SOBRE O EDIFÍCIO
Pairam dúvidas sobre a origem e fundação do nobre edifício conhecido pela designação de casa dos governadores da Torre de Belém. Sabemos que o primeiro capitão-mor desta fortaleza, nomeado pelo rei D. Manuel I, foi Gaspar de Paiva. É natural que este fidalgo devesse ter uma casa condigna para seu alojamento situada fora da torre cuja exiguidade de espaço era então como agora bem patente. O desmantelamento da fortaleza de Belém, defronte da Torre, não levaria necessariamente à destruição de uma eventual residência que o Governador aí possuísse. Isso só aconteceria se o dito governador detivesse na área uma outra casa, que lhe permitisse abdicar da primitiva residência quinhentista; tal só viria a verficar-se a partir da nomeação do quarto conde de Atalaia, já na segunda metade do século XVII. Até lá, os sucessivos governadores da Torre de Belém poderiam ter as suas casas no local da antiga fortaleza de Belém (RIBEIRO, 1949: 317).
A primitiva residência do capitão ou governador da Torre de Belém deveria situar-se na fortaleza de Belém, que ocupava a praia fronteira à torre. Essa é a opinião abalizada de Mário de Sampayo Ribeiro: quando o cargo de governador da Torre de Belém se transformou em “choruda prebenda”, o que restava da inacabada Fortaleza [de Belém] foi desmantelado e em seu lugar se levantou a grande casa nobre, que ficou vinculada ao cargo de Governador da Torre e onde vieram habitar os Condes da Atalaia e Marqueses de Tancos (RIBEIRO, 1949: 187).
Em 1620, o roteiro de Frei Nicolau de Oliveira, ao referir o princípio ou extremo da cidade de Lisboa pela banda ocidental, afirma que “a primeira coisa que se encontr (quer se chegue por mar ou por terra), é a formosa quinta do Provedor da Alfândega; fica-lhe em frente a do Conde de Atalaia; entre as duas, está a estrada; e são como dois marcos desta cidade, pela parte ocidental (OLIVEIRA, 1620: 599). Por esta descrição, ainda que vaga, podemos inferir que as duas citadas quintas situadas uma me frente da outra de cada lado da estrada, seriam as primeiras a serem avistadas pelo viajnate que viesse de poente.
A referência à casa em estudo com associação explícita ao cargo de governador da Torre de Belém surge apenas no tempo do quarto conde de Atalaia, D. Luís Manoel de Távora, que se sabe ter residido naquela zona de Pedrouços e desempenhado a mencionada função por finais do século XVII. Numa vista panorâmica de Lisboa, datada de meados do século XVIII, é perfeitamente visível o contorno da casa da dita do governador, com uma volumetria semelhante à que actualmente apresenta. Funcionava então como residência de D. João Manoel de Noronha, primeiro marquês de Tancos e sexto conde de Atalaia, filho do acima mencionado quarto conde de Atalaia que exerceu igualmente as funções de governador da Torre de Belém. Parece pois de concluir que a casa que aqueles titulares habitaram era pertença da sua família e não utilizada na qualidade de governadores, não tendo portanto a natureza de residência oficial.
Na verdade, apenas já entrado o século XIX se encontram outros governadores, estranhos à família dos marqueses de Tancos e condes de Atalaia, com residência estabelecida na mesma casa, como foi o caso do primeiro duque da Terceira.
A casa dos governadores chegou a pertencer à Coroa que a vendeu em 1854 ao segundo marquês de Viana, D. João Manoel de Meneses, curiosamente neto do terceiro marquês de Tancos e, por esta via, descendente daqueles antigos governadores da Torre de Belém. Após a morte do segundo marquês de Viana, em 1890, a casa transitou para a sua viúva e para herdeiros colaterais, entre os quais a Casas dos marqueses de Rio Maior. Ao longo de todo o século XX, a casa foi sendo subalugada a diversos particulares (funcionaram nela, por exemplo, um asilo, um colégio feminino de invocação de Nossa Senhora do Carmo, uma fábrica de rolhas, a leitaria Marítima, uma oficina metalúrgica e outra de reparação de redes de pesca) e a instituições estatais (como a Escola de Pesca de Lisboa, a Caixa de Previdência e Abono de Família dos Profissionais da Pesca e o Centro Regional da Segurança Social de Lisboa (NÉO, 1998: 95).
Miguel Metelo de Seixas
Como citar: Miguel Metelo de SEIXAS, “Casa do Governador da Torre de Belém” in Vistas de Lisboa, Pedro FLOR (coord.), site do projeto de investigação (PTDC/ART – HIS/0985/2021), Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2026.
BIBLIOGRAFIA
BIBLIOGRAFIA
OLIVEIRA, Fr. Nicolau de, Livro das Grandezas de Lisboa [1620], Lisboa, Ed. Vega, 1991.
NÉO, João B., Em Volta da Torre de Belém, vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1998.
RIBEIRO, Mário de Sampayo, Do sítio do Restelo e das suas Igrejas, Lisboa, Soc. Astória, 1949.
Esta entrada corresponde a uma adaptação do texto do autor para figurar no presente site, publicado em Isabel Correia da SILVA e Miguel Metelo SEIXAS, Belém: Monografia histórica, Lisboa, Junta de Freguesia de Belém, 2009, pp. 103-109.