SOBRE O EDIFÍCIO
Foi mandada edificar por Braz de Albuquerque, filho bastardo do primeiro Vice-Rei da Índia, Afonso de Albuquerque, por volta de 1523, num “chão” que a família possuía pelo menos desde 1508 na Ribeira, junto às Portas do Mar.
Seguindo o exemplo de D. Manuel, os grandes senhores da aristocracia, ligados a altos cargos militares, como os Noronhas, os Menezes, os Távoras, os Condes de Linhares, haviam começado a construir as suas residências nobres ao longo da faixa fluvial que corria da frente norte do Terreiro do Paço em direcção a oriente. Desenvolveu-se assim nesta zona, das mais arejadas e concorridas da cidade, uma linha contínua de edifícios encostados à antiga muralha que, por esta altura, tinha sido já demolida ou reaproveitada nalguns troços.
A Casa dos Bicos ocupava um espaço relativamente exíguo, de configuração quase rectangular e acentuado declive. Apresentava dois pisos na frontaria principal e quatro na fachada virada ao rio, correspondentes a loja, sobre-loja e dois andares nobres, sendo coberta por telhado em harmónio com três núcleos de quatro águas praticamente iguais entre si. Junto á empena oriental existia uma escada de serventia pública que fazia a ligação entre a Ribeira e a zona alta da cidade, sistema bastante utilizado nos palácios desta área de Lisboa, tendo algumas destas passagens sido construídas em substituição de antigos postigos da “cerca velha”.
Na fachada norte, onde imperava a simplicidade, rasgava-se o portal nobre da habitação. A frontaria sul, mais elaborada do ponto de vista estilístico, era coberta por um amplo xadrez de relevos piramidais que alternavam com blocos lisos na diagonal, no qual se abriam várias portas e janelas de recorte manuelino (com molduras em arco de volta perfeita, chanfradas, quadrangulares, maineladas), dispostas de forma assimétrica. A separação entre os pisos inferiores e os andares nobres era marcada por um friso de silharia bastante saliente que se impunha no conjunto. No penúltimo piso do edifício encontrava-se uma elegante galeria mediterrânica, que se desenvolvia sob três arcos, abrindo cenograficamente ao Tejo.
O portal principal dava acesso a um pátio interior, virado a norte, implantado ao nível do pavimento da loggia, que fazia a distribuição para as restantes dependências da residência. Tal como era comum noutras construções palacianas da época, algumas salas encontravam-se revestidas por azulejos enxaquetados em azul e branco e hispano-árabes (sevilhanos) com motivos de laçaria geométricos e ornamentos florais de influência renascentista, como o comprovam vários exemplares recolhidos no local. As intervenções arqueológicas realizadas (entre 1981 e 1982) puseram também a descoberto elementos cerâmicos de pavimento de origem levantina (Manizes), decorados com trevos ou composições heráldicas, bem como, ao nível do rés-do-chão, um pavimento em “espinha” de raiz mudéjar, junto à empena nascente, que terá integrado a já referida serventia pública (Amaro, 2002).
A edificação, atribuída a Francisco de Arruda (Pereira, 1990), destacava-se das restantes casas nobres da zona devido à sua original fachada sul na qual foi utilizado um paramento pouco comum que imitava o efeito rusticado, recriando o bugnatoitaliano. Apesar da presença em Espanha de várias construções pertencentes á mesma tipologia arquitectónica, como a “Casa dos Picos” de Segóvia e o Palácio dos Duques do Infantado (ambos do século XV), tudo indica que Braz de Albuquerque se tenha inspirado em alguns edifícios renascentistas de Itália, como o Palazzo Bevilacqua de Bolonha (século XV) ou o Palazzo Dei Diamanti de Ferrara (século XVI), uma vez que se havia deslocado àquele país em 1522, integrado no séquito que acompanhou a Infanta D. Beatriz (1504-1538), aquando do seu casamento com o Duque Carlos de Sabóia. No entanto, contrariamente ao que acontecia nestas construções, onde a utilização da malha reticulada implicava a aplicação de uma métrica no desenho da fachada, na Casa dos Bicos operou-se uma transgressão desta lógica racionalista, sendo o ritmo das aberturas determinado pelos valores e necessidades funcionais do interior (Carita, 1983). Reflectindo as mudanças de mentalidade resultantes do fenómeno dos Descobrimentos, a residência dos Albuquerques consubstanciava também a confluência harmoniosa de duas tradições tipológicas: uma de raiz renascentista, humanista e italianizante, patente no paramento aplicado e outra, de tradição tardo-gótica, à maneira mudéjar, expressa na morfologia dos vãos (Leite, 1995).
Em 1581, após a morte de Braz de Albuquerque, a Casa dos Bicos sofreu várias alterações que lhe modificaram a traça primitiva. A “passagem pública” que a atravessava daria origem a um conflito entre os proprietários e o Senado da Câmara, uma vez que os primeiros pretendiam apropriar-se do espaço. Vencida a contenda judicial a favor de D. João Afonso por volta de 1643, este promoveu obras na habitação, entre as quais a construção de uma escada central dotada de dois lances, o que implicou a reestruturação das áreas interiores[1]. Sensivelmente pela mesma altura surgiu um outro diferendo que terminaria com o derrube de uma cocheira construída em plena Ribeira devido à falta de espaço. Neste contexto, tornou-se necessário encontrar uma solução no interior da residência, tendo sido adaptada para o efeito uma das salas, situada ao que tudo indica na frente norte da casa, tendo em conta o tipo de pavimento e as argolas de amarração ali encontradas (Amaro, 2002).
No século XVII, mais propriamente em 1627, ali vivia D. Vicente Nogueira (1585-1654), Desembargador da Casa da Suplicação e Cónego da Sé de Lisboa e “um leitor compulsivo, um bibliófilo singular e um mecenas reconhecido” (SERAFIM e CARVALHO, 2011: 18)
A partir do século XVII e acompanhando uma tendência que se fazia sentir em Lisboa decorrente do clima de intolerância religiosa então vivido, assistir-se-ia ao emparedamento da loggia, tal como se encontra testemunhado num painel de azulejos anterior ao Terramoto de 1755[2].
Por esta altura acentuou-se a decadência desta zona da cidade, tendo contribuído para o efeito as precárias condições de higiene do Bairro de Alfama, decorrentes, entre outros factores, das ruas estreitas e sinuosas que criavam também grandes dificuldades à circulação dos coches. Preterida pela nobreza a favor do Bairro Alto, com as suas artérias mais largas e desafogadas, a área perdeu gradualmente o seu pendor aristocrático. Continuava, no entanto, fortemente vocacionada para a actividade comercial, constituindo o mais importante espaço da cidade para a venda de géneros alimentícios. A Casa dos Bicos não escapou a esta tendência tendo sido sintomaticamente arrendada a um negociante inglês de bacalhau.
O terramoto de 1755 atingiu fortemente o edifício que perdeu os dois andares nobres e sofreu também as graves consequências do incêndio que se lhe seguiu.
Fernando M. Peixoto Lopes, Margarida A. Bastos
[1] No decurso das demolições verificou-se a existência de duas portas quinhentistas entaipadas, facto que poderá estar relacionado com as intervenções promovidas por aquele proprietário (Amaro, 1994)
[2] Painel pertencente ao Museu da Cidade (nº inv. MC.AZU.0073) representando a Ribeira Velha, datável dos inícios do século XVIII. A peça, proveniente de um muro de jardim de uma casa situada na estrada de Benfica nº 385, é atribuída ao monogramista P.M.P.
Como citar: Fernando M. Peixoto LOPES e Margarida A. BASTOS, “Casa dos Bicos” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
AMARO, Clementino, “ Casa dos Bicos” in Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, Livros Horizonte, 1994, pp. 228-230.
AMARO, Clementino, “Percurso Arqueológico através da Casa dos Bicos” in De Olisipo a Lisboa. A Casa dos Bicos, Lisboa, CNCDP, 2002, pp. 11-27.
CARITA, Hélder; CONCEIÇÃO, João Paulo; PIMENTA, Miguel, Elementos para o Estudo da Casa dos Bicos, Lisboa, 1983.
LEITE, Ana Cristina, «Os centros simbólicos» in História da Arte Portuguesa, dir. Paulo Pereira, vol. 2, Lisboa, Temas e Debates, 1995, pp. 69-82.
MOITA, Irisalva, “Vista Panorâmica da Cidade de Lisboa existente na Biblioteca de Leyde” in Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, IV série, nº 95, 1º tomo, 2009, pp. 27-57.
PEREIRA, Paulo, A Obra Silvestre e a Esfera do Rei, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1990.
SERAFIM, João Carlos Gonçalves e CARVALHO, José Adriano de Freitas, Um diálogo Epistolar D. Vicente Nogueira e o Marquez de Niza (1615-1654) , Porto, Edições Afrontamento, Univ. Porto / CITCEM, 2011.