SOBRE O EDIFÍCIO
A construção da casa nobre do desembargador José Pereira de Sousa, poderá remontar ao início do século XVIII, tendo em conta a inscrição «1721» aposta na pedra de cunhal que marca o gaveto entre a rua da Esperança e a travessa das Isabéis. A representação deste edifício, localizado na rua da Esperança 116-126, na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, permite compará-lo com a sua configuração atual, que se mantém quase inalterada. Com efeito, a fachada do imóvel é claramente identificável por trás da praia de Santos, numa área desafogada da então rua Direita da Esperança — artéria que fazia a ligação entre a zona de Alcântara e o Bairro Alto, ligando a rua das Janelas Verdes à calçada do Combro através da rua do Poço dos Negros.
A conformação do edifício, implantado no gaveto entre a rua da Esperança e a travessa das Isabéis, sugere a possibilidade de este resultar de obras que juntaram dois corpos distintos, voltados respetivamente para as duas ruas (Pereira, 2022). Esta junção é marcada por uma pilastra de pedra que divide assimetricamente a fachada principal, ritmada por oito vãos distribuídos pelos andares superiores — janelas de sacada no piso nobre e janelas de peito no primeiro andar —, enquanto o piso térreo apresentava originalmente um único grande portal de entrada, decorado com um friso. Apesar da sua sobriedade, este imóvel ocupa um lote de dimensão considerável, destacando-se no tecido urbano circundante e apresentando características típicas de uma casa nobre.
Em 1769, altura da realização do desenho, o imóvel é registado nas Décimas da cidade como «propriedade do Ilmo. José Pereira de Sousa que consta de dois quartos nobres», estando parcialmente arrendado a «Francisco Xavier de Passos, Tesoureiro do Senado»[1]. Muito provavelmente, José Pereira de Sousa, «Capitão da Cavalaria de Alcântara», terá herdado esta propriedade do seu pai, homónimo e desembargador[2].
Em termos de população, o bairro de Santos conjugava a presença de famílias da alta nobreza com aquelas pertencentes à nobreza de toga e a burguesia, registando-se aqui muitas moradas de desembargadores, capitalistas e comerciantes ligados às atividades marítimas, que escolhiam esta zona para a sua residência — própria ou arrendada. José Pereira de Sousa pertencia a esta faixa social e terá sido uma pessoa abastada, sendo proprietário de alguns terrenos nos bairros de Alfama e Santos, como o «pedaço do terreno entre a Rua Nova que vai para o Cais do Tojo e a Rua Direita de Nossa Senhora da Piedade da Esperança, ou dos Barbadinhos»[3] que aforou, em 1778, ao conde de Vila Nova «para nele fazer casas»[4].
Não se conhece, até agora, a história do edifício no século XIX, sendo que as mudanças de proprietários e de conformação ficaram pouco percetíveis exteriormente, à exceção do rés-do-chão, que conta agora com sete portas, em vez de uma. A existência destas aberturas deve-se ao caráter comercial que o piso térreo do edifício foi adquirindo, possivelmente já no século XIX e ao longo do século XX, chegando a ser ocupado por uma mercearia, um restaurante e uma sapataria, esta última com entrada na travessa das Isabéis. Em 2017, o imóvel foi adquirido pelo grupo DOME Invest para ser transformado num condomínio de apartamentos. As obras, com projeto do atelier Appleton e Domingos Arquitetos, foram concluídas em 2022. Michela Degortes
[1] AHTC, DC 5933. Decima da Cidade, Freguesia de Santos, ano 1769. Arruamentos, fl. 10v, nº 47. Propriedade do Ilmo. José Pereira de Sousa que consta de dois quartos nobres Primeiro quarto avaliado em 30.000reis onde mora o dono Cap. da Cavaleira de Alcântara. Segundo quarto arrendado em 144.000 a Francisco Xavier de Passos (?) Tesoureiro do Senado (segue lista de 3 criados).
[2] ANTT, Ministério do Reino, mç. 778, proc. 33. Requerimento de de padre Joaquim de Macedo, sobre execução ao capitão José Pereira de Sousa, como herdeiro do seu pai, o desembargador José Pereira de Sousa.
[3] ANTT. Casa de Abrantes, cx. 38, mç.115, doc. 2285. Traslado da carta de aforamento perpétuo e obrigação feita por Manuel de Lorena, como administrador de seu neto, conde de Vila Nova, a José Pereira de Sousa, capitão de cavalaria, e sua mulher D. Ana Clara, de um pedaço do terreno entre a Rua Nova que vai para o Cais do Tojo e a Rua Direita de Nossa Senhora da Piedade da Esperança, ou dos Barbadinhos, para nele fazer casas, pelo foro anual de 26.400 réis. Carta de aforamento datada de 28 de abril de 1778.
[4] Ibidem.
BIBLIOGRAFIA
Fontes
Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (AHTC):
Livros da décima da cidade de Lisboa (DC), Freguesia de Santos, Arruamentos, DC 5933, ano de 1769, fl. 10v, nº 47.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT):
Casa de Abrantes, cx. 38, mç.115, doc. 2285 e doc. 2273.
Ministério do Reino, mç. 778, proc. 33
Feitos Findos, Juízo de Inspeção de Bairro, Bairro da rua Nova, mç. 26, cx. 228.
Arquivo Municipal de Lisboa (AML):
Obra nº 16206
Referências Bibliográficas
GUIA, L. Martins. A vista de Lisboa da Academia Nacional das Belas Artes e o seu seguimento (Dissertação de Mestrado em Arquitetura). Instituto Superior Técnico, 2022.
PEREIRA, B. Moura Gomes. O processo de reabilitação de umas antigas Casas Nobres na rua da Esperança em Lisboa (Dissertação de Mestrado em Arquitetura). Instituto Superior Técnico, 2022.