA Journal – Journal of the International Association of Research Institutes in the History of Art, nº 144, 2016. [http://www.riha-journal.org/articles/2016/0144-flor]

RAPOSO, Hugo, “Convento de S. João Nepomuceno”, Olisipo: Boletim do Grupo “Amigos de Lisboa”, Ano XXV, nº 98, Abril, 1962, pp. 65-66. 

SILVA, Augusto Vieira da, “Panorama de Lisboa em azulejos existente no Museu Nacional de Arte Antiga”, in Armas e Troféus – Revista de História e Arte, vol. I, 1932 (publicado em Dispersos, vol. II, Lisboa, CML, 2ª ed., 1985.

Internet

Hospício de São João Nepomuceno e Santa Ana – Colégio de Santa Catarina, (Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106490447), Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (http://www.monumentos.pt, consultada a 01-08-2025).


LOCALIZAÇÃO